• Paulo Vinicius

Resenha: "A Zona Morta" de Stephen King

Uma das histórias mais icônicas escritas pelo autor. A luta do bem contra o mal na pele de John Smith. Um homem que mesmo sofrendo inúmeros reveses, ainda mantém seu coração puro.



Sinopse: Depois de quatro anos e meio, John Smith acorda de um coma causado por um acidente de carro. Junto com a consciência, o que John traz do limbo onde esteve são poderes inexplicáveis. O passado, o presente, o futuro – nada está fora de alcance. O resto do mundo parece considerar seus poderes um dom, mas John está cada vez mais convencido de que é uma maldição. Basta um toque, e ele vê mais sobre as pessoas do que jamais desejou. Ele não pediu por isso e, no entanto, não pode se livrar das visões. Então o que fazer quando, ao apertar a mão de um político em início de carreira, John prevê o que parece ser o fim do mundo?



O quanto um homem consegue manter sua integridade antes de entrar em desespero? Stephen King nos apresenta a narrativa de um homem bondoso que tem sua vida radicalmente transformada quando sofre um acidente. O protagonista desta história sofre horrores dentro da narrativa. Em nenhum momento ele tem um modicum de paz. Quando tudo parece se encaminhar favoravelmente para John Smith, alguma coisa acontece que o derruba. O que mais me chamou a atenção foi a capacidade do protagonista de manter sua integridade do início ao fim da trama. Mesmo diante de obstáculos insuperáveis o personagem consegue lidar bem com as situações, sem parecer forçado por parte do autor. Johnny Smith é um cara legal. Professor do ensino médio na escola, ensina literatura e mantém um clube da leitura popular aonde dá aula. Sua namorada Sarah é uma mulher bonita e simpática e leciona na mesma instituição. Quando pequeno, Johnny levou uma pancada na cabeça que afetou levemente uma região do cérebro. O que assustou os pais de Johnny na época, fez com que ele começasse a despertar alguns dons premonitórios. Nada espetacular, apenas o fato de Johnny ter certas sensações estranhas sobre alguns fatos. Quando Johnny e Sarah vão ao parque de diversões, Johnny se sente impelido a jogar a Roda da Fortuna. Ele começa a jogar e acertar todas as vezes. Mas, toda vez que ele acerta, o rosto de Johnny fica estranho como se uma segunda personalidade estivesse assumindo o controle. No final do dia tudo parecia bem e Johnny estava levando Sarah para casa quando seu carro é abalroado por um Dodge Charger. Johnny bate a cabeça e fica em coma por 5 anos. Quando acorda, Johnny tem seus poderes premonitórios ampliados. Segundo os médicos, no cérebro do protagonista surgiu uma zona morta capaz de fornecer essas estranhas sensações a Johnny. Greg Stillson é um banqueiro e às vezes um agiota. Precisa lidar com idiotas que não pagam os empréstimos que fazem. Mas, é a vida de um agiota. Greg tem um sonho: ser o presidente dos EUA. E aos poucos ele está planejando a sua escalada. Graças a seus contatos conseguiu arrumar votos suficientes para se tornar deputado. Esse é o primeiro passo rumo à presidência. Mas, Greg é um homem de ação. Faz o que tiver de ser feito para alcançar seus objetivos, mesmo que algumas pessoas se saiam feridas. Os destinos de Johnny e Greg vão se chocar, quando uma premonição de Johnny o faz ver um país mergulhado em uma guerra nuclear com muitas pessoas mortas.



No fundo, King construiu uma história bem simples. Os personagens são bem redondinhos, fazendo o leitor perceber todas as nuances de cada personagem. Não achei Greg um vilão no sentido cruel da palavra. Greg Stillson não é um Randall Flagg. É apenas um político inescrupuloso que vê no poder a sua forma de manter o controle. Ele não é mal no sentido prático da palavra. Talvez aí esteja o único ponto fraco do livro. King quis dar a Stillson ares de antagonista, de vilão, e eu não senti isso. Em determinado momento a gente consegue até sentir certa empatia pelo personagem. Essas primeiras obras de King funcionaram como um laboratório de testes para o autor. Carrie, Salem, O Iluminado e Zona Morta compartilham de uma ausência de um antagonista no sentido pleno do termo. Podemos argumentar que o casalzinho de bullies em Carrie podem ser considerados antagônicos, mas no fundo não tem aquela vibração que os vilões de King possuem. Big Rennie em Sob a Redoma é um vilão em seu sentido pleno. Ele é cruel com seus inimigos; algumas das cenas mais violentas demonstram a satisfação e diversão do personagem com o sofrimento. O vampirão de Salem quase não aparece na obra. Funciona mais como uma presença sombria que aterroriza Jerusalem’s Lot. Greg é um homem que precisa lidar com todo o tipo de pessoas. Por esse motivo ele criou uma persona mais cruel para lidar com os problemas. A questão das premonições eu achei interessante. King não dá ao personagens poderes especiais para ele deter criminosos. Ele dá uma condição terminal a um homem bom. Johnny sabe que vai morrer quanto mais usar a sua premonição, mas sua natureza bondosa vai fazer com que ele coloque sua própria vida de lado para salvar os homens. Não importa se ele nunca será lembrado ou se ele jamais terá Sarah novamente em seus braços. Tudo o que importa é deter Stillson. King demonstra o extremo altruísmo do personagem ao tomar sua decisão. Através da construção do personagem feita ao longo dos capítulos, sabemos que o personagem é capaz de tomar tal decisão. King não diz aos leitores que o protagonista vai salvar o mundo e se sacrificar no processo “porque sim”, mas porque sua índole o coloca neste caminho. O livro foi filmado em 1983 com o título de Na Hora da Zona Morta onde Christopher Walken interpreta Johnny Smith. Martin Sheen ficou com o personagem Greg Stillson e Brooke Adams interpretou Sarah. Foi considerada uma das melhores adaptações de um livro de King, com Walken conseguindo fazer uma boa interpretação do personagem. Ele realmente consegue nos passar a história de um homem íntegro e que sofre com as escolhas que a vida lhe apresenta. Alguns cortes feitos na trama prejudicaram o bom entendimento do filme como a parte em que ele fica em coma que serve para construir o personagem de Sarah e da mãe de Johnny. Mas, no fundo, é uma boa adaptação entre tantas bobagens que já fizeram com histórias do autor. Se eu posso tocar em algum ponto forte específico em Zona Morta é a construção dos personagens. Sei que isso é chover no molhado, mas King é um mestre em construir personagens comuns. Caras que você pode encontrar na rua ou serem colegas de trabalho. Não há super-poderes ou QI elevado. Johnny é um professor; Greg é um banqueiro. Ambos os personagens tem virtudes e defeitos, sem tirar nem pôr. Me recordo que ao terminar o livro, fiquei profundamente abalado pelo que aconteceu ao protagonista ao longo de toda a obra. Repetia que não era justo que um personagem como ele não fosse receber uma recompensa sequer. Mas, duas coisas que a gente aprende com King: a) o mundo não é justo; e b) o importante não é o ponto de chegada, mas a trajetória.




Ficha Técnica:


Nome: A Zona Morta

Autor: Stephen King

Editora: Suma

Gênero: Terror

Tradutora: Maria Molina

Número de Páginas: 480

Ano de Publicação: 2017


Link de compra:

https://amzn.to/2H5ucrr



Tags: #zonamorta #stephenking #johnsmith #gregstillson #altruismo #premonicoes #editorasuma #terror #leiaterror #amoterror #ficcoeshumanas

ficções humanas rodapé.gif

Todos os direitos reservados.

Todo conteúdo de não autoria será

devidamente creditado.

  • Facebook - Círculo Branco
  • Twitter - Círculo Branco
  • YouTube - Círculo Branco
  • Instagram - White Circle

O Ficções Humanas é um blog literário sobre fantasia e ficção científica.