• Paulo Vinicius

Resenha: "Aama vol. 1 - O Cheiro da Poeira Quente" de Frederik Peeters

Verloc é encontrado pelo seu irmão depois de mais uma noitada de bebidas e drogas. Ele está passando por uma fase ruim após ter perdido a guarda de sua filha Lilja e sua esposa Silice querer distância dele. Mas, uma ida a um planeta distante pode ajudar a clarear as ideias. Será?



Sinopse:


Chega ao Brasil, pela Editora Nemo, a premiada série de ficção científica Aâma, criada pelo quadrinista suíço Frederik Peeters. Num futuro distante, Verloc Nim acorda com amnésia, perdido num planeta inóspito. Graças a um diário que o gorila-robô Churchill lhe entrega, ele começa a acessar seu passado. Verloc descobre então que leva uma vida miserável, que perdeu o trabalho, a esposa e a filha. Em meio a tudo, seu irmão o leva numa viagem com o objetivo de recuperar um misterioso produto científico. Mas as coisas parecem não ter saído como esperavam. Aventura e suspense futurista, num ambiente alienígena, são os ingredientes desta nova e arrebatadora série.





Adoro ficção científica daquelas bizarras que te coloca em planetas estranhos procurando coisas misteriosas. O cenário europeu costuma ter muitas dessas histórias até porque a proposta da banda desenhada coloca o roteiro na frente da arte (e mesmo assim eles conseguem entregar algumas coisas completamente fora da casinha). Frederik Peeters nos mostra que não apenas consegue entregar roteiros sensíveis e emocionantes como Pílulas Azuis e Castelo de Areia, mas um scifi de qualidade trabalhando temas como o transumanismo e a exploração desenfreada feita por empresas.


Como quase sempre eu faço com bandas desenhadas, vou falar primeiro sobre a arte. E a arte do Peeters é muito agradável. Eu já gostava dela em Pílulas Azuis por conta do seu detalhismo e sua preocupação com o design dos personagens. Em Aama ele se permite viajar totalmente e criar alguns cenários incríveis. No começo temos o planeta Radiant e toda a decadência da humanidade em seu contato com outras civilizações alienígenas. A cena no bar é ótima para mostrar o quanto Verloc chegou no seu fundo do poço. Depois temos as tecnologias criativas que o autor cria como a nave na forma de bolha do Conrad. Por último ele conseguiu criar também um cenário desértico que passa toda a impressão de vastidão e de abandono. Eu gostei do traço de linha clara dele e a palheta de cores empregada varia do azul para o amarelo. Na primeira metade a ideia é mostrar um cenário claustrofóbico, com Verloc sufocado por seus problemas (por isso as cores escuras). Já na segunda, o emprego do amarelo nos mostra um mundo devastado pelo abandono.


A narrativa começa com Verloc sendo encontrado por Conrad em uma poça de lama abandonado no setor 1, o setor de drogas e prostituição do planeta Radiant. Verloc conta a seu irmão como a sua vida chegou àquele ponto e como a perda de Lilja e Silice lhe fez mal. Conrad propõe a ele segui-lo até o planeta Ona (ji) para espairecer e decidir o que fazer a seguir. Contando um pouco sobre o que ele iria fazer em um planeta tão distante, Conrad acaba contando que ele está trabalhando para uma empresa responsável por um terrível desastre na galáxia que eles se encontram, mas que ele não tem escolha e é essa a forma de ele tocar a vida. A ida até o planeta é para resgatar a professora Woland que tinha um projeto de sopa de nanorrobôs capazes de manipular o organismo dos seres vivos e obter resultados surpreendentes. Por causa de uma crise interna, a empresa precisou abandonar a pesquisa e deixou Woland no planeta Ona (ji) largada à própria sorte. Agora, Conrad está indo até lá resgatar a professora e sua pesquisa.



O roteiro está muito bom e Peeters acaba nos contando a história em uma ordem diferente. Algo acontece no planeta Ona (ji) que deixa Verloc confuso e sem memória. Depois de encontrar Churchill, o macaco guarda-costas de Conrad, ele começa a se lembrar dos acontecimentos através de um pequeno diário que ele vinha fazendo há uma semana. Ao nos colocar mais à frente na história, Peeters se deu ao luxo de não se importar com o info dumping já que as informações precisavam ser conhecidas pelo protagonista. É um velho truque de roteiro. E é bem eficiente para essa história porque nos permite montar as peças aos poucos.


Verloc é um protagonista muito bom. Ele é eficiente como personagem-orelha já que tem toda a questão do diário sendo usado para esclarecer pontos anteriores ao local onde ele se encontra na história. E, aos poucos, vamos nos dando conta de o quanto ele é um personagem devastado. Seus problemas com Lilja e Silice o colocam em uma rota de autodestruição sem precedentes para ele. Possivelmente o fundo do poço tenha sido o golpe que ele acabou tomando, fazendo com que ele perdesse algo muito valioso. Entendo que algumas pessoas vão achar o Conrad como um moralista tolo, mas é preciso destacar que a história está sendo contada do ponto de vista do Verloc, que não é um protagonista confiável. Tudo o que acontece possui parte das opiniões e impressões dele.


Há uma discussão interessante que fala do transumanismo. Na narrativa os filtros e adaptações cibernéticas se tornaram bastante comuns. Conrad, por exemplo, comanda sua nave apenas pelo pensamento. Há maneiras de se evitar uma atmosfera poluída inserindo um filtro de ar na laringe. O protagonista é radicalmente contra este tipo de implantes. Se orgulha de ser um gene puro, alguém sem nenhum tipo de adaptação. O curioso é que a trama gira na busca por uma pesquisa feita com nanorrobôs que teria sido abandonada pela corporação para a qual Conrad trabalha. Algumas pequenas coisas acabam nos deixando com a pulga atrás da orelha: alguma coisa aconteceu com Verloc. Algo que tem a ver com a missão de Conrad. Churchill está meio danificado e Verloc parece ter sofrido algum dano, mas pode ter sido algo não tão visível.


Esse primeiro volume 1 apresenta uma série de plots que devem se desdobrar nos próximos volumes. Ainda não temos muitas pistas sobre o que está de fato acontecendo, apenas suposições. A arte do Peeters está fantástica naquele estilo estranho e bizarro que só as melhores histórias de scifi conseguem ter. Os personagens prometem muito e temos que esperar os próximos volumes para saber aonde a história vai chegar.










Ficha Técnica:


Nome: Aâma vol. 1 - O Cheiro da Poeira Quente

Autor: Frederik Peeters

Editora: Nemo

Tradutor: Fernando Scheibe

Número de Páginas: 88

Ano de Publicação: 2014


Link de compra:

https://amzn.to/2TUCuX2














ficções humanas rodapé.gif

Todos os direitos reservados.

Todo conteúdo de não autoria será

devidamente creditado.

  • Facebook - Círculo Branco
  • Twitter - Círculo Branco
  • YouTube - Círculo Branco
  • Instagram - White Circle

O Ficções Humanas é um blog literário sobre fantasia e ficção científica.