• Paulo Vinicius

Resenha: "A Parábola dos Talentos" (Semente da Terra vol. 2) de Octávia Butler

Após estabelecer sua comunidade de Bolota, Lauren precisa lidar com novos desafios. O surgimento de um líder carismático pregando uma América forte pode colocar tudo o que ela construiu em apuros. Qual será o destino da Semente da Terra?


Sinopse:


A FICÇÃO DE OCTAVIA BUTLER É MAIS REAL DO QUE GOSTARÍAMOS


Lauren Olamina está casada e acaba de ter uma filha em Bolota, a comunidade que construiu com outras pessoas que haviam perdido tudo. Nos últimos cinco anos, Semente da Terra, a religião criada por Olamina cresce e se desenvolve junto com a comunidade. O país, porém, começa a passar por uma preocupante mudança.


O candidato à presidência Andrew Steele Jarret está ganhando popularidade com a promessa de “tornar a América grande novamente” em um retorno aos valores tradicionais e cristãos. Para seus fanáticos seguidores, isso exige o fim da tolerância religiosa e de qualquer igualdade racial e de gênero – e estão dispostos a impor sua doutrina com violência.


A segurança da pequena comunidade e da família nascente de Olamina nunca foi garantida. “Deus é mudança”, mas eles sobreviverão a mais uma?




Uma ficção científica bem real


A sinopse está muito correta. Este trabalho da Octávia Butler (um dos seus últimos) transborda contemporaneidade. Se pensarmos que ele foi escrito há 21 anos atrás (em 1998) é assustador perceber o quanto algumas coisas que a autora pensou se tornaram reais. E esse clima de realismo incômodo já era transparente em Parábola do Semeador. Foi até um dos pontos fortes do livro quando eu li. De duas, uma: ou somos criaturas mais previsíveis do que imaginamos ou a Octávia foi capaz de ler os sinais lá atrás.


Digo de cara que é um livro que vai incomodar pessoas ligadas a religiões de matriz evangélica. A autora não esconde nem um pouco as críticas presentes. Claro que ela se volta àqueles que utilizam a palavra para seu próprio benefício. Mas, de um ponto de vista geral, a crítica é forte sim. E eu concordo com vários direcionamentos que a autora faz ao longo de sua história. O livro é um embate entre uma visão mais imediatista da fé religiosa como propulsora de mudanças e uma visão mais a longo prazo em uma clara disposição de espalhar a humanidade pelo universo. Neste segundo livro, Lauren é muito mais profética e messiânica do que no primeiro. Ela alcançou um outro estágio na maturação de suas ideias. Mas, o que faz a personagem brilhar é o quanto ela é uma personagem falha, repleta de medos e incertezas. Sendo a criadora de sua própria religião, Lauren é um contraponto a Jarrett, o pastor da América Cristã que funciona como antagonista da narrativa.

"Meu mundo era uma jaula. Quando um de meus irmãos ousou sair da jaula, alguém de fora o pegou, cortou e queimou a carne de seu corpo vivo. Às vezes, me pego me perguntando quanto tempo deve ter demorado para ele morrer."

Temos duas narrativas trabalhando de forma concomitante na história: a narrativa de Larkin (a filha de Lauren) escrita no futuro e os diários de Lauren, contando toda a sua vivência em Bolota e o que acontece depois da chegada da América Cristã. Percebemos que Lauren acaba precisando fazer uma escolha entre sua família ou a manutenção da Semente da Terra. E esta escolha vai colocá-la no lugar certo para uma tragédia que vai se abalar sobre ela e sua família. Analisando de fora, eu achei injusto o julgamento de Larkin em relação à sua mãe, mas é preciso perceber o quanto esta decisão impactou na vida da garota. As reservas de Larkin com Lauren são grandes e derivadas de dois fatores: a sua visão de "abandono" e o carisma irresistível de sua mãe.



A opção de Octávia em usar duas narrativas em primeira pessoa concomitantes dá um ar mais pessoal ao que acontece. Isso porque o leitor acaba tentado a escolher um dos lados: seja estar do lado de Larkin e discordar de Lauren ou estar do lado de Lauren e discordar de Larkin. É inevitável. E realmente o carisma da protagonista beira quase à manipulação. Em alguns trechos, ela revela um pouco de seus truques de convencimento. Embora não funcione todas as vezes, o fato de ela usar a sua hiperempatia junto de uma simples análise postural/gestual a coloca em vantagem.


"Todas as religiões são cultos de troca. Os membros realizam rituais exigidos, seguem regras específicas e esperam ser sobrenaturalmente presenteados com recompensas desejadas: vida longa, honra, sabedoria, crianças, saúde, riqueza, vitória sobre oponentes, imortalidade, qualquer recompensa desejada. A Semente da Terra oferece suas próprias recompensas: espaço para pequenos grupos de pessoas darem início da vidas novas e a modos de vida novos com novas oportunidades, nova riqueza, novas definições de riqueza, novo desafios para crescer, aprender e decidir o que se tornar. [...]"

O cativeiro de Olamina


O surgimento da América Cristã é quase um espelho de nossos dias. É assustador como Jarrett usa o mesmo discurso do atual presidente dos EUA: "Fazer a América grande novamente" (Make America great again). Diante de uma situação de caos total, a necessidade de aparecer alguém capaz de fornecer uma noção de normalidade atrai uma ala de indivíduos. É a resposta fácil e direta. Essa possibilidade de usar uma mão forte para dirigir as ações das pessoas. É mais fácil odiar do que amar; destruir do que agregar. E isso vemos ao longo das mais de quinhentas páginas deste livro. Uma sociedade que buscava se reunir após décadas de tragédia acaba encontrando no discurso messiânico a possibilidade de alcançar essa normalidade. Isso abre as comportas para que pessoas mal intencionadas sejam capazes de usar a força para alcançar seus objetivos. O discurso de Jarrett é como um cheque em branco nas mãos de fanáticos. O surgimento dos cruzados é apenas um reflexo disso. O curioso é que o preconceito não é mais étnico, mas religioso. Ou você está do nosso lado ou está contra nós. Se está contra nós, será reeducado até estar a nosso favor.


O fascismo inerente ao evangelismo violento de Jarrett vai produzir uma América que não deve nada a uma Alemanha hitlerista. A expulsão das pessoas de suas casas, a formação de campos reeducacionais para colocar os "infratores", o preconceito contra o diferente, a valorização de elementos torpes de moral e bons costumes. É a receita para um barril de pólvora. Temos até cenas de queima de bruxas, baseadas nos antigos julgamentos dos Tribunais da Santa Inquisição. Até mesmo a delação é incentivada e isso produz efeitos colaterais bizarros. Pessoas delatam outras apenas porque não gostam delas. E como os discípulos de Jarrett não dão espaço para a defesa das pessoas, elas são rapidamente presas e condenadas.

"Não sei muito bem por que passei tanto tempo analisando a vida da minha mãe antes do meu nascimento. Talvez porque aquele tenha sido o período mais humano e normal da vida dela. Eu queria saber quem ela era quando era uma jovem esposa e futura mãe, quando era amiga, irmã e, por acaso, a ministra da região."

A autora foi muito feliz ao não colocar Lauren como o centro do mundo. Jarrett não é um personagem ativo da história. Ele é muito mais uma presença. O pregador não precisa aparecer para que suas palavras tenham eco entre seus seguidores. Nossa protagonista vai realizar um embate invisível contra todo o alcance dele; e embora eles não se encontrem frente a frente, ele vai dar vários golpes em sua vida. Chega um momento em que a personagem não tem nada além de si mesma. É um dos pontos mais baixos dela nos dois livros. Ao buscar se reerguer e repensar a Semente da Terra é que ela vai entender como tornar suas ideias duradouras.



Uma visão pessimista?


Ao passar as páginas de A Parábola dos Talentos, é possível perceber um certo pessimismo da parte da autora. Ela retoma algumas ideias de Kindred, onde o homem facilmente subjuga em próximo em prol de seu benefício. A escravidão é novamente tema da narrativa. E algumas passagens são bem pesadas, principalmente pelo fato de as mulheres não terem nenhum poder nesta sociedade religiosa. Os estupros e as humilhações são constantes. Fica até o aviso para as pessoas. Não chega a ser algo explícito, mas está ali presente. O emprego de uma coleira que substitui de forma "eficiente" as agressões físicas mostra o quanto estamos fadados a repetir os mesmos erros de nossos ancestrais. Isso apesar de os personagens do livro não estarem mais presos a convenções étnicas e ter ampliado o seu escopo.

"[...] Eu queria que nos entendêssemos o que poderíamos fazer. Queria nos dar um foco, um objetivo, algo grande o bastante, complexo o bastante, difícil o bastante, e no fim, radical o bastante para fazer com que nos tornemos mais do que jamais fomos. Estamos sempre caindo nos mesmos buracos, sabe? Digo, aprendemos mais e mais sobre o universo físico, mais sobre nosso corpo, mais sobre a tecnologia, mas, de algum modo, ao longo da história, seguimos construindo impérios de um tipo ou de outro, e então os destruindo de um jeito ou de outro. Seguimos travando guerras que justificamos e com as quais nos envolvemos, mas, no fim, elas só matam quantidades enormes de pessoas, mutilam outras, empobrecem outras mais, espalham doenças e fome e armam o palco para a próxima guerra. E quando analisamos tudo isso na história, simplesmente damos de ombro e dizemos "Bom, as coisas são assim mesmo. As coisas sempre foram assim"."

Butler revela um conhecimento global incrível ao nos apresentar uma ficção científica que traça muitos paralelos aos nossos tempos. A ascensão de líderes carismáticos que apelam para o lado obscuro do ser humano voltou à tona. E alguns acontecimentos são semelhantes a dilemas que temos vivido nos nossos tempos. O mais curioso é que o fato de Lauren acreditar que o futuro da humanidade é sair da Terra para explorar o espaço diz muito sobre o que ela pensa sobre o papel do homem no planeta.


Ficha Técnica:


Nome: A Parábola dos Talentos

Autora: Octávia E. Butler

Série: Semente da Terra vol. 2

Editora: Morro Branco

Gênero: Ficção Científica

Tradutora: Carolina Caires Coelho

Número de Páginas: 560

Ano de Publicação: 2019


Outros Volumes:

A Parábola do Semeador (vol. 1)


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*Material enviado em parceria com a editora Morro Branco



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