• Paulo Vinicius

Resenha: "Alena" de Kim W. Andersson

Alena e Josefin tem uma história juntas. Mas, elas não são aceitas em sua escola conservadora. Só que acontece um desastre e Alena perde a companhia de Josefin. Agora, ela precisa enfrentar um grupo de jogadoras de lacrosse que infernizam sua vida. Mas, embora morta, Josefin ainda faz companhia para Alena.


Sinopse:


A vida de Alena é um inferno. Desde que começou a estudar em um colégio cheio de colegas esnobes, ela sofre bullying de Filippa e das outras meninas do time de lacrosse. A melhor amiga de Alena acha que já chega de aguentar todo esse abuso. Seja da conselheira, do diretor, de Filippa ou de qualquer outra pessoa nessa escola repulsiva. Josefin promete resolver o assunto por conta própria a menos que Alena dê o troco. Só existe um problema: Josefin está morta há um ano.




A necessidade de se aceitar


A comparação entre as narrativas de Alena e de Carrie, de Stephen King é inevitável. Ambos tratam do mesmo tema, o bullying entre meninas em uma escola, mas onde há semelhanças, elas param por aí. Kim W. Andersson concebe uma história que tem um lado mais gore e se foca na relação entre duas amigas, Alena e Josefin. Mas, enquanto que Carrie é uma narrativa mais clara em relação aos seus objetivos, Alena é mais interpretativo e o final vai mudar de acordo com cada leitura.


Josefin é apaixonada por Alena. Ela deixa isso muito claro em uma conversa que elas tem em cima de uma ponte. Alena está dividida entre, possivelmente, algum interesse romântico masculino e sua amizade com Josefin. O que parece é que Alena não sabe dizer quais sentimentos ela nutre por sua amiga. Josefin exige que ela tome alguma posição a respeito, o que Alena não sabe fazer. Após uma discussão dura, e uma carta (que aparentemente é uma carta de amor) entregue nas mãos de Alena, ela sobe em cima da ponte, abre os braços e pede para sua amada se decidir. A cena é cortada e descobrimos que Josefin morre (não se sabe se por acidente ou se Alena teve algum papel nisso). Um ano se passa e Alena está tendo problemas na escola. As alunas do time de lacrosse, lideradas pela esnobe e insegura Filippa fazem bullying com ela diariamente. Alena parece não ter superado a morte da amiga e agora conversa com o que parece ser o fantasma de Josefin.


Preciso dizer que eu não gostei tanto do traço do autor. Se por um lado eu gostei da forma como ele se foca muito nas expressões faciais e consegue entregar tanto um lado monótono, como uma face irada ou psicopata, eu achei o design de personagens estranho em algumas ocasiões. Algumas poses que deveriam ser sensuais (em algumas cenas mais picantes) pareceram ter ângulos estranhos. Já a ambientação eu acho apenas ok, nada espetacular. Boa parte da ação se passa dentro da escola e no campo de lacrosse. Então quando não se trata de um campo esportivo, são representações dos corredores ou dos banheiros da escola. Os momentos em que estamos em um ambiente externo são no começo da história (em cima da ponte), o quarto de Alena e do Fabian e mais tarde na floresta. O autor emprega uma quadrinização tradicional com 9 quadros por página, sendo em algumas um pouco menos.


As cenas de terror da narrativa são o que chama mais a atenção Andersson não se arrogou de empregar algumas cenas bem impactantes. Aliás, uma tesoura nunca pareceu uma arma tão bizarra nas mãos de uma pessoa. Porém, para o desfecho que aconteceu (se é o que ele quis dizer com isso), ele não deixou muito claro que se tratava disso. Ao contrário, eu imaginei que poderia se tratar disso mais ou menos na metade da narrativa, mas o autor falhou em deixar pontas que fizessem a gente desconfiar de que tal poderia ser o caso. Por isso, o plot twist soou estranho e vindo do nada. Apenas porque sim. O que a narrativa escrita insinua, a narrativa gráfica não faz menção deixando situações estranhas, detalhes não ditos, furo lógicos. Faltou isso... ou seja, escrita e desenho não são coerentes.


Josefin funciona como a válvula de escape da protagonista. Ela serve como o lado reprimido da personagem e mostra o quanto ela acumula coisas em suas costas. Seja suportando as agressões físicas e emocionais das garotas, seja suportando a perda de Josefin ou até se decidindo para que lado ela vai pender. O quanto isso vai afetar o aspecto psicológico da personagem nós vamos acompanhando ao longo dos capítulos. Mas, é um debate essencial nos dias de hoje em relação a pessoas reprimidas que acabam explodindo subitamente. Aonde estão os gatilhos? Aonde estão os pequenos detalhes? A conselheira que acompanha Alena na escola não consegue compreender exatamente o que a personagem deseja. O que ela coloca é o que ela acha que é correto, mas nesses casos é preciso se adaptar à situação e entender em que estado aquela que está sendo atendida se encontra. É uma tarefa difícil e é melhor explicada por profissionais da área.


Gostei bastante do fato de o autor focar a narrativa em uma relação homossexual e demonstrar as dificuldades de aceitação. O bullying vai acontecer na escola e fica aquela situação tensa entre a personagem (que não dá bola para o que é dito sobre ela) e a visão que as outras meninas tem acerca dela. Vamos vendo que essa situação vai crescendo de intensidade à medida em que o tempo passa. Algo bem natural em narrativas de terror; começa apenas com o insólito e vai assumindo tons cada vez mais violentos. Mas, faltaram alguns pontos lógicos que o autor acabou deixando de lado: a família de Alena quase não participa da história, sendo que a figura materna para ela é a conselheira educacional da história (o motivo eu não sei) e a existência ou não de outros professores (só existe o bobão de Educação Física???).



Filippa é a antagonista da narrativa. Ela é uma menina fútil e rica que enxerga em sua irmã uma espécie de ídolo feminino. Só que sua irmã é uma garota que se envolve com homens que desejam apenas o seu corpo e obtém vantagens disso. A personagem mente descaradamente (e o autor demonstra isso em poucas cenas muito bem) de forma a conquistar a atenção das suas outras colegas. A função narrativa de Filippa é ser a substituta do Jock (do jogador fortão de futebol americano), sendo que ela é a jogadora de elite de lacrosse. Ela tem uma quedinha por Fabian, que é apresentado como um cara legal na narrativa. Mesmo com as atenções de Filippa, ele é atraído por Alena. Isso provoca o ciúme da jogadora que não entende como uma garota pobre pode ter aquilo que ela deseja. A insegurança dela é que vai colocar a história nos trilhos.


Senti a presença de boas ideias na narrativa. O debate da aceitação e da representatividade e de o quanto alguém precisa enfrentar uma sociedade conservadora, a realidade perigosa do ensino médio, a auto-aceitação, todos são temas trabalhados na narrativa. As discussões iniciais entre Josefin e Alena são boas e mostram o contraste entre visões na narrativa. Mas, o autor acabou deixando a narrativa degringolar a partir da metade da história. Muitos furos narrativos prejudicaram a compreensão do que ele pretendia fazer com as personagens. A HQ nem é tão pequena assim, mas a execução das cenas poderia ser diferente em algumas momentos. Escolhas feitas aqui ou ali poderiam mudar o resultado final. Contudo, o autor não tem vergonha de usar alguns momentos bem violentos o que pode animar os leitores a fim de uma boa história de terror.











Ficha Técnica:


Nome: Alena

Autor: Kim W. Andersson

Editora: Avec Editora Tradutor: Guilherme da Silva Braga

Número de Páginas: 120

Ano de Publicação: 2017


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*Material enviado em parceria com a Avec Editora

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