• Paulo Vinicius

Resenha: "A Realeza - Os Mestres da Guerra" de Rob Williams, Simon Coleby e outros

Este é um mundo onde todos aqueles que possuem sangue real e aristocrático possuem super-poderes. E possuem um acordo de não se envolver em guerras dos humanos normais. Mas, quando um deles decide se envolver, o mundo nunca mais será o mesmo.



Sinopse:


Por muitos séculos, famílias reais governaram o mundo. O direito divino deles de comandarem o povo manifestou-se não por meio de coroas e tronos, mas também na forma de fantásticos e mortíferos superpoderes contra os quais exército mortal algum seria capaz de fazer frente. Então vieram as revoluções. Democracia, indústria e comunismo se espalham pelo globo, a força do crescimento deixa a realeza insegura e uma nova geração de governantes faz votos de nunca usar os poderes em batalha outra vez. Enquanto a Segunda Guerra se desenrola e os bombardeios assolam Londres, Leningrado e Pearl Harbor, esses votos são testados até o limite - e provocados pelos mimados herdeiros do rei da Inglaterra, os gigantes adormecidos ao redor do mundo começam a se mexer. Apetites insaciáveis. Desejos proibidos. Rivalidades fraternas. O toque da loucura. Tudo que se teme sobre esses monarcas é verdade - e em A REALEZA - MESTRES DA GUERRA a equipe criativa formada por Rob Williams, Simon Coleby, Gary Erskine e J.D. Mettler traz para você a empolgante e pungente história de seu derradeiro conflito. (The Royals - Masters of War 1 a 6)







Essa é uma daquelas HQs que se eu tivesse lido há seis anos atrás eu acharia acima da média. Por causa das ideias, das disrupções e da desconstrução do mito do herói. Infelizmente li no momento errado e A Realeza acaba caindo em uma pilha de quadrinhos que tenta fazer o que Alan Moore fez há décadas atrás e o que Garth Ennis e vários outros fizeram recentemente. O que constitui um herói? São os super poderes ou o caráter? O autor acaba caindo em uma mesmice de vários outros títulos da fase final do selo Vertigo que já não apresentava mais o mesmo brilho de outrora. Porém, a narrativa tem aquele jeitão de ter sido escrita para se tornar um filme ou uma série. Ela é rápida, impactante e minimamente envolvente. Não digo que a ideia seja ruim, mas a execução ficou bem aquém e ela poderia ter rendido mais histórias.


Henry, Rose e Arthur fazem parte da realeza britânica e são pessoas altamente privilegiadas. Os membros da realeza em todos os continentes descendem de um ancestral comum (pelo menos é o que parece) e possuem super poderes advindos dessa linhagem. Sejam poderes telepáticos, superforça, voo, capacidade de controlar os elementos. Para que não houvesse uma guerra arrasadora entre estes indivíduos, eles decidiram concordar em um pacto de não-agressão para manter a paz. Mas, a ascensão de Hitler na Alemanha faz tudo mudar. O ataque de Hitler à Inglaterra tem causado inúmeras perdas para o país e a pressão para que a família real se envolva no conflito tem ficado mais e mais patente. Winston Churchill tenta convencer o patriarca da família, mas nada parece movê-lo. Mas, um dia Henry e Rose saem do palácio para voar livremente pela cidade e ficam assombrados com o que veem. O inferno na Terra. Morte e desespero para todos os lados. Isso faz com que eles decidam tomar uma atitude e é então que a realeza é arrastada para a guerra. E esta atitude faz com que os demais também decidam se mover. É guerra!!!


Bem, a narrativa criada por Rob Williams se utiliza do pano de fundo da Segunda Guerra Mundial para entender como seria esse conflito com a interferência de seres com poderes extras. O ponto de vista empregado é o da nobreza britânica na figura de Henry. A ambientação geopolítica é bastante criativa e nos instiga a buscar fazer paralelos com o que aconteceu de verdade. Até de certa forma é uma ficção alternativa, ou seja, é uma narrativa ficcional que visa brincar com as possibilidades do "e se...'. Na maior parte os acontecimentos continuam sendo os mesmos com ligeiras alterações, mas a partir da segunda metade começamos a ver Williams realmente mudando as coisas. Até aí a brincadeira é legal e constitui algo pelo qual o leitor vai querer saber mais, conhecer mais. Só que isso esbarra em acontecimentos que não levam a lugar algum e personagens bem pouco carismáticos. Temos um conflito grave sendo explorado no núcleo principal, mas fora isso o envolvimento deles na guerra não é explorado mais a fundo. O que parece é que A Realeza poderia ter gerado pelo menos um volume a mais para poder explorar esses nuances dos personagens. Mas, acabou em um volume só e a narrativa ficou apertada e resumida. Existem até grandes saltos narrativos.



Não vou fazer grandes comentários sobre a arte porque ela não me agradou exatamente. Tirando essa pin-up fenomenal aí em cima que foi uma capa alternativa desenhada pelo grande Brian Bolland. Mas, a arte do Simon Coleby é comum, não tendo nenhum elemento que a destaque. Confesso que gostei mais das últimas duas edições, talvez por Gary Erskine ter assumido a colorização e ter fugido da tinta carregada demais de Coleby. Uma coisa que me incomodou demais nas três primeiras edições era o quanto a palheta de cores era escura. Para completar, o artista empregou sarjetas pretas o que dificultava demais a compreensão do que estava acontecendo. Tem cenas que são praticamente impossíveis de se compreender sem a gente enfiar a cara no quadrinho. A escolha por uma sarjeta branca teria amenizado esse efeito.


O design de personagens também não me encantou muito. Achei que faltou personalidade a eles. Embora seja uma HQ inspirada em ícones como o Superman, o Capitão América e outros "defensores da liberdade" eles poderiam ter visuais diferentes. Ou pelo menos que o seu design corporal não nos fizesse associar imediatamente a figuras A ou B. Mas, é preciso falar sobre a qualidade dos cenários apresentados. Todos representa bem suas contrapartes reais. Achei legal os momentos em que batalhas reais se mesclam com a ficção como a batalha de Midway ou a invasão à Normandia. Tem lá suas modificações, mas vale perceber que o autor e os artistas pensaram bem as cenas e momentos históricos que seriam representados na HQ.


O mito do herói sendo apresentado como um elemento de desigualdade social é bem explorado ao longo da série. Os seres com poderes extra vivem em uma sociedade hedonista e que não se importa com os outros. Formam quase um Olimpo dentro da Terra. Talvez os dois extremos dessa ideia sejam representados por Arthur, o irmão mais velho de Henry e Jimmu, o imperador do Japão. Um é um mulherengo e beberrão, que trata os humanos como escravos inferiores. Seu apego é apenas à sua família e com certas reservas. Já Jimmu é um imperador com vida eterna; sua forma de enxergar o mundo entende os humanos como uma existência efêmera e que ele está ali para supervisionar essa existência. Por outro lado ele entende que as guerras vão sempre existir porque a humanidade tem em sua natureza o instinto de matar. O pacto de não-agressão é rompido por Henry, ao se envolver com a guerra, algo que é repudiado por seus iguais. Essa desconstrução me fez pensar nas críticas feitas pelo movimento iluminista ao regime absolutista no passado. A necessidade que uma sociedade mais democrática tinha de reduzir a desigualdade social e fazer com que essa elite descesse de seu pedestal e se integrasse politicamente ao resto. A realidade apresentada por Rob Williams é como se o absolutismo tivesse continuado a existir sob outra ótica.


Temos também uma história que insinua a existência de um espião entre os membros da família real inglesa. Algo que Rose descobre com uma pessoa que se encontrava na batalha de Stalingrado. O clima de desconfiança se espalha entre todos para tentar descobrir quem é. Desde o começo esse enredo era bem previsível até porque o autor não deu pistas ou desconfianças em relação a outros personagens. Tinha até imaginado algum tipo de controle mental ou algo do gênero, mas o autor foi pelo simples e fácil de se prever. O que foi um pouco decepcionante. Alguns cenários ficaram mal resolvidos como a batalha contra o Japão que ficou mal finalizado. Não houve sequer um momento para discutir as implicações do que os reais do Japão haviam feito. Simplesmente passou-se a outro momento da luta. Em outros momentos da narrativa esses cortes também dificultam uma eventual conclusão das tramas. Mesmo o final é ligeiramente aberto.



Existe a exploração de um caso de incesto entre Henry e Rose. O protagonista demonstra estar completamente apaixonado por sua irmã. Os momentos de romance acontecem com menos explosão do que o estilo mais depravado de Arthur, mas eles estão ali. É até curioso o contraste entre eles. Só achei que esse caso entre os irmãos é mal explorado pelo roteirista porque não acontece exatamente um debate ético ou alguma resolução desta questão. Os problemas familiares tomam conta da narrativa ao final sobre se envolver ou não e até onde vai o controle exercido por eles. No fim, A Realeza é uma boa ideia para uma história mediana. E em um universo em que temos The Boys, Imperdoável e O Legado de Júpiter, uma narrativa menos ambiciosa acaba se perdendo no mar de outras. E eu senti que havia ali boas intenções.











Ficha Técnica:


Nome: A Realeza - Mestres da Guerra

Autor: Rob Williams

Artista: Simon Coleby

Ilustradores: Simon Coleby e Gary Erskine

Colorista: J.D. Mettler

Editora: Panini

Tradutor: -

Número de Páginas: 148

Ano de Publicação: 2017


Link de compra:

https://amzn.to/2Sn7B0J