• Paulo Vinicius

Resenha: "A Parábola do Semeador" (Semente da Terra vol. 1) de Octávia E. Butler

Atualizado: 18 de Ago de 2019

Após uma crise climática irreversível, as pessoas passam a viver em bairros murados. O caos social se torna cada vez maior e famílias como a de Lauren Olayumi vivem com medo. Quando tudo foge do controle, Lauren irá iniciar uma longa caminhada em busca de uma nova razão para viver. 

Sinopse:


Quando uma crise ambiental e econômica leva ao caos social, nem mesmo as cidades muradas estão seguras. Em uma noite de fogo e morte, Lauren Olamina, a jovem filha de um pastor, perde sua família, seu lar e se aventura pelas terras americanas desprotegidas. Mas o que começa como uma fuga pela sobrevivência acaba levando a algo muito maior: uma visão estonteante do destino humano. E ao nascimento de uma nova fé.





Vivemos em uma sociedade muito complexa nos dia de hoje. Não temos confiança em nossos governantes, nossa economia caminha calamitosamente de mal a pior, o abismo social é cada vez maior e a violência impera nos grandes centros urbanos. Quando leio uma obra como Admirável Mundo Novo, Fahrenhei 451 ou 1984 penso em possibilidades para um futuro que pode se avizinhar. Quando eu li A Parábola do Semeador, pensei no hoje. Será que a realidade vivida por Lauren Oyá Olamina é tão diferente assim do que vivemos hoje nas grandes cidades? A obra de Octavia Butler não é só uma obra premonitória sobre uma possibilidade a acontecer daqui a algum tempo, mas algo que acontece. Talvez não em um nível cataclísmico como é visto no livro, mas mesmo assim, é assustador. 

Cada vez que eu leio algo da autora, me surpreendo em como ela consegue me fazer gostar de um tipo de escrita que eu não gosto. Já comentei algumas vezes o quanto as narrativas em primeira pessoa não me agradam por elas ficarem centradas demais no protagonista. Mas, Octavia Butler consegue imprimir um ritmo único em sua narrativa ao nos mostrar personagens que o leitor vai gostar de seguir. Personagens que possuem personalidade, virtudes, defeitos e pensamentos próprios que vão evoluindo pouco a pouco à medida em que os acontecimentos se desenrolam. Para completar, A Parábola do Semeador é escrita em outro estilo que não sou tão fã assim: o epistolar. Ou seja, o que vemos são entradas do diário escrito por Lauren. Ela nos conta o que se sucedeu ao longo do dia e alguns diálogos. Claro que, estamos diante de uma narradora não-confiável, alguém que tem opiniões muito fortes sobre suas convicções e estas acabam se entremeando com a sua narrativa. 

"Tudo o que você toca Você muda. Tudo o que você muda Muda você. A única verdade perene É a mudança."

Essa é uma enorme jornada de crescimento e amadurecimento em um mundo completamente hostil. E essa jornada não é vivida apenas por Lauren, como também por Harry, Zahra e Bankole. Alguns personagens que começam de uma forma no início da narrativa vão precisando aprender duras mensagens ao longo da trama como Harry que começa com um jovem rapaz assustado e pouco a pouco vai ganhando confiança em si mesmo. Zahra, uma mulher desconfiada do bairro de Lauren, vai se tornando uma pessoa mais próxima de Lauren a partir das adversidades. Os personagens são muito ricos em detalhes e personalidades. Butler deu vida a eles e os inseriu em uma situação extrema da qual eles vão encontrando em Lauren um norte para suas angústias. É tocante ver como um grupo muito diferenciado de personagens vai se tornando uma comunidade propriamente dita. 

"Somos Semente da Terra. Somos matéria - consciente, direcionada, que resolve problemas. Somos aquele aspecto da Vida na Terra mais capaz de moldar Deus conscientemente. Somos a vida da Terra amadurecendo. Vida da Terra preparando-se para abandonar o mundo-mãe. Somos a Vida da Terra preparando-se para criar raízes em solo novo. Vida da Terra cumprindo seu propósito, sua promessa, seu Destino."

Lauren é uma personagem riquíssima. Admito ter gostado mais da complexidade da mente dela do que de Dana, do livro Kindred. Isso porque Lauren é falha. Ela não é uma personagem virtuosa, ela é alguém criada nesse mundo cruel e por conta disso vemos que nem sempre ela vai tomar decisões virtuosas. Até mesmo o caráter messiânico de sua mensagem vai se mesclar com sua personalidade. A vontade de criar a Semente da Terra vai interferir em suas escolhas, até mesmo em sua vida amorosa. Ela entende a si mesma como uma espécie de progenitora de uma nova forma de enxergar o mundo. Aqui este aspecto da personalidade dela não é tão explorado, mas acredito que isso deva ser trabalhado melhor no segundo livro. Por essa razão acho a personalidade dela tão interessante. No fundo, ela é uma pessoa com muitos medos sobre o que pode vir a acontecer. Seu equilíbrio é obtido a partir da segurança fornecida pelas outras pessoas que fazem parte de seu grupo. 

"Aceite a diversidade. Una... Ou seja dividido, roubado,  dominado,  morto.  Por aqueles que o veem como presa. Aceite a diversidade. ​Ou seja destruído."

A sociedade explorada por Butler no livro é bem real. O lado mais assustador do livro é sua completa possibilidade de ocorrência, assim como O Conto da Aia, de Margaret Atwood. A autora trabalha temas pesados como escravidão, violência doméstica e até canibalismo. A escravidão por endividamento apresentada pela autora é bem real e comum nos dias de hoje. Basta observarmos os imigrantes vindos de países pobres da América do Sul como Bolívia, Equador e Venezuela e que trabalham em condições subhumanas em estabelecimentos como lanchonetes e fábricas de roupas. Na narrativa é apresentado como algo que ocorreu por conta das circunstâncias específicas da narrativa, mas ela acontece no nosso país. Mulheres sendo vendidas como "noivas" a outras pessoas também não é uma situação incomum em muitos países do continente africano. É que muitas vezes preferimos nos esconder por trás do pano do distópico, escondendo fatos que permeiam nossa própria sociedade. A autora foi extremamente sagaz ao nos colocar para discutir esses temas em uma sociedade que trata absurdos como normalidades. 

O aspecto religioso e congregacional é uma reação lógica ao que está acontecendo com o mundo de Lauren. Buscar uma outra realidade através da revitalização da Terra e da união das pessoas em prol de um objetivo comum. Aliás, recomendo ler a entrevista da autora no final do livro onde ela comenta sobre as inspirações que levaram à Semente da Terra. A mensagem dela é belíssima e de uma profundidade e grau de interpretação que remete a muitas circunstâncias de nossas vidas. Os personagens do livro resistem à mensagem muito da forma ocidental de pensar. Nossas religiões costumam trabalhar com a nossa do transcendental, ou seja, com o alívio de saber que há uma vida após a morte. Que através de boas ações eu posso garantir um outro destino que não o de viver nesse mundo. Já as religiões orientais tendem a pensar mais na imanência, na capacidade de se tornar algo além de si mesmo. De entender o mundo como uma coletividade e como uma parte do todo. Cada um de nós colabora por um mundo melhor. 

Novamente a autora entra para a galeria das minhas melhores leituras do ano. É aquele tipo de livro que gera tantas discussões que ao terminar de ler, quero poder conversar com outras pessoas a respeito. Que gera uma série de reflexões sobre o nosso mundo e a maneira como nos relacionamos com ele. E, principalmente, sobre o que constitui a nossa fé e como nos relacionamos a ela. 


Ficha Técnica:

Nome: A Parábola do Semeador Autora: Octavia E. Butler Série: Semente da Terra vol. 1 Editora: Morro Branco (no Brasil) Gênero: Ficção Científica Tradutora: Carolina Caires Coelho Número de Páginas: 416 ​Ano de Publicação: 2018


Outros Volumes:

A Parábola dos Talentos (vol. 2)


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*Material enviado em parceria com a editora Morro Branco


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