• Paulo Vinicius

Resenha: "A Cidade de Bronze" (Daevabad vol. 1) de S.A. Chakraborty

Nahri é uma jovem que vive de golpes e pequenos furtos nas ruas do Cairo. Em uma de suas armações, ela acaba acidentalmente invocando um djinn, Dara. Ele mostrará a ela que existe muito mais neste mundo do que parece e a levará a uma terra de corte, políticas e traições. 

Sinopse:


Cuidado com o que você deseja. Nahri nunca acreditou em magia. Golpista de talento inigualável, sabe que a leitura de mãos, zars e curas são apenas truques, habilidades aprendidas para entreter nobres Otomanos e sobreviver nas ruas do Cairo. Mas quando acidentalmente convoca Dara, um poderoso guerreiro djinn, durante um de seus esquemas, precisa lidar com um mundo mágico que acreditava existir apenas em histórias: para além das areias quentes e rios repletos de criaturas de fogo e água, de ruínas de uma magnífica civilização e de montanhas onde os falcões não são o que parecem, esconde-se a lendária Cidade de Bronze, à qual Nahri está misteriosamente ligada. Atrás de seus muros imponentes e dos seis portões das tribos djinns, fervilham ressentimentos antigos. E quando Nahri decide adentrar este mundo, sua chegada ameaça recomeçar uma antiga guerra. Ignorando advertências sobre pessoas traiçoeiras que a cercam, Nahri embarca em uma amizade hesitante com Alizayd, um príncipe idealista que sonha em revolucionar o regime corrupto de seu pai. Cedo demais, ela aprende que o verdadeiro poder é feroz e brutal, que nem a magia poderá protegê-la da perigosa teia de intrigas da corte e que mesmo os esquemas mais inteligentes podem ter consequências mortais.




Nos últimos tempos autores e autoras de fantasia tem buscado novas ambientações para suas histórias. As terras repletos de elfos, anões e orcs já estão muito batidas e estes passaram a pesquisar outras influências das quais retirar suas narrativas. S.A. Chakraborty nos leva a um cenário de Mil e Uma Noites onde djinns e daevas são perigosos, mas mais perigoso do que todas estas criaturas sobrenaturais são as intrigas reais. A Cidade de Bronze chega para nos mostrar novas possibilidades ao mesmo tempo em que nos entrega uma história contagiante. 

Uma das grandes dificuldades de Chakraborty certamente foi encontrar a melhor maneira de introduzir os leitores a esse mundo diferente. Eu mantive um olhar bem atento a isso porque aqueles que acompanham o gênero podem não conhecer a rica mitologia do Oriente Médio. Ela é bem diferente da céltica, das quais as histórias de Tolkien e seus discípulos retiram inspiração. Fiquei com bastante medo de um info dumping generoso na narrativa, com capítulos e mais capítulos de explicações longas e detalhadas. Nesse sentido, para mim, a autora conseguiu escapar muito bem desse problema. As informações sobre o mundo são apresentadas calmamente durante a jornada de Nahri e Dara até Daevabad. Dara muitas vezes assume o papel de um bom contador de histórias fornecendo verdades parciais e embelezando fatos. Isso condiz bastante com a tradição de contar histórias do Oriente. Tudo fica bem claro após quase 30% da história, o que ajuda bastante a tornar a história mais dinâmica. Conseguimos pegar o sistema de magia, a economia e até como funciona a política alternando entre dois personagens-orelha: Nahri, que está sendo apresentada ao mundo e Ali, que acaba de chegar de Am Gezira e está precisando conhecer o funcionamento da corte. 

A autora adota uma estética de romance Young Adult. Vamos ver várias das características do gênero, mas ela consegue dar uma individualidade especial à narrativa. Algo que eu só vi com outra autora que eu gosto bastante, a Victoria Aveyard e sua série A Rainha Vermelha (com resenha neste link). Como eu já disse no parágrafo anterior, a história corre rápido e uma vez que o leitor conseguir se assentar na história. E isso porque o livro tem mais de seiscentas páginas, mas não parece mesmo. Em uma sentada a gente consegue ler grandes porções da história porque ficamos com curiosidade de saber o que vai acontecer a seguir. A narrativa segue um padrão em terceira pessoa com dois pontos de vista: Nahri e Ali. Os trechos de Nahri são muito mais expositivos e acaba que a personagem sofre de um probleminha que eu vou tocar mais abaixo. Já nos de Ali são que as coisas realmente acontecem. Isso torna os dois trechos muito distintos um do outro em relação à narrativa contada e ao andamento da história. 

"Está brincando com coisas que não entende, Nahri. Não são suas tradições. Vai acabar com a alma partida por um demônio se não tomar mais cuidado."

Os personagens são muito diferentes entre si. Digo isso em relação a preferência mesmo. Como a autora optou por transformar Nahri em um personagem-orelha, isso acabou por prejudicar o desenvolvimento dela. No começo da história vemos uma protagonista manipuladora e decidida, uma verdadeira ladra de rua mesmo. Mas, quando eles chegam a Daevabad parece que a personalidade da protagonista se apaga completamente. Se antes ela era pró-ativa, ela se torna reativa; ou seja, antes ela propunha as ações, e depois ela passou a esperar que estas acontecessem para só então tomar uma atitude. Entendo toda a questão de ela estar em um lugar novo diante de uma realidade maluca que insere novos elementos a cada virada de esquina. Mas, parece que a personagem só volta a si lá para o epílogo, o que me deixou um pouco cismado com isso. 

Já com Ali a autora brinca com o personagem. Ela nos apresenta um personagem "unidimensional", quase fanático, propositadamente. A jornada de Ali é de desconstrução. Em vários momentos, o leitor vai ficar irritado com a falta de visão do personagem, a maneira como ele encara tudo de uma forma maniqueísta. Para quem conhece um pouco da religião islâmica, vai entender que existem traços da vertente xiita no discurso do personagem. Só que essa maneira de enxergar as coisas vai sendo mutilada aos poucos porque em política não é possível ser maniqueísta. O pai de Ali, Ghassan, aprendeu a ser um político, por mais que suas ações por vezes pareçam rudes e cruéis. O contato de Ali com Nahri também vai quebrando um pouco dessa visão estreita do personagem. Gostei demais de como a autora faz esse percurso junto conosco e usa a unidimensionalidade como uma ferramenta para transformar Ali em um personagem complexo e repleto de dúvidas sobre si mesmo e sobre o mundo que o cerca. 

“– A grandeza leva tempo, Banu Nahida. Em geral, os mais poderosos têm os princípios mais humildes”.

O outro grande personagem da narrativa é Dara, que não tem um ponto de vista próprio (digo isso no sentido de ter capítulos em que ele é o protagonista). A autora conseguiu entregar bem um personagem antigo e cheio de histórias que formaram o seu caráter. Tudo sobre Dara é misterioso e dúbio. Acho que se eu posso colocar algum personagem como um gênio das histórias de Aladdin, este é Dara. Qualquer pergunta feita a ele precisa ser cuidadosa porque ele só relata aquilo que você perguntou sem se ater a detalhes. Mesmo Nahri passando muito tempo com ele, ela vai descobrir, ao chegar em Daevabad, o quanto ela não sabe sobre o personagem. E acontecimentos misteriosos vão se sucedendo com ele, que vão fazendo o leitor ficar com várias pulgas atrás da orelha. Chega um momento em que não sabemos mais nada sobre ele. 

Este não é o primeiro livro que eu leio nessa ambientação oriental. E algo importante nesse tipo de história, principalmente quando você a centra em um único local, é dar vivacidade ao lugar onde tudo acontece. A cidade precisa ter uma existência própria. E isto eu acho que a autora não foi capaz de fazer. A partir da metade da história, a autora centra toda a ação nas intrigas de corte. Tirando os nomes de criaturas mágicas e os demais paramentos dos personagens, a história poderia ter acontecido em qualquer lugar. Por exemplo, Leigh Bardugo dá vida à mitologia russa na trilogia Grisha; Renee Ahdieh nos transporta para as Mil e Uma Noites em A Fúria e a Aurora. Mas, infelizmente, essa comparação eu preciso fazer: Bradley P. Beaulieu alimenta todos os nossos sentidos em Twelve Kings of Sharakhai. Sharakhai, a cidade que dá nome ao primeiro livro da série, respira. A gente consegue sentir os cheiros das especiarias, o ruído do Grande Bazar, os trombadinhas assaltando ricos incautos. E tudo isso está apenas no fundo da história enquanto a protagonista faz suas ações. Em A Cidade do Bronze, Daevabad acaba escondida demais no fundo. Se o livro vai se passar em uma cidade, esta precisa ter importância e impacto para os leitores. Quando formos abrir o livro, saibamos onde a história está se passando. 

O tema do preconceito é bem explorado e em todas as suas nuances pela autora. Nós temos puros sangues, mestiços e um grupo de personagens oprimidos pelo governo. Isso produz uma narrativa muito complexa envolvendo Ali que detesta os daevas por conta da destruição que eles provocaram, porém ele tenta ajudar os mestiços porque entende que eles precisam de alguém que possa defender seus interesses. Por outro lado, os mestiços acabam sendo escravizados pelos puros sangue que não se arrogam de tratá-los como lixo. Nesse ponto a narrativa gira várias engrenagens que vai nos deixando cada vez mais interessados em entender como essa confusão vai se resolver. Porque o que no princípio é simples de entender vai tendo mais e mais elementos sendo inseridos e tornando a defesa ou a destruição de um certo grupo, algo muito pessoal para os personagens principais. Sem dúvida alguma o leitor vai se posicionar de alguma maneira no que está sendo apresentado. Aqueles que acharem a escrita rasa vão ter uma bela surpresa. 

A Cidade de Bronze é uma bela narrativa com um toque bem contemporâneo dado pela autora. Um bom primeiro volume para uma série que promete surpreender muita gente. Acho que ainda falta trabalhar um pouco a personalidade de Nahri que acabou meio apagada na metade da narrativa e aprofundar a própria cidade onde a série acontece. Porém, a autora brinca com a ideia de um personagem unidimensional e vai tornando-o mais complexo à medida em que a história avança. Enfim, estou ansioso pelo segundo volume após os ganchos deixados para a autora que certamente deixou muitos leitores (como eu) curiosos. 


Ficha Técnica: 

Nome: A Cidade de Bronze Autora: S.A. Chakraborty Série: Daevabad vol. 1 Editora: Morro Branco Gênero: Fantasia Tradutora: Mariana Kohnert Número de Páginas: 608 Data de Publicação: 2018

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*Material enviado em parceria com a editora Morro Branco


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