• Paulo Vinicius

Resenha: "A Balada de Black Tom" de Victor LaValle

LaValle reinterpreta um dos contos mais polêmicos de Lovecraft, O Horror em Red Hook, em uma narrativa que mistura preconceito, jazz, década de 20 nos EUA e Cthulhu. Combinação perfeita!!

Sinopse:


"Um tributo e uma crítica a Lovecraft" - NPR As pessoas se mudam para Nova York em busca de magia e nada vai convencê-las que ela não está lá. Charles Thomas Tester luta para colocar comida na mesa e manter um teto sobre a cabeça de seu pai, aceitando fazer trambiques e trabalhos obscuros do Harlem a Red Hook. Ele sabe bem o tipo de magia que um terno pode proporcionar, a invisibilidade que um estojo de guitarra lhe oferece e a maldição escrita em sua pele, atraindo os olhares atentos de ricas pessoas brancas e seus policiais. Mas quando faz a entrega de um livro oculto a uma feiticeira reclusa no coração do Queens, Tom abre uma porta para um domínio mais profundo de magia – despertando a atenção de seres que deveriam permanecer adormecidos. Uma tempestade que pode engolir o mundo está se formando no Brooklyn. Será que Black Tom irá viver para vê-la se dissipar?




Chega a ser impressionante o quanto Lovecraft é influente na escrita de terror até os dias de hoje. O quanto seus contos foram aproveitados e reaproveitados embora a essência continue sendo a mesma. Victor LaValle fez uma releitura intrigante e repleta de surpresas de Horror em Red Hook. Ele se aproveita até da ambientação criada por Lovecraft e cria algo só seu. Não à toa a novela foi muito premiada.

Horror em Red Hook é um dos contos mais complicados para se analisar do clássico autor de terror. Repleto de suas concepções sociais, o conto transborda elementos de preconceito e xenofobia. LaValle transportou isso para a sua forma de contar a história ao introduzir um negro chamado Charles Thomas Tester, um homem que tenta viver de sua música apesar de todo o preconceito que sofre. Vemos um pouco do Harlem na década de 1920 e toda a situação que permeava a relação entre brancos e negros. Em vários momentos as linhas são insuportáveis de serem lidas, mas LaValle consegue transportar isso de uma forma honesta (até por ele mesmo ser afro-descendente). Tester é um homem angustiado que tenta manter sua família de formas que nem sempre são honestas. Por ter uma certa afinidade ao sobrenatural, ele transporta alguns objetos estranhos para pessoas que o pagarem bem. Vai ser em uma dessas entregas que ele vai conhecer Robert Suydam que terá um estranho interesse nele.

A escrita de LaValle é muito boa, demonstrando dinamismo e descrições bem posicionadas sem tornar a leitura maçante. O caráter descritivo é algo que sempre me incomodou demais na escrita do Lovecraft, além de uma certa pomposidade na construção frasal. LaValle contorna isso de uma forma magistral ao tornar tudo harmônico. Os capítulos são curtos, o que faz a leitura passar rápido. Quando você menos esperar, já terá devorado cem páginas e se aproximando no final. Mesmo quando chega o momento de aterrorizar, ele consegue impor o terror ao se inspirar nos detalhes gráficos que Lovecraft empregava em sua narrativa. Não chega a ser aquele horror abissal dos pavores perpetrados pelo ser humano como vemos no autor clássico, mas consegue ser eficiente de toda forma.

A narrativa é dividida em duas metades claras: a primeira com Tester e a segunda com o detetive Malone. Tanto Suydam como Malone são personagens do conto de Lovecraft. Malone nos é apresentado como um detetive de polícia obstinado e que possui uma certa afinidade pelo oculto. Ao lidar com imigrantes de todas as partes do mundo, Malone aprendeu que é preciso ter um olhar diferenciado em relação ao que se vê no cotidiano. Por essa razão, sua mente é um pouco mais aberta. LaValle foi muito feliz ao desenvolver melhor a personalidade de Malone, o que Lovecraft não conseguiu fazer em Horror em Red Hook. Apesar disso Malone é um homem de seu tempo e certamente alguns de vocês não vão concordar com algumas de suas atitudes para com Tester.

“Ninguém jamais se vê como vilão, não é? Mesmo os monstros têm a si próprios em alta conta.”

A Balada de Black Tom é uma excelente narrativa de terror, ao mesmo tempo em que se embrenha em questões sociais. Escondida no meio de um relato de uma aparição de Cthulhu temos um personagem em busca de justiça contra os seus iguais. Alguém que enxerga o mundo como algo em ruínas, bem no decadentismo proposto por Lovecraft em suas narrativas, apesar das posições do autor. Já me tornei fã de LaValle.


Ficha Técnica:

Nome: A Balada de Black Tom Autor: Victor LaValle Editora: Morro Branco Gênero: Terror Tradutor: Petê Rissatti Número de Páginas: 160 Data de Publicação: 2018

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*Material enviado em parceria com a editora Morro Branco


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