• Paulo Vinicius

Resenha: "A Cratera da Morte" de Clifford Simak

Cliff Jackson foi enviado a um planeta para enviar parte do que é minerado para a sua empresa contratante. Mas, o encontro com uma imigrante ilegal colocará sua vida e a dos mineradores em perigo.




Sinopse: A prospecção na Lua era um trabalho sombrio, perigoso e normalmente não muito lucrativo. Apenas os mais ferozes dos boinas verdes que vieram tentar não conseguiram descobrir isso até chegar lá. Chris Jackson não era uma exceção. Ele colocou tudo o que ele possuía e que podia pegar como empréstimo em jogo, e ele estaria arruinado se falhasse. Sua única chance significaria seguir para Tycho - onde três expedições já tinham desaparecido. Ele poderia tentar, mas será que ele sairá de lá?


Esta foi uma leitura bem atrapalhada. Não sou capaz de dizer se gostei ou não da leitura porque a tradução me incomodou demais. Eu li a edição da antiga Europa-América que fazia parte da falecida coleção Argonauta. Dois problemas apareceram: primeiro o fato de ser em português de Portugal (não parece muito diferente? É muuuuuuuuito diferente) e o segundo pelo fato de a tradução ser muito ruim. Muitas frases desconexas, palavras sem sentido. O problema para mim não é o idioma, até porque leio algumas coisas em espanhol e em inglês. Isso acabou por estragar um pouco de minhas diversão.

Pude perceber em A Cratera da Morte um pouco da inocência da Era de Ouro da ficção científica (entre as décadas de 40 e 60) e as idéias futuristas destes autores de vanguarda. Estes dois conceitos trabalhando em conjunto na construção do universo literário. A inocência vem do fato de a história ser bem direta, sem muitos floreios. O mundo é descrito de acordo com o uso que Simak faz dele. Não são dados grandes detalhes. O plot também é bem simples e fácil de ser compreendido. Isso demonstra a preocupação dos autores muito mais com as descrições e/ou com a ação propriamente dita do que com descrições profundas. Esta é uma característica presente mais frequentemente na atualidade. Existe Tolkien? Sim... Existe C.S. Lewis? Sim. Existe Stanislaw Lem? Com certeza. Mas, são exceções e não a regra. Por isso que eu não acho válido criticar obras mais despojadas como A Cratera da Morte ou A Princesa de Marte apenas por terem histórias mais ingênuas. Isso era uma característica da época.

Chris Jackson é um explorador que foi enviado à lua por uma corporação de trabalhadores de diferentes ramos de atividade. Chegando lá, Chris precisava enviar parte do que ele adquirisse para a corporação. O lucro vinha da exploração de liquens e ágatas. Os liquens eram vendidos para uma instituição mental já que eles tinham propriedades curativas: as ágatas eram vendidas para um artesão local que fabricava objetos. O destino muda quando Chris encontra Amelia, uma imigrante ilegal que buscava conseguir dinheiro para curar seu irmão que havia sido infectado através de uma exposição a elementos radioativos.

O futurismo que mencionei antes vem da capacidade de previsão que Simak possuía. Ele imaginou a lua com uma riqueza de detalhes que batem muito com a lua real. A Cratera da Morte foi publicada em 1961, 8 anos antes da chegada da Apolo-11 à lua. Sem falar que as primeiras fotos sobre a superfície lunar só vieram à tona em 1965. Simak imaginou que não haveria água na lua, que as crateras teriam sido formadas através da colisão de meteoritos no satélite e até que só seria possível se mover na superfície lunar com o uso de trajes especiais. O autor acrescentou alguns detalhes fantasiosos, mas foi algo mais para apimentar o conto e servir ao seu objetivo. Isso demonstra como estes autores da Era de Ouro estavam sintonizados com as descobertas científicas do período. Isaac Asimov, autor da trilogia Fundação, revelou em várias ocasiões que um de seus hobbies em momentos de folga é ler artigos de ciência em revistas especializadas.

O tema central da história é o da exploração. É como o homem pouco conhece as maravilhas e perigos do universo. Mesmo tendo colonizado a lua, o homem nada sobre o ecossistema lunar: como os cães de caça presentes na história se relacionam com os liquens e porque algumas expedições enviadas em períodos anteriores haviam desaparecido. É a boa e velha história da exploração romântica: o homem seguindo em direção ao desconhecido, a Marcha em direção ao Oeste. Se privarmos a história de seus elementos científicos, estamos nos referindo a uma história de western.

Chris Jackson é o protótipo do herói ideal: bravo, corajoso, destemido e audacioso. Possui uma atitude machista em relação a Amelia. Onde vimos esta história antes? John Carter, o veterano capitão do exército confederado que explora Marte e se casa com Dejah Thoris. Mas, não é bem a John Carter que geralmente partem essas inspirações, mas de outro personagem dos cinemas: John Wayne. O cavaleiro corajoso que derrota os bandidos e fica com a mocinha. Novamente: cuidado ao criticar esse tipo de história. Da mesma forma que hoje valorizamos histórias de fantasia que mexem com intrigas de corte ou personagens maldosos, na época a moda era o personagem perfeito. Devemos sempre olhar nossas críticas de forma contextual, compreendendo as características do período da história em que um romance foi publicado. Alguém vai criticar Jane Austen por escrever romances água com açúcar? Ou H. G. Wells por viajar completamente na maionese? A crítica precisa sempre ter fundamento.




Ficha Técnica:


Nome: A Cratera da Morte (Trouble with Tycho)

Autor: Clifford D. Simak

Editora: Gateway (Argonauta, no Brasil)

Gênero: Ficção Científica

Número de Páginas: 115 (150, na versão da Argonauta)

Ano de Publicação: 2011 (1960, na versão da Argonauta)


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