• Paulo Vinicius

Resenha: "Estação Perdido" (Trilogia Bas-Lag vol. 1) de China Miéville

Atualizado: 1 de Mai de 2019

Nova Crobuzon é uma enorme cidade povoada por todo o tipo de pessoas: khepris artistas, cientistas humanos, garudas singrando os céus. Mas, esta enorme metrópole pode estar ameaçada quando o simples desejo de um garuda e os experimentos de um cientistas colocarão todos em perigo.

Sinopse:


China Miéville escreve fantasia, mas suas histórias passam longe de contos de fadas. Em Estação Perdido, primeiro livro de uma trilogia que lhe rendeu os maiores prêmios do gênero, como o British Fantasy (2000) e o Arthur C. Clarke (2001), o leitor é levado para Nova Crobuzon, na terra de Bas-Lag, uma cidade imaginária cuja semelhança com o real provoca uma assustadora intuição: a de que a verdadeira distopia seja o mundo em que vivemos. ''Com seu novo romance, o colossal, intricado e visceral Estação Perdido, Miéville se desloca sem esforço entre aqueles que usam as ferramentas e armas do fantástico para definir e criar a ficção do século que está por vir'', diz Neil Gaiman, que com ele compartilha o gosto por histórias ambientadas em cenários urbanos e soturnos. Com pitadas de David Cronenberg e Charles Dickens, Bas-Lag é um mundo habitado por diferentes espécies racionais, dotadas de habilidades físicas e mágicas, mas ao mesmo tempo preso a uma estrutura hierárquica bastante rígida e onde os donos do poder têm a última palavra. Nesse ambiente, Estação Perdido conta a saga de Isaac Dan der Grimnebulin, excêntrico cientista que divide seu tempo entre uma pesquisa acadêmica pouco ortodoxa e a paixão interespécies por uma artista boêmia, a impetuosa Lin, com quem se relaciona em segredo. Sua rotina será afetada pela inesperada visita de um garuda chamado Yagharek, um ser meio humano e meio pássaro que lhe pede ajuda para voltar a voar após ter as asas cortadas em um julgamento que culminou em seu exílio. Instigado pelo desafio, Isaac se lança em experimentos energéticos que logo sairão do controle, colocando em perigo a vida de todos na tumultuada e corrupta Nova Crobuzon.



Em Ciências Humanas dizemos que todo o pesquisador é parcial. Imparcialidade é uma mentira; é uma cortina que esconde aquilo que pensamos. Creio que isso é válido para a maior parte das escolhas ou atividades que fazemos. Todas elas são marcadas por aquilo que temos como valores. Certas obras de ficção estão impregnadas pelo pensamento daquele que escreveu. E, em um autor que é também um ativista, fica difícil dissociar ficção de opinião, de ideologia. Mas, como historiador que estudou diversas linhas de pensamento em sua formação, eu gostaria de fazer um exercício de evitar comentar tão explicitamente a tendência do autor. Vivemos um momento em que as pessoas parecem viver em um mundo maniqueísta (pelo menos no Brasil) e eu gostaria de valorizar a história e a escrita do autor. Farei um esforço... não sei se conseguirei.

Antes de mais nada, caro leitor, aviso de pronto: se você não é um leitor experiente e está conhecendo China Miéville pela primeira, largue este livro e procure outro dele. Recomendo Rei Rato ou Un Lun Dun. Sério! Este não é um livro para você. Estação Perdido é o magnum opus do autor e vem repleto de altos conceitos e ideias as mais malucas possíveis. Trata-se de uma leitura longa e difícil. A menos que você se permita certas liberdades durante a leitura, você vai ter muitos momentos em que não vai compreender absolutamente nada do que o China Miéville está escrevendo.

Apesar de a história ter uma série de elementos de ficção científica, ela não é um sci-fi. Isso porque ela possui vários elementos retrô durante a narrativa como carabinas, trens e engrenagens. Isso significa que é um steampunk? Também não porque o autor emprega alguns elementos e criaturas fantásticos como garudas, magias taumatúrgicas e tecidos dimensionais. Ah, então é uma fantasia? Também não porque existe uma vasta presença de tecnologia na narrativa. Posso dizer com precisão que Estação Perdido é um animal único. Existe em seu próprio subgênero, pegando elementos emprestados de outros subgêneros. Quando o leitor começa a ler a narrativa, é necessário entender que você não precisa entender as maluquices que o autor vai inserindo na história. Abandone isso. Abstraia. Se deixe levar. Por incrível que pareça, no espaço de cinquenta páginas, as insanidades do autor vão fazer total sentido para você. As duas primeiras partes do livro servem para aclimatar o leitor ao universo estranho criado para a composição do enredo.

“Se aceitar essa encomenda, eu a tornarei rica, mas também passarei a ser dono de parte de sua mente. A parte que me pertence. Essa será minha. Não lhe darei permissão para compartilhá-la com ninguém. Se o fizer, sofrerá enormemente antes de morrer.”

E eu entro em outro ponto da resenha: a criação do mundo. Raramente somos presenteados com um autor que sabe dar vida ao seu universo literário. Recentemente eu vivi isso ao ler Elantris de Brandon Sanderson, mas eu creio que Nova Crobuzon eleva isso um patamar acima. Diferente da escrita original e fantástica de Sanderson, Miéville cria um mundo vivo. A cidade pulsa com sentimentos e sensações. Todos aqueles que habitam a cidade se envolvem com ela através de alguma relação seja de amor, ódio, respeito, desprezo. A linha férrea que separa os diversos distritos da cidade é também algo que divide os diversos estratos sociais. Por um lado temos os khepris, criaturas que se assemelham a besouros e que são como uma classe artística na cidade, criando estátuas belíssimas através de suas secreções. De outro temos os cactóides, criaturas desconfiadas e soturnas, que às vezes funcionam como capangas de gangues criminosas, mas habitam um espaço separado de Nova Crobuzon chamado de A Estufa. Temos também os garudas, águias imensas com estrutura humanas e que possuem suas próprias leis e maneira de enxergar o mundo. Alguns habitam um distrito afastado da cidade, mas a maioria habita Cymek, uma região desértica próxima à cidade. No meio de tudo os humanos habitam a maioria destes distritos sempre com sua própria maneira de sobreviver. Alguns habitam cargos burocráticos corruptos, outros são chefes de gangue, alguns outros são cientistas ou empresários, mas a maioria vive nas franjas da cidade.

Miéville ao mostrar o grupo que controla a cidade, faz uma crítica bem explícita aos governos. Sempre apresentados como corruptos e ineficientes, uma das imagens marcantes é a tentativa de pacto que o prefeito Rudgutter tenta fazer com um demônio. Isso demonstra como o governo é comprometido da cabeça aos pés. Não só isso como o próprio prefeito afirma que essa prática é comum a vários de seus antecessores. Boa parte do problema que acontece na história é provocado pelo protagonista sim, mas se não houvesse todo o esquema de fornecimento de materiais sigilosos entre o governo e o sr. Mesclado, Isaac não teria posto as mãos nas larvas. Em sua história, o autor demonstra a proximidade que existe entre governos corruptos e o crime organizado. Chegamos a nos dar conta até de que o crime organizado possui uma estrutura mais eficiente do que o governo. E aí esta relação tem como consequência o tráfico de drogas na cidade. Tráfico este que o governo de Nova Crobuzon passa por cima. Não quer impedir as ações do sr. Mesclado já que ele possui grande importância para determinados negócios da cidade. O governo não quer se comprometer e contrariar o chefão.

“Voar não é um luxo; é o que faz de mim um garuda. Minha pele se arrepia quando olho para tetos que me aprisionam. Eu quero olhar para esta cidade do alto antes de deixá-la, Grimnebulin. Quero voar não uma vez só, mas sempre que desejar. Quero que você me restiutua o voo.”

Também vemos como o governo lida com as revoltas civis na cidade. Dois acontecimentos são bem marcantes: a greve dos vodyanois e a invasão ao Renegado Rompante. O objetivo da milícia governamental é bem claro: destruir a qualquer custo. Se alguém sair ferido, é efeito colateral. O despreparo da milícia é bem evidente. O que era para ser algo para tornar uma greve administrável sem que outros fossem feridos, se torna uma batalha campal. Ou seja, Miéville está colocando o aparato policial governamental como algo repressor. Não é voltado para dar segurança às pessoas, mas para assegurar o governo de que o seu aparelho continue a funcionar, mesmo contra a vontade da população.

Mas, okay, vamos sair um pouco da construção de mundo. Falemos um pouco dos personagens. No começo eu achei que a história se tratasse de algo como um Romeu e Julieta em um mundo estranho. Os protagonistas são Isaac, um cientista renegado e Lin, uma artista khepri que mantém uma relação de amor que vai contra os costumes da sociedade. Eu torci o nariz para isso em um primeiro momento, mas a maneira como o autor lida com o casal é de extrema maturidade. Só parece que vai ficar nisso, mas em pouco tempo o autor muda o foco e trata a relação com absoluta naturalidade dentro de seus conflitos. Eu adorei o casal. Não vou falar nada além disso. Os demais personagens são também muito interessantes. Como eu disse, o autor dá vida à cidade. E aqueles que habitam a cidade são parte importante do processo. Em pouco tempo o leitor está familiarizado com todos. E todos são muito humanos em suas qualidades e defeitos. Não existem estereótipos aqui. Nem mesmo o garuda Yagharek que mais tarde na história descobriremos muito mais sobre ele. Portanto, a construção e desenvolvimento de personagens é um aspecto de muito destaque na história.

Até a maneira como estes personagens se relacionam pode ser percebida de uma forma bem clara. Alguns se relacionam diretamente outros se conhecem através das múltiplas relações que existem dentro da cidade. O sr. Mesclado sempre esteve na mira de Isaac por conta de seus negócios com Gazid Sortudo. Não importa se Lin estava trabalhando para ele, Isaac iria cruzar com o chefão em algum momento na história. O mesmo podemos dizer da jornalista Derkhan que aparece como uma jornalista hipster no começo da história, mas que vai revelando suas múltiplas camadas à medida em que vamos nos embrenhando na narrativa.

A história segue bem linear ao longo do livro. Os subplots servem para dar uma riqueza maior ao universo e alguns até mesmo enriquecem a narrativa central. Pode não parecer em um primeiro momento, mas tudo o que acontece ao longo dos capítulos possui alguma importância. China Miéville deixou algumas pontas soltas para trabalhar em outras histórias, mas se você quiser parar a série aqui, você com certeza estará satisfeito. A narrativa é muito bem amarrada. Não existe muito espaço para falta de coerência aqui. O que, para você, é falta de coerência, na verdade não passa de insanidades inseridas pelo autor para compor o universo literário. Teiamundo, taumaturgia, outras dimensões. Passe por cima disso. Foque-se na narrativa. Talvez seja por esse motivo que muitos acabam não gostando muito do gênero New Weird; por eles buscarem sentido onde nunca houve um. Garanto a vocês que a história é sensacional.

"Uma volumosa voz soou por trás da mulher de rosto triste.
– Srta. Lin? A artista? Você está atrasada. O sr. Mesclado está esperando. Por favor, queira me acompanhar. 
A Refeita deu um passo para trás, equilibrando-se em sua perna central e balançando as outras atrás, dando a Lin espaço o bastante para dar a volta ao seu redor. O arpão permaneceu imóvel."

Meu único porém em relação à narrativa é que eu achei o livro grande demais. Por volta das partes 5 e 6 eu percebi uma certa encheção de linguiça. Não havia a necessidade de enrolar tanto o confronto final. Dava para cortar pelo menos umas cento e cinquenta páginas das 600. Tornou as últimas partes muito maçantes e cansativas. Quando eu cheguei na sétima parte onde acontece o clímax da história, eu já estava bem desgastado. Porque, novamente, é uma leitura que exige bastante atenção do leitor. Ela não permite que o leitor flutue pelos parágrafos. Se eu perco a compreensão de uma ou duas páginas, perdi boa parte do fio da meada. Outra coisa que me incomodou um pouco no aspecto narrativo é que o autor é muito explicativo em alguns trechos. Parece até que ele está dando uma palestra. Quando Isaac vai explicar a energia de crise para Yagharek somos afogados em dez páginas pesadas de explicação. Isso não acontece apenas nessa oportunidade. Mas, esta foi a mais explícita de todas. As informações sobre energia de crise poderiam ter sido espalhadas em outros momentos da história. Ou até ser colocada de uma maneira que não fosse uma palestra.

Enfim, Estação Perdido é um livro desafiador, porém fantástico sobre diversos aspectos. Eu poderia falar mais sobre outros temas da história como o confronto entre a ordem dos Construtos e o caos do Tecelão, mas acredito que seria bacana o leitor se deparar com estas outras descobertas durante a história. Miéville me mostrou um universo vivo e pulsante, repleto de personagens que possuem suas próprias histórias. Trata-se de uma história em que o leitor precisa aceitar o estranho e se deixar maravilhar pela decadente cidade de Nova Crobuzon.


Ficha Técnica:


Nome: Estação Perdido

Autor: China Miéville

Editora: Boitempo

Gênero: Ficção Científica (New Weird)

Tradutor: José Baltazar Pereira Júnior com a colaboração de Fábio Fernandes

Número de Páginas: 608

Ano de Publicação: 2016


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