• Paulo Vinicius

Resenha: "A Guerra dos Mundos" de H.G. Wells

Atualizado: Jun 4

Neste clássico da ficção científica, Wells nos apresenta um ataque marciano que destrói várias cidades inglesas (inclusive Londres) e coloca a humanidade aos seus pés. Enquanto isso, homens e mulheres buscam salvar suas vidas.



Sinopse:


Eles vieram do espaço. Eles vieram de Marte. Com tripés biomecânicos gigantes, querem conquistar a Terra e manter os humanos como escravos. Nenhuma tecnologia terrestre parece ser capaz de conter a expansão do terror pelo planeta. É o começo da guerra mais importante da história. Como a humanidade poderá resistir à investida de um potencial bélico tão superior? Publicado pela primeira vez em 1898, A guerra dos mundos aterrorizou e divertiu muitas gerações de leitores. Esta edição especial contém as ilustrações originais criadas em 1906 por Henrique Alvim Corrêa, brasileiro radicado na Bélgica. Conta também com um prefácio escrito por Braulio Tavares, uma introdução de Brian Aldiss, membro da H. G. Wells Society, e uma entrevista com H. G. Wells e o famoso cineasta Orson Welles - responsável pelo sucesso radiofônico de A guerra dos mundos em 1938 -, que fazem desta a edição definitiva para fãs de Wells.





"Ninguém teria acreditado, nos últimos anos do século XIX, que este mundo era atenta e minuciosamente observado por inteligências superiores à do homem e, no entanto, igualmente mortais; que, enquanto os homens se ocupavam de seus vários interesses, eram examinados e estudados, talvez com o mesmo zelo que alguém munido de um microscópio examina as efêmeras criaturas que fervilham e se multiplicam numa gota d'água."

É com uma primeira frase que fala muito do que vai ser o livro que H.G. Wells inicia este livro que é uma porrada na sociedade europeia da época. Um livro que já vai ser um clássico na época em que foi publicado e só vai ganhar mais vulto com o passar dos anos. Claro que a famosa radiotransmissão de Orson Welles ajudou a eternizar a obra, mas o livro já era (e continua a ser) incrível por si só. Mesmo tendo uma forma de contar histórias diferente da que estamos acostumados, é inegável que os temas abordados ao longo do livro (e digo temas no plural mesmo) ecoam até os dias de hoje.


Nosso narrador, uma pessoa não identificada que sabemos ser apenas um marido e aparentemente uma pessoa comum, nos guia diante de uma invasão marciana que começa no interior da Inglaterra e rapidamente vai se espalhando por toda a parte. O que começa como estrelas cadentes caindo do céu se transforma em um pandemônio generalizado quando criaturas que se assemelham a lulas começam a disparar raios de calor e névoas corrosivas. Os seres humanos não acreditam inicialmente diante de algo tão absurdo quanto a chegada de vidas inteligentes vindas do espaço. Aos poucos a humanidade vai caindo vítima do poder mortal destes seres, que são impiedosos em seu ritmo de conquista. Mais para a frente a narrativa se divide em dois pontos de vista: a do irmão do protagonista que atravessa o país junto de duas moças e o protagonista que se vê preso em um lugar cercado por marcianos.


A escrita de Wells é bem direta e objetiva. Digo até que Wells usa o estilo narrativo em seu ápice, descrevendo ações feitas pelo narrador. Apesar de ser um "relato visual" de alguém que esteve "presente" na guerra dos mundos, o narrador se permite fazer algumas deduções sobre o que pode ter acontecido, comentar sobre a fisiologia dos marcianos e até alguns momentos de reflexão sobre o quanto a humanidade representa para o universo. A narração é em primeira pessoa e segue um formato folhetinesco com capítulos relativamente curtos. Isso dá uma velocidade à leitura, apesar de eu ter sentido uma narrativa mais carregada do que quando li A Ilha do Dr. Moreau. Levei um pouco mais tempo para ler, mas pode ser porque eu já conhecia o outro livro (era a minha terceira releitura) enquanto que era a minha primeira vez com A Guerra dos Mundos. A tradução está muito boa, e não senti nenhum truncamento na leitura. Tem um ótimo prefácio do Bráulio Tavares e um texto muito bom do Brian Aldiss, outro autor clássico de ficção científica (escreveu um conto que deu origem ao filme AI - Inteligência Artificial). Ao final, a Suma nos presenteia com um extra: uma entrevista com H.G. Wells e Orson Welles. Imperdível mesmo.



Wells coloca a humanidade no seu lugar do universo: como uma existência em vários mundos espalhados. O ser humano, arrogante em sua preponderância na cadeia alimentar, é derrotado facilmente por uma outra civilização mais avançada. Dá até para traçar paralelos com o colonialismo europeu efetuado no século XVI. Para os astecas e maias, os espanhóis eram como alienígenas, com suas armas mágicas sendo disparadas e a tudo devastando. Essa reflexão sobre o ser humano é algo que vai ser abordado em outras oportunidades por autores que se inspiraram nessa devastação daquilo que o homem considerava como o pináculo da civilização no final do século XIX: o império britânico. Assim como os povos ameríndios, os ingleses tentam negociar com os marcianos e são recebidos com a fúria de suas armas. Quando pensam que nada mais poderia ser pior, os marcianos se revelam ser sugadores de sangue... isso é algo simbólico se interpretarmos a expropriação de recursos naturais ocorridos durante a colonização. Qual recurso natural é mais precioso para o homem do que seu sangue? A própria essência de sua vida.


Em um dos momentos mais dramáticos da invasão marciana, vemos os seres humanos fugindo alucinadamente em busca da sobrevivência. Um momento em que as pessoas acabam se tornando selvagens e deixando de lado aquilo que os torna minimamente humanos. A cena de as pessoas embolando-se umas às outras é descrita com a maestria de um senhor do desespero. Todos param de reagir ao não saber como lidar com um momento de destruição tão iminente e cruel. Posso imaginar os leitores de Wells na época imaginando sua nobre cidade caindo e o autor consegue descrever vividamente aquilo que acontecia. Não somos poupados de lugares marcantes para a geografia londrina.


"Naquele momento senti uma emoção incomum à experiência humana, mas que as pobres criaturas que dominamos conhecem muito bem. Senti-me como um coelho que, ao voltar para sua toca, encontra uma dúzia de operários cavando os alicerces de uma casa. Percebi a primeira insinuação de algo que logo se tornou claro em minha mente, e que me oprimiu durante muitos dias - uma sensação de destronamento, a convicção de que já não era o mestre, mas um animal entre outros, sob a tirania dos marcianos. Daí em diante, como os animais, nós espreitaríamos, fugiríamos, buscaríamos esconderijos. O terrível império humano caíra."

Nesse épico da ficção científica, o desenvolvimento de personagens acabou meio deixado de lado. Isso porque o objetivo do autor é apresentar uma narrativa impactante onde somos colocados aos pés de uma civilização superior. Mesmo assim eu achei que o protagonista é impessoal demais, em se tratando de uma narrativa em primeira pessoa. Sabemos apenas que ele tem uma esposa que ele acaba enviando a Leatherwood e depois sai em uma busca desesperada por detalhes sobre o que estava acontecendo ao seu redor. Porém, acaba se perdendo de sua esposa graças ao ataque dos alienígenas. Ele resgata um padre no meio do caminho e eles se abrigam em um prédio em ruínas. Ali eles ficam presos por vários dias. Diante de uma situação extrema, nosso protagonista acaba revelando uma selvageria sem limites. Ele se vê colocado em um momento onde seus sentimentos de sobrevivência acabam se sobrepondo à sua humanidade, à sua solidariedade. Muito em um espelho da situação vivida pelo seu parente.



Entendo a importância do livro, mas, temática e narrativamente, A Ilha do Dr. Moreau me agradou mais. Achei a narrativa bastante enrolada em determinados momentos enquanto em outros faltavam informações sobre as pessoas diretamente envolvidas na história. Eu gostei da forma como Wells coloca o protagonista na berlinda, fazendo-o passar por um momento definidor de sua personalidade. Mas, senti falta de conhecer mais sobre a personalidade do personagem, mesmo que fosse em interações com outros personagens com ele falando um pouco sobre si e como era sua vida antes da invasão. A busca pela esposa acaba se tornando algo tão acessório na narrativa que quando acontece a resolução do plot, ele não tem impacto suficiente para mim, como leitor. Repetindo: a edição da Suma está muito boa mesmo. Recomendo esta edição.










Ficha Técnica:


Nome: A Guerra dos Mundos

Autor: H.G. Wells

Editora: Suma

Tradutor: Thelma Médici Nóbrega

Número de Páginas: 312

Ano de Publicação: 2016 (nova edição)


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