• Paulo Vinicius

Resenha: "A Taverna vol. 1" organizado por A Taverna

Atualizado: 6 de Jun de 2019

Uma coletânea de contos selecionados pela equipe do blog A Taverna que giram entre os gêneros da fantasia, da ficção científica e do terror. Contém nomes conhecidos como a Anna Fagundes Martino e o Renan Bernardo e outros não tão conhecidos, mas que certamente despertarão a sua curiosidade. 

A publicação de mais esta revista de publicação de contos de autores nacionais surgiu da necessidade de abrir espaço para que estes possam se mostrar ao grande público. A Taverna é um blog que já possui uma tradição de publicar contos curtos em seu blog e daí a formar uma revista foi um pulo. A publicação está de ótima qualidade, com uma formatação muito amigável e tranquila. O material foi super bem revisado e os contos são de medianos para bons, como em qualquer coletânea. Gostei bastante do nível das histórias e estou ansioso por novas publicações da A Taverna.


Esta edição conta com os seguintes contos:


1 - "Como um Fio que se Estende pela Eternidade" (de Anna Fagundes Martino)

2 - "As Dores de Cada um" (de Rubem Cabral)

3 - "Venâncio Aguado" (de Letícia Copatti Dogenski)

4 - "A Norma Aqui de Cima" (de Renan Bernardo)

5 - "Asas" (de Daniela Almeida)


Vamos falar um pouco dos contos:


1 - "Como um Fio que se Estende pela Eternidade"


Autora: Anna Fagundes Martino Avaliação:

Gênero: Fantasia




Na minha opinião, a melhor narrativa da coletânea. Quem conhece o trabalho da Anna sabe o quanto ela gosta de narrativas mais lentas e explora os limites que ligam a fantasia à realidade. Ouso dizer que ela se encontra naquela rara corda bamba do realismo mágico. Suas histórias falam de pessoas mais do que de mundos. E é nesse compasso do equilíbrio entre o que é real e o que é fantástico, ela entrega uma história sobre pessoas interligadas que precisam descobrir qual o sentido de sua conexão. Não se trata de uma simples história de amor porque na vida o amor não é simples. 

No mundo criado por Anna, as pessoas podem acabar se conectando telepaticamente umas às outras. Pode acontecer por acidente ou não, não há uma explicação muito clara neste sentido. E esta é uma conexão que não se desfaz, sendo conhecida como matrimônio telepático. Imaginem estar conectados aos pensamentos de uma outra pessoa (em uma via de mão dupla) vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana. Isto é o que acontece com Marina e Edgar que subitamente se veem casados telepaticamente. Ambos passam a trocar experiências e a fazer parte um da vida do outro. Se vocês acham que já conhecem esta história, estão redondamente enganados. Talvez o final dela não seja exatamente o que estão esperando. Ou não. 

Esta é uma história muito boa que nos permite vivenciar a vida de duas pessoas muito diferentes entre si. Tanto Marina quanto Edgar possuem visões distintas de mundo, apesar de terem gostos em comum. A relação dos dois vai se tornando cada vez mais complexa à medida em que eles se conhecem mais. E complexa no sentido de que esta relação vai se aprofundando em várias camadas diferentes. Se eu puder ser mais objetivo sem dar spoilers, imaginem uma pessoa que não consegue viver sem a outra. Não no sentido do amor propriamente dito. Mas, uma pessoa tão importante e essencial ao seu cotidiano que imaginar uma vida sem essa pessoa é impossível. Outro ponto legal é como a Anna explora a visão de uma pessoa bissexual sobre seus sentimentos. A gente percebe o quanto Edgar não é alguém que possui uma visão clara sobre o que ele pensa sobre o próximo. Suas relações acabam não dando certo porque ele não é honesto consigo mesmo. Marina vai ajudá-lo neste sentido ao falar com ele aquilo que ele precisa ouvir. 

Mais para o final da narrativa, a autora se debruça sobre um tema bem pesado: o de violência doméstica. Aliás, fica o aviso para aqueles que são mais sensíveis a esta temática que ela está presente ali. O quanto a violência começa com algo banal e bobo e aos poucos vai se tornando mais corriqueira. No início a gente aceita como um lapso, até que em um futuro a agressão vai se tornando cada vez mais pesada. É duro acompanhar isso ao lado de um dos personagens. A coletânea começa muito bem com esta narrativa incrível e dou meus parabéns à Anna que continua mantendo uma alta qualidade em seus escritos. 


2 - "As Dores de Cada um"


Autor: Rubem Cabral Avaliação:

Gênero: Fantasia/Terror




Rubem Cabral faz um estudo sobre o mal. Seria ele o responsável pelos males que acometem nosso corpo? Nossas doenças, nossas sinas seriam frutos de uma possessão maligna? Jorge é uma espécie de exorcista que retira esse tipo de criatura do corpo das pessoas. Ele tem uma vida tranquila que ele leva bem até o dia em que conhece Theo e tudo muda completamente. Theo tem uma beleza imemorial ao mesmo tempo em que possui uma sagacidade incomparável. Mas, um segredo se esconde por trás de tamanha beleza e inteligência. 

​A narrativa acontece em duas subseções. Na primeira ficamos conhecendo do que se trata o ofício de Jorge enquanto na segunda parte vemos como ele se envolve com Theo. Ou seja, a abordagem é bem direta nesse sentido o que não dá espaço para o autor desenvolver melhor o personagem. Basicamente eu senti falta disso e de algumas pistas que pudessem levar àquele acontecimento final. O que me pareceu foi que a criatura tinha algum tipo de envolvimento pessoal ou vingança a ser realizada contra Jorge. Isso não ficou claro. Ao mesmo tempo, Theo poderia ter tido mais espaço. Trabalhar um pouco de suas motivações e angústias lado a lado com Jorge. Ou seja, essa era uma típica história que daria uma excelente novella, o que ultrapassaria os limites estabelecidos para os contos da coletânea. 

No entanto, é preciso ressaltar a habilidade do autor em construir um clima de tensão. A gente sente que algo está errado no ar quando os dois personagens se encontram. É aquele tipo de choque de forças que certamente não leva a um bom caminho. Ao mesmo tempo, existe um bom toque de sensualidade sem forçar muito a barra. Gostei de como o autor equilibrou essa tensão somada à sensualidade imposta na cena. 


3 - "Venâncio Aguado"


Autora: Letícia Copatti Dogenski Avaliação:

Gênero: Fantasia




Vivemos em uma sociedade hoje que despreza aqueles que chegam à terceira idade. Normalmente eles representam um fardo ao qual se sabe que são pessoas não mais úteis a uma sociedade de consumo capitalista. Relegados ao ostracismo, muitos deles vivem em prisões dentro de suas casas sem poder decidir seu destino por si mesmos. Letícia acerta em uma narrativa repleta de simbolismos e metáforas e que trata da essência dessa relação entre o velho e a família.

Venâncio adoeceu e a família agora precisa lidar com uma pessoa que precisa de cuidados o tempo inteiro. Isso vai impondo uma série de novos desafios aos familiares. Inicialmente parece ser uma tarefa simples, mas progressivamente o grau de dificuldade vai aumentando. Até que eles percebem que para aliviar as dores e agonias de Venâncio seria necessário colocá-lo imerso em água. É aí que a história toma uma virada inesperada. 

Assim como a Anna Martino, Letícia enveredou pelo realismo mágico. Uma narrativa muito calcada no mundo real, mas com um pequeno detalhe que faz toda a diferença. Além disso, sua narrativa é voltada para a discussão dos problemas vividos por pessoas idosas ou doentes graves. A imposição posta na família é muitas vezes um fardo complicado. Mas, nem sempre procuramos enxergar o outro lado da questão. Imaginem uma pessoa que tinha todo o controle sobre si e suas faculdades, de uma hora para a outra se vê presa a um lugar ou situação. Isso se torna insuportável com o passar do tempo. Vai pesando em como a pessoa passa a enxergar o mundo até o momento em que tudo o que ela deseja é se libertar. Provavelmente essa mensagem de liberdade é o real mote da narrativa. E, assim como o conto da Anna, é uma das narrativas que eu mais gostei na coletânea. 

4 - "A Norma Aqui de Cima"


Autor: Renan Bernardo Avaliação:

Gênero: Ficção Científica




Oportunidades. Tudo o que desejamos são oportunidades. Quando dizemos que as pessoas não querem esmolas e sim, oportunidades, nos colocamos como pessoas que não se arrogam de escalar degraus para alcançar objetivos. Eu dou aulas em uma comunidade pobre, marcada pela violência. Muitos dos meus alunos sequer tem esperanças de conseguir chegar até uma universidade. No entanto, muitos deles são inteligentes e talentosos. Me parte o coração ver que a divisão social no Brasil é tão agressiva. Me sinto como a protagonista desta história e o meu Diogo é o crime organizado que assola a região. O meu Diogo é aquele sentimento de falsa esperança em dias melhores. 

Renan Bernardo cria uma história incrível sobre uma mãe desejando o melhor para sua filha. Para poder falar como a elite, Abá, nossa protagonista, colocou um implante na cabeça que permite a ela a capacidade de discursar de forma erudita. Mas, isso é um implante feito pelo Dr. Edmilson e um dos seus colegas na escola que prepara os próximos membros da elite, o cruel Diogo, descobre a trapaça de Abá. Ele ameaça denunciá-la. Tudo o que Abá deseja é se formar para dar uma vida melhor a sua pequena filha, que deseja ser advogada. Sonho este que é quase impossível em uma sociedade tão desigual. Vamos ver a luta desta mãe contra as adversidades.

O autor criou uma história bastante crítica e que, dados os elementos fantasiosos, faz uma crítica severa à nossa sociedade dividida. Me lembrou clássicos como o filme Blade Runner e o livro Neuromancer. Em que a ficção científica serve para fazer uma crítica social contemporânea. Só nisso o autor conseguiu criar uma boa narrativa da qual podemos fazer inúmeras associações. As dificuldades que uma mãe com menos condições possui para poder levar sua filha a um status melhor; a inveja das camadas com mais recursos; a presença de uma burocracia que não funciona para todos. Vejam: citei vários temas que o autor trabalha na narrativa e estamos falando de um conto curto. Méritos totais do Renan.

Só vou pegar no pé da questão da Norma. Achei a ideia muito legal, mas acabou ficando mais como uma ameaça velada do que algo realmente intimidador. Eu entendi aonde o Renan queria chegar com aquela sequência final, mas achei que dava para criar uma ou duas situações bem ilustrativas com a Norma. Ele poderia ter trabalhado uma cena em que alguém é pego hackeando a Norma para sabermos o que acontece com a pessoa. Ou o que é alguém que não precisa usá-la para sobreviver. São pontos que gerariam ótimos plots a ser trabalhados. Não digo que daria um romance, mas uma novella bacana. Até porque esse é o tipo de história que fica melhor auto-centrada e com um fim sólido. Mas, de qualquer forma eu adorei o conto e o autor demonstrou mais uma vez o potencial da ficção científica para a criação de críticas sociais. 


5 - "Asas"


Autora: Daniela Almeida Avaliação:

Gênero: Fantasia




Que bela maneira de encerrar a coletânea. Uma fantasia também com o uso de muitas simbologias e metáforas. Asas é um daqueles contos que remetem ao nosso convívio social. Ao como nem sempre somos capazes de entender as diferenças e desejamos impor nossas vontades sobre as pessoas. E essa imposição nem sempre vem de uma forma positiva, mas sim alijando um indivíduo de ser verdadeiramente livre. 

A ambientação é em um mundo onde as pessoas alternam entre sua forma animal e sua forma humana. Alraune é uma menina que possui asas de pássaro. Desde pequena ela é treinada para conseguir transformar suas asas em braços e vice-versa. Só que a menina não entende o motivo para isso. Aliás, ela sequer entende a necessidade de alternar entre as duas formas. Sua vontade é apenas ser quem ela quiser. Mas, após um treinamento duro, ela acaba conseguindo fazer as transformações, não sem muita dor. Isso até ela conhecer um menino que vai fazê-la refletir sobre seus verdadeiros desejos. 

Uma história muito poderosa sobre diversidade e o quanto devemos respeitar as individualidades. A autora consegue transmitir os sentimentos de repressão e de falta de liberdade em algumas falas em itálico espalhadas ao longo da narrativa. A imagem de um abismo querendo nos engolir é exatamente o que uma pessoa que vive uma situação semelhante a de Alraune passa. Essa sensação de que é preciso jogar tudo para o alto para ser verdadeiramente livre. Claro que, o final da narrativa permite múltiplas interpretações possíveis, algumas positivas, outras negativas. Aí vai depender de como você, leitor, vai encarar a jornada de Alraune. E, principalmente: se essa jornada começou ou se ela chegou ao fim. 

A escrita é muito sensorial e imagética. Disse que eu tinha achado o conto da Anna Fagundes o melhor da coletânea? Mudei de ideia. Não imaginei que fosse encontrar algo nesse nível no final. Para mim, uma das grandes virtudes da Daniela Almeida é conseguir fazer o leitor imaginar as situações e até momentos de imaginação vividos pela sua protagonistas. São tão bem claros (e em poucas palavras) que são quase reais para quem está lendo. 

Ficha Técnica:

Nome: A Taverna vol. 1 Organizado pela equipe A Taverna Editora: Auto-publicado Gênero: Fantasia/Terror/Scifi Número de Páginas: 74 Ano de Publicação: 2019

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*Material enviado em parceria


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