• Paulo Vinicius

Resenha: "A Garota no Trem" de Paula Hawkins

Rachel é uma mulher devastada após uma separação. Alcoólatra, sem perspectiva de emprego, ela finge ir diariamente a um emprego do qual ela foi demitida. Todos os dias ela pega um trem e ela passa em frente a uma casa onde ela fantasia a vida de um casal feliz. Mas, as aparências podem enganar.

Sinopse:


Um thriller psicológico que vai mudar para sempre a maneira como você observa a vida das pessoas ao seu redor.

Todas as manhãs Rachel pega o trem das 8h04 de Ashbury para Londres. O arrastar trepidante pelos trilhos faz parte de sua rotina. O percurso, que ela conhece de cor, é um hipnotizante passeio de galpões, caixas d’água, pontes e aconchegantes casas. Em determinado trecho, o trem para no sinal vermelho. E é de lá que Rachel observa diariamente a casa de número 15. Obcecada com seus belos habitantes – a quem chama de Jess e Janson –, Rachel é capaz de descrever o que imagina ser a vida perfeita do jovem casal. Até testemunhar uma cena chocante, segundos antes de o trem dar um solavanco e seguir viagem. Poucos dias depois, ela descobre que Jess – na verdade Megan – está desaparecida.

Sem conseguir se manter alheia à situação, ela vai à polícia e conta o que viu. E acaba não só participando diretamente do desenrolar dos acontecimentos, mas também da vida de todos os envolvidos.

Uma narrativa extremamente inteligente e repleta de reviravoltas, A garota no trem é um thriller digno de Hitchcock a ser compulsivamente devorado.




Os seres humanos são criaturas difíceis de serem lidas. Por mais que a gente conviva com alguém por muitos anos nunca conhecemos uma pessoa por completo. Mas, preferimos acreditar que esse lado sombrio não existe. Porque se desconfiássemos o tempo todo das pessoas, não seríamos capazes de viver em sociedade. É com essa dúvida, com essa desconfiança sobre quem vive ao nosso redor, que Paula Hawkins brinca e nos traz uma narrativa arrepiante sobre dois casais e uma mulher que escondem inúmeros segredos.

Fazia muitos anos que eu não lia um thriller. A escrita de um livro desse gênero é bem específica, repleta de idas e vindas onde a autora sempre vai brincar com a sua expectativa. A narrativa é feita em primeira pessoa e é parte da melhor qualidade desse livro que é a construção de seus personagens. Os diálogos são bem conduzidos e em alguns momentos bem emocionais, demonstrando a angústia e a tensão que existem no dia a dia de pessoas comuns. Entretanto, eu não gostei da forma como a autora formata a sua história. A ideia é construir um relato como se fosse um diário, mas isso não é possível de ser feito em algumas situações. Determinadas situações são inverossímeis de estarem presentes em um diário como o relato da Megan na Floresta de Corly. É impossível ela ter escrito aquilo. A autora poderia ter optado por uma escrita epistolar inserindo tipos diferentes de relato, como recortes de jornal, fotografias, relatórios de polícia, registros forenses. A escolha foi péssima. Mas, foi uma escolha de narração e serviu ao propósito dela.

O que eu gostei na forma de escrita da autora foi a habilidade dela em lidar com narradores não-confiáveis. Não gosto de narrativas em primeira pessoa, mas é preciso tirar o chapéu quando isso é bem feito. Nenhum dos narradores é completamente preciso ou perfeito. Eles contam a sua visão da história. O mais legal é quando os acontecimentos se sobrepõem e a gente consegue ver como cada personagem encarou o que se passou. Os comentários feitos sobre outras pessoas ou lugares feitos pelos personagens são muito ricos. Suficientes para construirmos parte de uma imagem psicológica sobre o personagem em questão. Novamente é a escrita servindo ao propósito de construir os personagens.

“De vazio, eu entendo. Começo a achar que não há nada a se fazer para preenchê-lo. Foi o que percebi com as sessões de terapia: os buracos na sua vida são permanentes. É preciso crescer ao redor deles, como raízes de árvore ao redor do concreto; você se molda a partir das lacunas.“

A construção de personagens é muito boa. Fiquei em dúvida quantas corujas eu dava, mas fiquei no primeiro porque eu não me empatizei com os personagens. E no caso da Rachel isso é fundamental. Você precisa empatizar de alguma forma com ela. Por mais que ela seja uma mulher imperfeita, ela sofreu muitos abusos que a transformaram no que ela é durante a narrativa. A gente fica sabendo posteriormente como essa construção teve um empurrãozinho externo. A qualidade da autora está em criar personagens falhos em tantos sentidos quanto possíveis. A graça da história está no mistério de quem esteve com Megan na noite em que ela desapareceu. Apesar de eu ter conseguido descobrir logo no começo (porque a autora dá algumas pistas disso) foi interessante perceber como ela muda um pouco nossas expectativas com o que acontece. A gente imagina uma coisa e o que acontece é outra bem diferente.

As personagens secundárias são desenvolvidas de maneira muito rica. Anna, Tom e até Scott. Mesmo personagens de apoio como o detetive Gaskill e a inspetora Riley recebem algum cuidado. Claro que as nossas reações quanto a esses personagens ficam balizadas por aquilo que os narradores pensam sobre eles. Não temos nenhum mocinho ou vilão. Todos são pessoas comuns e com interesses claros. Não consigo torcer por Rachel porque apesar de ela ter sofrido, ela também contribuiu para a situação em que ela estava. Anna é uma típica dona-de-casa que conseguiu seu status jogando sujo e esconde o seu lado obscuro bem no fundo através de justificativas pouco convincentes. Scott é um marido controlador e meio abusivo por mais que Megan dê margens para isso.

E aí a gente passa para os temas trabalhados pela autora: alcoolismo, obsessão e adultério. O tema do alcoolismo é o que move a protagonista. A bebida serve claramente para ela aliviar seus problemas. Por não ser capaz de encarar seus problemas, a bebida serve como um afogo. Deixando sua mente eufórica e apagada com o álcool ela consegue levar sua vida à sua maneira. Isso provoca situações bem degradantes para a personagem. A autora faz uma descrição bem vívida destas situações, mostrando até onde a bebida pode levar uma pessoa. Algumas cenas são dignas de pena, mas pouco a pouco a autora nos mostra que o que Rachel precisa é de um propósito. Megan passa por algo semelhante. Mesmo que ela brinque com bebidas chiques, vemos o álcool entrando nos momentos mais desesperadores da personagem. Ela não chega a ficar bêbada como Rachel,mas a bebida a leva a tomar algumas decisões.

A obsessão está ligada bastante a uma violência doméstica. Tanto da parte de Tom quanto de Scott e até de Rachel. Vou começar falando sobre a protagonista. Não é spoiler porque vemos isso logo no começo da história: as ligações tarde da noite para seu ex-marido configuram uma mulher desesperada para reaver aquilo que ela perdeu. Aliado à bebida, sua obsessão a faz realizar algumas ações que são realmente complicadas e justificam Anna ser tão avessa a ela. Contudo, o que Rachel passa (não vou dizer para quem) é complexo. Não só a violência física como a psicológica. Quando descobrimos como foi a decadência da personagem, isso só nos faz ficar ainda mais revoltados com tudo. É aí talvez que exista uma certa empatia com ela. E deixa o leitor pensando em quantos casais passam por isso. Claro que aqui a violência psicológica é elevada à última potência, mas pequenas ações, pequenas omissões podem causar isso ao outro. Sabe, o casamento é um estado complicado que exige tanto de um como de outro ser capaz de pensar em como suas ações afetam a vivência do outro. Viver a dois não é simples, mas exige respeito.

Já o adultério é muito bem tratado pela autora. Mostra justamente uma mulher que não é feliz com o que ela tem. E a autora trabalha um pouco das raízes por trás de suas ações. Justificáveis? Não. Compreensíveis? Talvez. Não existem culpados pelo que acontecem aqui e os dois são culpados ao mesmo tempo. Isso recai novamente na questão do respeito mútuo. Que hoje não é uma virtude das mais comuns. Pensar em como tudo o que acontece na narrativa é fruto de dois adultérios é entender como isso é um efeito dominó. Uma das personagens tira um sarro da outra que passou por essa situação, mas quando o mesmo se passa com ela, esta não consegue acreditar. Porque a gente nunca acredita que uma coisa improvável possa acontecer conosco. E o universo faz de tudo para que tal se suceda.

Poderia ficar falando horas e horas deste livro que eu achei muito bacana. Não é o clássico máximo da literatura, nem a minha melhor leitura do ano, mas certamente foi capaz de me entreter. E me fez recuperar meu gosto por thrillers. Já vou pegar os livros da Gillian Flynn com outro olhar. E certamente fiquei curioso para ler mais coisas da autora.


Ficha Técnica:

Nome: A Garota no Trem Autora: Paula Hawkins Editora: Record (no Brasil) Gênero: Thriller Tradutora: Simone Campos Número de Páginas: 378 Ano de Lançamento: 2015


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