• Paulo Vinicius

Resenha: "A Morte da Terra" de J.H. Rosny Aîné

Uma distopia que se passa muitos milênios no futuro, A Morte da Terra nos apresenta os últimos dias da humanidade em um mundo completamente desfigurado. Estaremos vendo a morte dos homens?


Sinopse:


O futuro chegou. A água abandonou a Terra e o planeta é uma imensa planície seca e deserta. Não há rios, nem lagos, nem mares. Há apenas alguns oásis onde os Últimos Homens levam uma vida apática e resignada. Os animais estão todos extintos - a não ser grandes pássaros que evoluíram a ponto de se comunicarem telepaticamente com os humanos que restam. Os constantes terremotos que acontecem nesta Terra árida vão destruindo, lentamente, a pouca água dos poços. Ao mesmo tempo, os Últimos Homens vêem a aparição lenta, mas persistente, de uma nova forma de vida: os Ferromagnetos, que parecem estar crescendo e se tornando mais rápidos. Enquanto as pessoas perdem cada vez mais a esperança, o jovem Targ é o único que mantém a fé de que seus semelhantes poderão voltar a viver em um lugar agradável e fértil.

Terá ele razão? Ou será o fim dos humanos sobre a Terra?




Os últimos dias da humanidade


Já li diversas histórias sobre o futuro da Terra: distopias, utopias, explorações espaciais, mundos transfigurados. A história escrita por Rosny Aîné é bem impactante no sentido de que ela é um belo soco no estômago. Uma distopia com um nível de dramaticidade e melancolia que eu pouco vi em outras obras. Desde o primeiro parágrafo o autor consegue nos tocar com uma escrita que em nenhum momento te dá esperanças. O que ela te dá, toma em dobro poucas páginas depois. Não se engane: o título do livro é a tônica da obra. Portanto, das distopias que eu já li até hoje, essa é a mais poderosa e aquela do qual não há luz no fim do túnel.


Estamos falando de uma obra cuja publicação data de 1910. E mesmo assim ela consegue ser tão atual em um momento em que falamos de alterações climáticas e qual é a culpabilidade do homem em tudo o que está acontecendo em nosso planeta. Ao longo da narrativa, vemos como o autor despreza o homem pelo seu papel na destruição do planeta. Ele não alivia em suas palavras: o homem é considerado um parasita da Terra. Acompanhamos a vida do oásis das Terras Vermelhas. Muitos milênios no futuro, o planeta foi devastado por catástrofes naturais. Com sua exploração dos recursos naturais, os animais foram morrendo lentamente até não restarem mais nenhum... somente os pássaros restaram e estes ganharam inteligência e os homens acabaram por não mais desejarem se alimentar deles. A água, tão abundante no planeta, escasseou e agora representa menos de 1/4 do mundo. O cenário é formado por desertos sem vida por toda a parte onde com recursos tão pequenos o controle populacional se tornou estrito.


"Nas condições atuais do ambiente, o homem, não tendo conseguido recuperar seus instintos, perdidos durante as eras de seu poder, via-se diante de fenômenos que os delicados aparelhos herdados dos ancestrais que não conseguiam captar, mas que eram previstos pelos pássaros."

Targ é o protagonista e aquele que representa aquilo que a humanidade ainda tem de esperança. Vemos os humanos conformados com um mundo terminal. Não há esperanças ou felicidade. Vive-se um dia após o outro. Os seres humanos agora possuem uma constituição frágil e permanecem em seus oásis. Viajar para longe desses assentamentos representa a morte. O planeta sofre com tremores de terra que podem matar essas pessoas. Surgiu uma nova forma de vida chamada de ferromagnetos, seres que se alimentam de ferro (inclusive do presente no sangue dos seres humanos). Inicialmente acredita-se que estes seres não eram muito inteligentes, mas isso vai mudando ao longo da narrativa.



"Os últimos dias eram um êxtase permanente, as noites eram sonos profundos como a morte. A ideia do vazio os deslumbrava, a alegria crescia até chegar ao torpor final."

A narrativa começa quando Targ encontra acidentalmente um depósito enorme de água potável. Isso representa a salvação de seu povo. Mas, diante de um planeta que agora parece se colocar contra a humanidade o quanto essa salvação é permanente? O número de homens diminuiu demais e qualquer catástrofe natural a mais pode mudar esse contexto completamente. O protagonista tem o que ainda resta de bravura e coragem do ser humano. Ele é o herói. Acredita que vai prevalecer no final. Faz aquilo que os seus pares não mais conseguem: ter expectativas sobre um futuro. Quando tudo for abaixo, Targ provavelmente seria o primeiro a acreditar ser possível reconstruir.


E é nesse sentido que a narrativa é tão pungente: Rosny Aîné vai destruindo a esperança do leitor. Pouco a pouco. Como Targ é um personagem empático, a gente segue junto dele acreditando ser possível ter um final feliz. E é aí que o autor age... as coisas simplesmente não dão certo. Cada fiapo de esperança é apagado a cada nova catástrofe. O próprio planeta não deseja mais a presença dos seres humanos. Tudo se encaminha para que esta realmente seja a última geração de seres humanos. Haverá alguma solução?


A escrita do autor é muito boa. Isso se deve também à ótima de Julia da Rosa Simões. Vale destacar também o prefácio escrito por Mia Couto que toca bastante nas temáticas exploradas ao longo da narrativa. Há também um posfácio escrito por Eduardo Bueno onde ele fala sobre o legad deixado por Rosny Aîné. O texto do autor parece atual, sem aqueles floreios típicos de textos do século XIX e início do século XX. A narrativa é bem dinâmica e os capítulos são bem pequenos. Ou seja, o leitor vai terminar o livro em poucas sentadas. Narrado em terceira pessoa, mas do ponto de vista de Targ, o leitor vai sendo conduzido por esse estranho mundo. Outro atrativo são as ilustrações de Rodrigo Rosa que busca captar todo o horror de um mundo decadente.


"Por que viver? Por que nossos antepassados viveram? Uma loucura inconcebível os fez resistir, durante milênios, ao decreto da natureza. Quiseram se perpetuar num mundo que não era mais seu. Aceitaram uma existência abjeta, somente para não desaparecer. Como é possível termos seguido seu lamentável exemplo? É tão doce morrer!"

Não quero comentar mais porque posso acabar soltando algum spoiler com surpresas preparadas pelo autor. Rosny Aîné é um contemporâneo de Verne e Wells ao qual pouco conhecemos. A Morte da Terra só havia sido publicado antes na coleção Argonauta e o outro livro do autor no Brasil é o famoso A Guerra do Fogo. A Morte da Terra é um ótimo livro para nos questionarmos qual é o nosso papel na destruição do planeta. Como os indicadores atuais da interferência do homem podem gerar algo tenebroso para os nossos descendentes. Que tipo de legado queremos deixar? Outro ponto é que provavelmente seremos vítimas dos nossos próprios descuidos, já que poderemos ser ultrapassados por outra espécie no futuro. Afinal, os dinossauros pareciam ser os donos do planeta em um momento... mas, tudo mudou. A Morte da Terra é uma leitura para todo o fã de ficção científica. É um livro que me emocionou quando eu cheguei ao final da trajetória de Targ. Quando a gente finalmente é vencido pela proposta do autor. Mesmo assim considero-o um clássico.












Ficha Técnica:


Nome: A Morte da Terra

Autor: J.H. Rosny Aîné

Ilustrador: Rodrigo Rosa

Editora: Piu

Tradutora: Julia da Rosa Simões

Número de Páginas: 128

Ano de Publicação: 2019


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