• Paulo Vinicius

Resenha: "Ajuste de Contas" de Wallery Giscar Desten

Justino é um pistoleiro famoso por sempre cumprir os seus contratos com extrema precisão. Mas, o seu próximo serviço cheira a traição. Apesar do alto valor pago, seus instintos lhe dizem que alguém está lhe armando uma emboscada.

Sinopse:


Justino é um experiente pistoleiro contratado para um “serviço” em Parnaíba – PI. Já nos preparativos para a execução do contrato de morte, o matador desconfia de que é vítima de uma suposta emboscada que se reverte na elucidação de uma injustiça do passado e no feliz acaso da descoberta da filha, de existência jamais imaginada. Descobrindo-a, vai ao encontro da grande paixão de sua vida, Lindalva, a quem no passado abandonara para seguir a vida da “pistolagem”. Uma história de vingança, amor, surpresas e traições, penetrando nos meandros da vida dessa figura tão sombria e emblemática do nosso imaginário e que desperta ao mesmo tempo curiosidade e mistério: o pistoleiro.




Uma das coisas que os novos autores mais confundem é que para escrever uma grande história, ela precisa ser grande. De preferência uma trilogia em que cada livro deve ter mais de 400 páginas. Isso nem sempre é verdade. Já vi histórias mal construídas com uma quantidade absurda de páginas e histórias maravilhosas em que o autor não precisou de 30 páginas para conquistar o leitor. O livro de Wallery se enquadra na segunda categoria. Li Ajuste de Contas em uma manhã, sentado no meu quintal, apreciando as palavras e os capítulos escritos pelo autor. Quando fechei o livro, tinha certeza de que tinha vivido uma experiência muito boa. E o Wallery não precisou de uma trilogia, uma tetralogia, uma decalogia. Precisou apenas de bons personagens e uma história a ser contada.

A escrita do autor te engana em um primeiro momento. Isso porque o ritmo inicial da história me fez lembrar de alguns dos contos de Rubem Fonseca, como O Seminarista que possui uma temática parecida (um assassino de aluguel cansado de sua vida e que deseja parar e encontrar a si). Só que Rubem Fonseca usa uma escrita muito crua e direta. E não é isso o que Wallery nos apresenta. Sua escrita é mais fluida e reflexiva, como olhar para um espelho d'água e observar as ondas se formando do meio e se dirigindo em direção à borda. Momentos reflexivos se intercalam com diálogos rápidos e objetivos. Entretanto, esses diálogos não fazem da história algo cru e direto como em Fonseca. É como se houvesse uma alternância entre o subjetivo do pensamento dos personagens e o objetivo dos seus diálogos.

A narrativa é escrita em terceira pessoa, mas em um ponto de vista mais próximo dos personagens. A cada capítulo estamos sendo guiados por um personagem específico. Sim, porque Wallery insere alguns personagens ao longo da trama, como Gusmão, o intermediário e o menino Ítalo que em suas metas a serem alcançadas. Apesar dos momentos reflexivos que permeiam boa parte da história, o discurso empregado é o direto. O que serve bem aos propósitos do autor para a narrativa. Algo que me deixou muito feliz foi perceber que nada está na história por acaso. Tudo está ali para ser empregado em algum momento pelo narrador. Quando você imagina que um capítulo é sem importância, lá na frente a informação é sacada de forma muito criativa.

O personagem principal é o pistoleiro Justino. É interessante perceber como o autor preparou bem a personalidade de seu protagonista e o insere em uma espiral de decadência: de um bom homem até o pistoleiro pragmático do início da história. Ele é fruto de suas próprias escolhas e serão elas que voltarão para assombrá-lo. Até é bom fazer uma associação com o aspecto narrativo já que ele é cíclico. Por mais que o protagonista tente fugir dos erros de seu passado, eles retornam até ele para cobrar o seu quinhão. Surge uma oportunidade para ele reconquistar um amor de seu passado, mas é possível escaparmos ilesos de nossas escolhas erradas? Penso que não. Vou deturpar uma frase linda de O Pequeno Príncipe e dizer que somos responsáveis por aqueles que cativamos. E esse cativar pode ser algo tanto positivo como negativo. De uma forma ou de outra, Justino passou pela vida de muitas pessoas no passado. Vale destacar que a armadilha na qual ele percebe que está sendo armada para ele sequer é fruto de sua vida como pistoleiro.

Alguns de vocês quando lerem o livro podem reclamar das coincidências que levam o personagem até o final da história. Porém, essa é a proposta da narrativa. É fazer o leitor perceber que tudo retorna em dobro para o personagem. Em alguns momentos, me senti quase em uma atmosfera de sonho, porque determinadas passagens são repletas dessas imagens mais escapistas. O último capítulo da narrativa que é um encontro fatídico e o acerto de contas possui essa atmosfera. Parece que tudo acontece em um ambiente embaçado e carregado pelos sentimentos de perda, de culpa. E eu retomo o título do livro. O Acerto de Contas pode ser interpretado de inúmeras maneiras: um acerto com seus inimigos, com seus fantasmas do passado, consigo mesmo, com Lindalva. Ou até mesmo um acerto com a morte que passou a seu lado em vários momentos de sua vida.

Gostei também de aonde se passa a história. Escolher inserir a história no nordeste brasileiro foi muito acertado da parte do autor. Somente ali o autor poderia encontrar um clima tão propício para introduzir o seu matador de aluguel, uma prática típica dessas regiões. Por eu morar no interior do RJ, já ouvi falar de várias histórias de fazendeiros que empregavam os serviços destes homens para levar a cabo determinadas tarefas. Nunca eram assassinatos grandes; sempre serviços pequenos de pessoas que os desafiavam. Se vocês acham que a história do Wallery é mais ficcional, sugiro reverem seus conceitos.

Enfim, o autor está de parabéns por conseguir colocar tantas ideias e tamanha criatividade em um espaço tão pequeno. Não parece que o livro tem 80 páginas, mas muitas mais. Dada a profundidade da história e dos personagens, é possível retirar várias informações e mensagens. Como uma cebola que possui camadas e mais camadas. Vou ficar de olho nas próximas publicações de Wallery. Vale a pena demais.

Ficha Técnica:

Nome: Ajuste de Contas Autor: Wallery Giscar Desten Editora: Giostri Gênero: Suspense Número de Páginas: 80 Ano de Publicação: 2017


Avaliação:


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