• Diego Araujo

Resenha: "A Taverna vol. 3"

A equipe de A Taverna abre seus portões ao trazer a mais nova edição de sua Revista! A terceira publicação traz mais cinco contos do gênero fantástico selecionados pelos editores do Selo Editorial e por Paulo Vinicius, editor do Blog Ficções Humanas que foi convidado a participar na equipe.



Com o mercado editorial sob colapso e as grandes editoras restringindo iniciativas sob o temor de perder o dinheiro investido em cenários cada vez mais incertos, ainda possuímos esforços de equipes menores capazes de proporcionar oportunidades de leitura de qualidade a baixo custo. Isso além de possibilitar meios para que autores sejam notados pela qualidade da escrita, sejam eles novatos ou já reconhecidos por outras publicações. Entre esses vetores literários há a equipe da Taverna, que publica a terceira Edição da Revista em março de 2020 com cinco contos de gêneros fantásticos sob autoria de Helton Ribeiro, Júlio Ardaia, Letícia Copatti Dogenski, Mozer Dias e Rubem Cabral.

“Quando deixou a cadeia, seu juízo tinha se perdido, mas não a arte de contar histórias.”

A revista começa com o prólogo de Otniel Pereira, um dos editores da Taverna. A narrativa breve apresenta a moça dita como enlouquecida por contar histórias, inclusive já condenada por isso. Reflete a existência da contação de histórias através da resistência, persistir mesmo sob opressões ou injustiças de serem ignoradas, e elas continuam a existir, a partir da voz dessa moça a contar as cinco histórias contidas nesta revista.


1 - "Um brasileiro na Transilvânia"


Ficha Técnica:


Gênero:

Autor: Helton Ribeiro Avaliação:





A introdução remete à tragédia ocorrida no Museu Nacional em Rio de Janeiro. Durante o trabalho de recuperação de artigos após o incêndio, foi encontrado um relato do Manuel Ferreira da Câmara, pesquisador brasileiro a serviço da corte portuguesa no fim do século XVIII. Então o conto segue nos relatos em forma de diário, da estadia de Câmara em Embu da Peste, focando na visita dele ao Castelo da família Korbeszi. Este conto de ficção histórica mistura personagens e contextos históricos aos aspectos da ficção. As características da época também repercutem na narrativa, de vocabulário correspondente ao protagonista narrador, de posição social ascendida; nada fácil de representar tal escrita pela necessidade de pesquisar a linguagem remetente, e o autor do conto demonstrou domínio ao realizar. O desfecho trata do aspecto fantástico do conto, entregando a surpresa no último momento, mantendo o mistério durante a narrativa. Teve passagens frequentes de adjetivos resumindo certas características ou gestos, estes sendo descartáveis ou carecendo de maior elaboração e assim podendo tornar a ficção histórica ainda mais imersiva.

"Como homem das ciências, sempre lamento ver destinos humanos tangidos pela superstição."

2 - "Lembranças de um Amanhã Distante"


Ficha Técnica:


Gênero:

Autor: Mozer Dias

Avaliação:



Isabela recebe a primeira visitante do dia no hospital, uma senhora chamada Sophia que faz um pedido inusitado: quer ajuda para chegar em um determinado endereço, para assim poder voltar ao futuro. Isabela lembra da dissimulação do próprio pai sob o mal de Alzheimer, portanto quis ajudar a senhora alucinada, porém ela insiste que ela veio do futuro. Após tantas negações, Isabela, por fim, atende ao pedido da senhora Sophia. De narrativa direta, Mozer desenvolve o conto com diálogos constantes entre as personagens principais, descrevendo as ações essenciais, então sinaliza o fim da cena vigente e narra a próxima da mesma maneira. A intenção do conto é surpreender o leitor a partir das características levantadas no mesmo sobre viagem do tempo e por meio de reviravoltas. Toda a narrativa é focada em Isabela, porém poderia usar o ponto de vista de Sophia até a primeira reviravolta e depois alternar em Isabela; pois, Sophia fica impactada na primeira revelação, e assim surtiria melhor efeito no leitor por acompanhar na perspectiva dela.

"- Então... Como pretende viajar de volta pra casa? Você tem um DeLorean ou cabine telefônica azul?"

3 - "O Conto do Vigário"


Ficha Técnica:


Gênero:

Autora: Letícia Copatti Dogensi

Avaliação:



O vigário Matusalém começa os serviços sacros em Amargoso. Realiza missa, batismo e acompanha o nascimento das novas crianças da região, quando começam a cobrir a nuca dos bebês e esconder algo peculiar no cabelo deles. Matusalém decide batizar as crianças molhando nos pés em vez da cabeça, assim manteria a nuca coberta. Sabino discorda desta nova maneira de batismo, e busca respostas sobre tal mudança. O ponto forte no conto de Letícia é a narrativa, de escrita caprichada. Parágrafos longos, vocabulário pomposo em torno dos termos cristãos, as poucas falas dos personagens transcritas de modo indireto, sem quebrar o parágrafo. A peculiaridade pode exigir mais atenção na leitura, esta recompensada pelo ritmo exclusivo de narrar. Longe de limitar na escrita, o enredo é bem conduzido ao longo dessas frases elaboradas. O elemento fantástico é secundário, de aparição breve apenas para reforçar a suspeita de Sabino, faltando apenas revelar o mistério das nucas encobertas, este feito por meio banal.

"'De que adianta água benta, se mau agouro chega antes?'"


4 - "Agosto Cinza"


Ficha Técnica:


Gênero:

Autor: Júlio Ardaia

Avaliação:



Cléber vive em mundo distópico, onde há falta de comida e ar condenado de poluição. Quando criança assistiu um menino sofrer bullying, obrigado a comer carvão por outros garotos que trabalhavam na carvoaria de seu pai. Agora adulto, trabalha na coleta de lixo hospitalar, e durante a estadia do hospital, assiste adoecidos sofrerem, morrerem... Distopia foi gênero de destaque há alguns anos, porém as preocupações quanto ao futuro do planeta e humanidade fazem essas histórias permanecerem e nos lembrar dos perigos caso a humanidade continue a manter suas más atitudes. Cléber testemunha a crueldade nesse mundo onde vive, o pior é de ele também ser cruel, pois só assim consegue sobreviver. Como esta edição da revista teve inscrição de contos até janeiro, houve a infeliz coincidência de poucos meses depois ocorrer a crise pandêmica por causa do vírus capaz de sobrecarregar o atendimento médico, fácil de associar aos problemas mostrados neste conto. Em suma, a distopia de Júlio acertou em cheio. Sugeriu uma causa diferente, aproveitando-a a nos lembrar de perigos eminentes, e quem diria tão próximos.

"Patrício vomitou o que estava no estômago. Não que houvesse muita coisa lá dentro."

5 - "Lições"


´Ficha Técnica:


Gênero:

Autor: Rubem Cabral

Avaliação:



Abel cuida de seu próprio pasto, distante dos pais Adão e Eva, e do irmão Caim. Sendo irmão mais novo, Abel sempre teve de tudo dos pais, e retribui oferecendo de melhor a toda a família, incluindo Caim. Uma ave chega ao pasto e oferece o fruto proibido, Abel reage contra aquela outra face da serpente, e esta avisa do perigo de ser assassinado pelo próprio irmão. Abel enterra o fruto proibido e assim, a vida continua, mas diferente do previsto. Rubem mergulha na mitologia cristã ao escrever o conto da primeira família a habitar a Terra, segundo esta religião. Com os relatos registrados por meio dos apóstolos e profetas, humanos de concepção limitada comparados ao Senhor, os céticos questionam as veracidades da Bíblia, e este conto se aproveita do ceticismo ao fazer esta releitura, narrando a história não contada de Abel. Longe de desejar blasfemar a religião, o conto respeita os aspectos cristãos, desde os conceitos defendidos aos demais acontecimentos narrados pela Bíblia, e o mais importante, elabora o conflito de Abel envolto de boas razões, o de enfrentar os dilemas em prol do melhor à própria família.

"Tão conflituoso consigo mesmo em sua desobediência obediente."

Da revista em si

Enquanto na Segunda Edição da Revista houve contos mais diversos, nesta há certas semelhanças compartilhadas entre dois ou três contos. Três tentam pegar o leitor pela surpresa no final, havendo o cuidado na escrita em alguns de representar a imersão no contexto proposto no conto, e na falta de um, com dois contos envoltos nos conceitos cristãos. Em todos os cinco há grande criatividade nas histórias, característica presente desde a primeira edição, e os autores pretendentes a participar da nova edição devem ter isso em mente ao inscrever seus contos, sem jamais esquecer de caprichar na escrita e poli-la o melhor possível na revisão. Falando nesta, poucos problemas passaram despercebidos pelos editores, alguns erros de digitação e ausências de artigos ― a/as, uma/umas ― que mal atrapalham a leitura.


Ficha Técnica:


Nome: Revista A Taverna nº 3

Organizado por A Taverna

Editora: A Taverna

Número de Páginas: 119

Ano de Publicação: 2020


Avaliação Geral:

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