• Paulo Vinicius

Resenha: "Alma?" (O Protetorado da Sombrinha vol. 1) de Gail Carriger

Em uma Inglaterra vitoriana repleta de vampiros, lobisomens e fantasmas, somos apresentados à solteirona mais teimosa e intrigante da literatura: Alexia Tarabotti. Junto com o conde Maccon eles terão que solucionar o mistério do aparecimento de uma série de seres sobrenaturais não-registrados.




Sinopse: Alexia Tarabotti enfrenta uma série de atribulações sociais, quiproquós e saias justas (embora compridíssimas) em plena sociedade vitoriana.

Em primeiro lugar, ela não tem alma. Em segundo, é solteirona e filha de italiano. Em terceiro, acaba sendo atacada sem a menor educação por um vampiro, o que foge a todas as regras de etiqueta. E agora? Pelo visto, tudo vai de mal a pior, pois a srta. Tarabotti mata sem querer o vampiro ― ocasião em que a Rainha Vitória envia o assustador Lorde Maccon (temperamental, bagunceiro, lindo de morrer e lobisomem) para investigar o ocorrido.

Com vampiros inesperados aparecendo e os esperados desaparecendo, todos parecem achar que a srta. Tarabotti é a responsável. Será que ela conseguirá descobrir o que realmente está acontecendo na alta sociedade londrina? Será que seu dom de sem alma para anular poderes sobrenaturais acabará se revelando útil ou apenas constrangedor? No fim das contas, quem é o verdadeiro inimigo, e... será que vai ter torta de melado?




A expressão "show, don't tell" se tornou famosa nos últimos tempos graças a autores como George R.R. Martin e Brandon Sanderson. Ela denota um estilo de escrita que se preocupa menos com o excesso de descrições e procura dinamizar a história. Isso entendendo que nem tudo precisamos descrever, mas devemos deixar para a imaginação do leitor fantasiar aquilo que se passa no cenário. Entretanto, não é possível deixar o leitor sem informações. O autor precisa apresentar o seu universo literário e como ele funciona. Essa discussão se tornou um terrível dilema de escrita criativa. Mas, nossa autora aqui, a srta Carriger, consegue nos dar uma aula de como apresentar o seu universo literário de maneira muito dinâmica.

Em uma ida a uma festa de gala, Alexia Tarabotti é atacada por um vampiro estranho e sem conhecer os modos sobrenaturais da sociedade inglesa. Quando o conde Maccon, responsável por lidar com casos sobrenaturais em nome da rainha Vitória, chega até o lugar, ele não se espanta em ver a srta. Tarabotti envolvida em mais uma das suas. Já se tornou piada do departamento a estranha relação entre Connall e Alexia. Entretanto, esse estranho acontecimento revelará uma terrível conspiração que afeta todos os vampiros e lobisomens de Londres. E Alexia, sendo uma preternatural (alguém que não pode ser afetada pela maldição dos vampiros e dos lobisomens) estará no meio dos casos. O que não agradará nem um pouco o conde Maccon... mas nos divertirá bastante. Neste primeiro volume vamos conhecer muito do mundo de Alexia Tarabotti e torcermos para esta linda e irônica italiana solteirona arrumar um bom partido ao mesmo tempo em que espeta quem não a agrada com sua inseparável sombrinha.

Que livro gostoso de ser lido! Novamente é um daqueles livros que devoramos em poucos dias. Levei quatro com esse porque não queria parar mais de ler. Em um dia só li mais da metade dele (geralmente os meus hábitos de leitura compõem entre 40 - 80 páginas por dia). Esse eu li mais de 150 no primeiro dia. Tive que pisar no freio para saborear mais a escrita da autora. O que mais me surpreende é como a autora foi capaz de passar um absurdo de informações sobre o mundo sobrenatural e a sociedade londrina sem parecer cansativo. Às vezes através de um diálogo, da descrição de uma festa ou das observações de Alexia somos completamente tragados para este interessante mundo de corte e hábitos.

Também destaco a habilidade da autora em construir personagens interessantes. Alexia é o protótipo da mulher independente e de vanguarda em uma sociedade com costumes que tendiam a prender muito mais do que soltar suas mulheres. Entretanto, a protagonista se vale de seu baixo status para transitar entre vários destes ambientes. Ao mesmo tempo, Alexia tem seus momentos de fragilidade que ela busca esconder a todo custo. Sua paixão pelo conde Maccon só pôde ser liberada quando ela percebeu a possibilidade de poder de fato estar junto com ele. A química entre os dois personagens é fascinante. E ambos são personagens muito complementares. Enquanto Alexia é uma pensadora e acaba agindo de forma descuidada, o conde Maccon acaba sendo a sua contraparte precisando passar por toda a burocracia do governo. Além disso, a sua falta de tato social combina com a habilidade diplomática de Alexia.




Os demais personagens também são muito bem trabalhados possuindo características marcantes que os tornam indivíduos e não parte de uma massa. A Sra. Loontwill e seus xiliques junto com as irmãs que querem arrumar um casamento; o professor Lyall e seu jeito lacônico de ser; a amiga Hisselpenny que sempre está disposta a ouvir alguma novidade; lorde Akeldama e seu estilo excêntrico. Nesse primeiro volume, a autora constrói personagens que podem render muitas histórias. São as bases para a construção de um enorme edifício.

A ambientação é rica no estilo vitoriano. Podemos ver os maneirismos e as necessidades das damas e cavalheiros em impressionar e se destacar dentro daquele estranho mundo da corte. A autora caprichou em nos apresentar todos os detalhes deste mundo e frisar com precisão como o bom comportamento pode afetar ou não o que os outros pensam a seu respeito. Esse estilo de vida é presente em todos os âmbitos da vida de um indivíduo: na casa, na rua, nas festas, no modo de se vestir, no como falar. Em alguns momentos, podemos notar como Alexia precisa construir todo um personagem, utilizar uma máscara social completamente diferente de sua verdadeira persona.

Vemos o mundo pelos olhos e Alexia. Entretanto, a escrita é em terceira pessoa. A protagonista serve como nossa guia por esse estranho mundo. Seus comentários mordazes são usados como crítica ou destaque para um determinado comportamento ou forma de se vestir. Os capítulos são bem dinâmicos e podem ser facilmente transpostos para uma série de televisão. Não sei se a autora pretende isso em algum momento ou se já está em vias de trazer algo da personagem, mas o livro dá boas pistas para isso. Não tive nenhuma dificuldade com o vocabulário usado pela autora e ela demonstra quando ela alterna para uma fala mais reverencial ou quando ela está descontraída. Aliás, o estilo da personagem ajuda nessa transição.

Gostei muito de Alma. Me apresentou uma história consistente e personagens dos quais nos apegamos rapidamente. Gail dá uma aula sobre como apresentar de maneira harmoniosa o seu universo literário. Ela deixa alguns ganchos bem interessantes para o próximo livro. Vale a pena conferir!




Ficha Técnica:


Nome: Alma?

Autora: Gail Carriger

Série: O Protetorado da Sombrinha vol. 1

Editora: Valentina

Gênero: Ficção Científica (Steampunk)

Tradutora: Flávia Carneiro Anderson

Número de Páginas: 308

Ano de Publicação: 2013


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