• Paulo Vinicius

Resenha: "A Joia da Alma" de Karen Soarele

Christian Pryde é um guerreiro cujo passado o assombra até os dias de hoje. Várias de suas escolhas foram traçadas por causa daquele dia na floresta com seus amigos Eukithor e Nadia. E o passado tem o péssimo hábito de voltar para nos assombrar. 

Sinopse:


"Um aventureiro veterano, Christian está prestes a completar uma última jornada, que lhe permitirá se aposentar em paz. Mas tudo dá errado quando o passado volta para assombrá-lo. Agora, Christian e seus companheiros, um mago aberrante e uma menina selvagem, terão de cruzar o reinado de Arton em busca de um poderoso artefato. Mas eles não são os únicos nesta jornada: Verônica e seu grupo se mostram rivais à altura e parecem estar sempre um passo à frente. Chegou o momento de revirar o passado e abrir antigas feridas. Afinal, fugir de si mesmo é negar os próprios deuses. Não que Christian ligue para isso. A Jóia da Alma é o mais novo romance de Tormenta, o maior universo de fantasia do Brasil, lar de dezenas de quadrinhos, livros e jogos. Uma história sobre heróis relutantes, erros do passado e busca pela redenção. E sobre uma ameaça que pode destruir todo o mundo o mundo de Arton."




Nossas vidas são definidas por nossas escolhas. Todo o tempo. Todos os dias. Todos os momentos. Sejam estas escolhas corretas ou erradas. Nosso caráter é definido por todas as experiências que passamos. Elas vão construindo os tijolos de nossa personalidade. Não dá para simplesmente esquecer ou apagar aquilo que aconteceu. É dentro desse debate entre memória, maturidade e arrependimentos que a narrativa de Karen Soarele trabalha e nos apresenta uma história inesquecível com personagens que certamente vão agradar aos leitores. 

Desde o ano passado eu tenho acompanhado o trabalho de vários escritores de fantasia iniciantes.A gente vê como eles lutam para poderem criar seu próprio estilo de escrita. Se baseiam em seus autores favoritos de forma a emular um estilo para depois customizá-lo e dar sua própria personalidade. A Karen já está há alguns anos no mercado e me dói não ter podido acompanhá-la desde o começo. Digo isso porque em A Joia da Alma temos uma autora cheia de personalidade, com uma escrita elegante e experiente. Nada do que você vai ver ali está por acaso. A escrita tem um pouco de peso, mas o encaixe das palavras é muito bom. As opções de frases são bem feitas de modo a demonstrar como cada personagem se comporta e se relaciona. Ela consegue até dosar uma escrita séria com uma pegada mais leve e comedida. A narrativa é em terceira pessoa e a autora gosta bastante de se embrenhar na psiquê dos personagens. Muito por conta da temática da narrativa. Então não estranhe parágrafos mais alongados apresentando o que se passa na mente do personagem naquele momento. De forma alguma essa forma de compor os parágrafos deixa a leitura truncada. Muito pelo contrário. Permite um total aprofundamento na mente do mesmo. É através dessa forma que ela vai criar a empatia do leitor com o personagem. 

Mas, se a escrita dela é tão boa, por que 4 corujas, seu blogueiro chato? Simples. Revisão. Fiquei profundamente triste pela autora ao ver como o trabalho dela não recebeu um bom cuidado neste sentido. A edição de A Joia da Alma é belíssima, com uma das capas mais elegantes que eu vi no passado. A própria diagramação e a formatação são bem acima da média (me fizeram lembrar as da editora Draco que eu adoro) com aberturas de capa com um padrão bacana e as letras bem espaçadas o que vai agradar muita gente. Porém, tem muitos errinhos pequenos que passaram batido na revisão. E quando eu digo muitos, digo às dezenas. Se fosse uma editora pequena ou uma publicação independente, a culpa até poderia ter sido atribuída em maior parte ao autor. Mas, no caso de uma editora de médio porte como a Jambô, eu vou pegar no pé. Um livro com uma história tão boa e uma escrita das mais finas que eu vi nos últimos tempos ser prejudicada por uma falha na revisão é imperdoável. Desculpa, Karen... essa 1 coruja de decréscimo não é sua. Você merecia 5. 

Uma das marcas do bom trabalho da Karen é o desenvolvimento de personagens. Todos possuem arcos de história muito bem delineados. A grande verdade é que o livro da autora é uma grande narrativa de amadurecimento. Seja para o Christina, para a Verônica, para o Ichabod. Todos possuem estes arcos bem delineados e eles precisam cumprir determinados pré-requisitos para alcançarem seu objetivo final. Gostei que a autora deu personalidades únicas a cada um deles. Ou seja, eles não são versões iguais um do outro; são indivíduos com características físicas e psicológicas únicas. Cada qual possui suas qualidades e defeitos, suas motivações e objetivos específicos. Estamos falando aqui de um grupo de 7 indivíduos e a autora consegue dar atenção a todos eles em igual medida ao longo da história. Claro que Christian é o protagonista, portanto, sua história acaba sendo mais marcante e importante para o conjunto. 

Só senti falta de um aprofundamento maior dos demais personagens. No sentido do seu background, ou seja, do que os fez chegar até ali.Como vamos ver ao longo da narrativa, o passado dos personagens é importante. Este passado é retomado mais à frente a partir de suas sombras e medos. Christian é muito bem trabalhado pela autora e conhecemos o personagem detalhadamente. Sabemos seus medos e receios. Mas, dos demais personagens a gente acaba precisando deduzir o que são. Se o tema fosse diferente, eu estaria aqui elogiando o fato de a autora ter dado vida aos personagens sem precisar explicar muito de onde eles vem. Porém, neste caso aqui, é importante esse trabalho de flashback. Para todos os personagens envolvidos. Isso faria da história maior? Sim. Provavelmente até daria aquela "barriguinha" extra a ela. Mas, faria da narrativa muito mais delineada e épica. 

"- Teimoso, talvez. Fora da lei, não! Pelo menos, não aqui. De todas as invenções da humanidade, a melhor é a fronteira. Veja bem, foi só eu sair de Sambúrdia que me transformei em um homem honesto. Viva Nova Ghondriann!
- A última frase ele gritou, erguendo a caneca e foi seguido de vivas por todo o salão. Deu um gole em sua bebida e descansou-a sobre a mesa."

Conheci o mundo de Arton há décadas atrás. Eu estive entre aqueles que compraram a Dragão Brasil (famosa revista de RPGs na década de 90 e hoje reeditada em um outro formato) de número 50 onde vinha o encarte desse mundo incrível. Ele abre muitas possibilidades para o autor. Ao mesmo tempo ele cria aquela sensação de que há a necessidade de criar uma história que sacuda as estruturas do mundo. Algo muito grandioso precisa acontecer para criar uma narrativa que atraia o leitor. E a autora foi por um caminho completamente diferente. Com uma história mais contida e focada nos personagens, ela consegue entregar algo divertido e interessante. Nos momentos certos temos perseguições, lutas, magias, criaturas fantásticas. Tudo o que o leitor gostaria de ver em uma história está presente na narrativa da autora. Sem a necessidade de criar algo grandioso por demais. A forma como ela cria sua história, me lembrou muito a forma como o André Gordirro faz o mesmo em Os Portões do Inferno.Lá ele se utilizou da mesma premissa, usando um grupo de personagens improváveis, unindo-os através de um objetivo comum e chegando a um momento apoteótico onde tudo explode e a gente fica cheio de ansiedade querendo saber o que vem a seguir. 

A jornada de Christian simula vários dos nossos questionamentos ao longo das nossas vidas. Por várias vezes já pensamos em apagar de nossas mentes os erros cometidos no passado. Ou voltar no passado para corrigir alguma coisa que mudou as nossas vidas no presente. Não há como esquecermos o que passou. Nem só de acertos vive o ser humano. São principalmente os erros que entalham as nossas existências. São eles que fazem a gente perceber que o mundo não é preto e branco. Para alguns de nós, são os erros que nos tornam melhores. São as decepções e as tristezas que fazem com que tomemos nossas vidas em nossas próprias mãos e desejemos fazer a diferença. São essas as dúvidas que Christian tem em sua vida. Ele não é capaz de seguir adiante. Não foi capaz de resolver suas angústias com os fantasmas do passado. E estes fantasmas vão assombrá-lo no presente. A todo o momento ele fica pensando no homem que ele poderia ser. Mas, ele esquece que ele já é uma grande pessoa, e apenas precisa tocar sua vida para a frente.

Com uma bela mensagem passada ao longo da história, Karen Soarele nos presenteia com uma aventura leve e divertida, mas profunda em sua temática. Tudo isso apoiada em uma escrita segura e confiante que lhe permite mesclar elementos e RPG em uma narrativa aventuresca que certamente vai fazer todos os leitores se interessarem pelos seus outros trabalhos. 


Ficha Técnica:

Nome: A Joia da Alma Autora: Karen Soarele Editora: Jambô Gênero: Fantasia Número de Páginas: 384 Ano de Publicação: 2017


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