• Paulo Vinicius

Resenha: "Aniquilação" (Trilogia Comando Sul vol. 1) de Jeff Vandermeer

Um grupo de especialistas é enviado para a Área X, uma estranha região que surge em uma região isolada do mundo. Criaturas estranhas habitam o local. A protagonista faz parte da décima segunda expedição enviada até lá. Das anteriores, quase ninguém retornou e os que assim o fizeram nunca mais foram os mesmos.


Sinopse:


O Livro que deu origem ao filme da Netflix. A Área X está isolada do restante do mundo há décadas, e a natureza tomou para si os últimos vestígios da presença humana. Uma primeira expedição de reconhecimento voltou de lá relatando uma terra intocada, um paraíso edênico; a segunda terminou em suicídio em massa; a terceira, em um tiroteio dentro do próprio grupo. Até que os membros da décima primeira expedição retornaram como meras sombras do que eram antes e, após algumas semanas, morreram de câncer. Em Aniquilação, primeiro volume da trilogia Comando Sul, o leitor se junta à décima segunda expedição.

O novo grupo é formado por quatro mulheres: uma antropóloga, uma topógrafa, uma psicóloga — líder da missão — e uma bióloga, a narradora do livro. Seus objetivos são mapear o terreno, identificar todas as mudanças ambientais, monitorar as relações entre elas próprias e, acima de tudo, não se contaminarem.

As mulheres atravessam a fronteira esperando o inesperado... e é exatamente isso o que encontram. Mas o que de fato vai definir os rumos da expedição não é o que está lá, e sim o que elas trazem consigo desde o outro lado da fronteira e os segredos que guardam umas das outras.





A fronteira entre o estranho e o real


Este é o primeiro volume de uma série que fez um enorme sucesso nos EUA. O autor é conhecido por escrever weird fiction, um gênero literário que explora uma ficção científica com mais liberdade. Outro exemplo de weird fiction é o livro Estação Perdido, de China Miéville (link para resenha aqui). As linhas entre a fantasia e a realidade são muito borradas e dependendo do objetivo do autor durante a narrativa, tudo parece algo onírico. Jeff Vandermeer consegue fazer isso de forma muito competente em Aniquilação. A história, apesar de pesada, nos mantém interessados o tempo todo. Não há furos de enredo e os que tem são propositais. O filme que saiu na Netflix é baseado nesse primeiro volume e pelo que eu pude perceber, eles adaptaram fielmente.


Vandermeer emprega uma escrita bem perigosa se não fosse feita com tanta maestria. A narrativa é feita em primeira pessoa, visto do ponto de vista da bióloga, a quem seguimos por toda a história. Nenhum nome é dado aos personagens, deixando tudo impessoal. É uma tática do Comando Sul para que houvesse maior eficiência na missão, sem permitir que os personagens se deixassem levar por suas emoções. O efeito conseguido por Vandermeer é semelhante ao que Cormac McCarthy consegue em A Estrada. Isso faz com que todas as ações das personagens sejam mais observadas por nós, já que não temos uma projeção. Dá um efeito de coisificação em que os personagens funcionam quase como instrumentos do Comando Sul para realizar a missão. Ao longo da narrativa a gente vai percebendo o quanto as personagens são dispensáveis para seus superiores.


"Naquela época tudo o que eu procurava era o esquecimento, e o procurava naqueles rostos vazios e anônimos, e mesmo no mais dolorosamente familiar, uma espécie de escape benigno. Uma morte que não significasse continuar morta."

A forma de escrita de Vandermeer também é bem diferente. Ele emprega um estilo descritivo ao lado da narração. A bióloga está nos descrevendo o que ela passou durante o tempo em que ficou na Área X, como em uma espécie de diário. Só que a sua narrativa nem sempre é linear porque ela vai associando suas memórias e experiências ao contexto em que ela se encontra. Portanto, terá um momento em que ela vai explicar por que ela se tornou uma bióloga, como ela acredita que ela tenha sido escolhida, sua relação com o marido. Aliás, esta última vai ser uma parte importante de Aniquilação. É preciso apontar que a bióloga é uma narradora totalmente não confiável. Ela esconde informações, tira algumas conclusões que podem não condizer com o que está acontecendo. Fica aquela observação para desconfiar e muito do que ela diz.


"Há muito tempo eu tinha parado de acreditar em promessas. Imperativos biológicos, sim. Fatores ambientais, sim. Promessas, não."


A Área X é um local ainda pouco explicado nesse primeiro volume. Só sabemos que onze expedições foram enviadas para lá e nenhum dos exploradores que foi até lá voltou incólume ou sequer vivo. Existem relatos de as equipes desaparecerem pouco a pouco e algum tempo depois eles aparecem inexplicavelmente na área de fronteira. A décima segunda expedição é enviada com um time formado apenas por mulheres. Temos uma psicóloga (a líder da equipe), uma bióloga, uma arqueóloga e uma topógrafa. Havia também uma linguista, mas ela desistiu da missão antes de seu início. A presença da psicóloga se dá também por sua habilidade como hipnotizadora, voltada para deixar os ânimos da equipe mais calmos e focados na missão. Esta é uma missão de reconhecimento, de forma a catalogar o lugar, as espécies e o que for de estranho no lugar.


Em pouco tempo de história vamos percebendo que as coisas não são exatamente como devem ser. Todos na equipe se revelam ser pessoas com agendas diferentes daquelas que inicialmente eram da missão. Seja por uma instrução dos superiores, seja por influência do próprio ambiente que tem a habilidade de mexer com a mente das pessoas. Embora estejamos seguindo com a bióloga como protagonista, ela também passa a ter seus próprios objetivos que ela vai nos apresentando. Esse ar de desconfiança prossegue por toda a história e mantém uma tensão constante. O perigo sempre é iminente. E o leitor não sabe se é o ambiente quem vai atacar os personagens e são os próprios que vão atacar uns aos outros.


"Estou convencido de que tivemos acesso aos relatórios porque não fazia diferença se tínhamos conhecimento ou não de determinados tipos de informação sigilosa. Havia apenas uma conclusão lógica: a experiência dizia aos nossos superiores que poucos de nós voltaríamos, se é que alguém conseguiria."

Vandermeer constrói uma narrativa repleta de mistérios. Camadas e mais camadas de informações desencontradas que não podem ser levadas ao pé da letra. Acabamos enganados junto da protagonista. Vamos juntando os pedaços de informação ao lado dela e descobrindo algo muito maior do que a ideia inicial de reconhecimento. A sensação é de estarmos assistindo a uma temporada da série Lost em que nem sempre podemos confiar no que nos é passado e somente lá na frente entendemos como tudo se encaixa no contexto geral. Mesmo sendo um livro pequeno, ele é carregado de informações e detalhes que parece ter o dobro do tamanho. E o mais curioso ainda é que a narrativa toda se passa dentro de um pequeno espaço na Área X deixando muita coisa a ser explorada.



É preciso destacar também a própria protagonista. Ela tem uma história que transcende a narrativa simples da Área X. Sendo um relato no estilo de um diário, a narradora ao mesmo tempo em que conta aquilo que está acontecendo com ela, relembra fatos do seu passado e associa com o presente. Então não vai ser estranho vermos trechos inteiros baseados em fluxo de pensamento em que uma coisa puxa a outra e assim por diante. Ela é uma personagem complexa, com dificuldade de se relacionar socialmente e cujo casamento vai se tornando o mote de suas reações. Ela é uma personagem naturalmente isolacionista e o trabalhar em equipe se torna um esforço grande. O fato de ela ser o motor que move a narrativa não é à toa dado que seu instinto se torna desconfiar das informações que lhes são passadas já que estas não podem ser confirmadas cientificamente.


O relacionamento dela com o marido também recebe bastante destaque. O como eles são tão diferentes e conseguiram encontrar um ponto em comum. As dificuldades da vida a dois com uma mulher tão diferente. Os meses que antecederam a ida de seu marido para a Área X. O seu estranho retorno e a maneira como o seu comportamento mudou. Ela não fala em termos de amor ou de afeto em relação a seu marido, mas acabamos entendendo que existe uma conexão entre eles, uma necessidade que eles tem de estar próximos um do outro. Sua perda, que acabou levando que ela aceitasse a ida para a Área X, foi um momento estranho para a bióloga.


"Um nome era um luxo perigoso ali. Sacrifícios não requerem nomes. Pessoas que serviam a um propósito não precisavam ser nomeadas. Por qualquer ângulo que eu encarasse, o nome era uma perturbação a mais, e indesejada, para mim - um espaço negro que continuava a crescer e crescer na minha mente."

Aniquilação é um daqueles livros difíceis de traduzirmos em palavras porque ele nos deixa sem. No entanto, possui tanta informação que nos deixa sem saber o que imaginar ao final do processo. As técnicas de escrita empregadas por Vandermeer são muito avançadas, o que enriquece e muito a experiência de leitura. A bióloga é uma protagonista fascinante que é quase como uma cebola, com muitas camadas revelando novas informações. O estranho está presente não só no cenário como também nos próprios personagens.










Ficha Técnica:


Nome: Aniquilação

Autor: Jeff Vandermeer

Série: Comando Sul vol. 1

Editora: Intrínseca

Número de Páginas: 200

Ano de Publicação: 2014


Outros Volumes:

Autoridade (vol. 2)

Aceitação (vol. 3)


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