• Paulo Vinicius

Resenha: "A Auto-Estrada" de Stephen King (como Richard Bachman)

Existe um momento limite para cada um de nós. E este chegou para Bart Dawes. Depois de perder seu filho para um tumor cerebral, a construção da extensão de uma interestadual mexe com toda a sua vida. Mas, ele está disposto a tudo... porque princípios são princípios.



Sinopse:


De luto pela morte de seu único filho, desempregado e vendo o casamento desmoronar, George Dawes se agarra à casa em que mora, onda as lembranças da infância e do filho ainda lhe trazem algum conforto. Isso até que sua esposa decide vender o imóvel para uma construtora, que por sua vez pretende demoli-la para a construção de uma autoestrada. Desnorteado e sem nada a perder, Dawes entra em uma loja para comprar duas armas, muita munição e todo tipo de material explosivo disponível. Aí tem início uma implacável jornada cujo foco é destruição das obras da rodovia, sua inimiga declarada. Escrevendo sob o pseudônimo de Richard Bachman, Stephen King faz de A autoestrada um mergulho profundo no luto e na superação. Escrito e publicado pouco depois da morte da mãe do autor, King diz que o livro “tenta encontrar algumas respostas para os mistérios que envolvem as dores humanas”.





Aviso: narrativa com gatilhos de suicídio. Quem não se sentir confortável com esse tema, sugiro que não leiam esse livro.



A Auto-Estrada é um dos romances que Stephen King escreveu sob o pseudônimo de Richard Bachman. Ele usou esse pseudônimo por uma década até que um deslize da editora revelou a identidade do autor. King afirma que criou essa faceta para experimentar coisas novas e diferentes. Mas, mais do que isso: Bachman é como se fosse um lado obscuro da alma do autor (se é que possível haver algo mais obscuro). Esses romances possuem uma vida própria e não se inserem nos esquemas e padrões do autor. Por isso, não é incomum um leitor estranhar bastante quando se depara com os famosos Livros de Bachman. São alguns dos livros mais pesados dele: Fúria, A Auto-Estrada, O Concorrente, A Maldição do Cigano, Os Justiceiros, Desespero entre mais alguns outros.


"Então que venham os buldôzeres, certo, Fred? Vamos enterrar tudo isso. Daqui a pouco aparece outro subúrbio, lá em Waterford, onde não havia nada além de um monte de terrenos baldios até este ano. A Marcha do Tempo. O Progresso em Revista. Projetos de um Bilhão de Dólares. E quando você vai ver, qual o resultado? Um monte de caixotes pintados de cores diferentes. Encanamentos de plástico que vão congelar no inferno. Madeira de plástico. Tudo de plástico."

Posso dizer com segurança que essa é uma escrita bastante raivosa do King. A temática, a ambientação, o próprio protagonista. Existem até críticas políticas e sociais inseridas no meio da narrativa que, para quem conhece o autor, também não são comuns. A narrativa é em terceira pessoa, mas bem próxima de Bart, o personagem principal. O esquema de desenvolvimento é diferente do padrão do autor, com três atos criados, seguindo um estilo cinematográfico. As divisões são feitas a partir de dias e não de cenas. Isso fornece um ar quase de diário à narrativa. Em alguns momentos King adota fluxos de pensamento para o personagem à medida em que sua loucura atinge patamares mais elevados. Ao mesmo tempo a narrativa vai adotando um ar claustrofóbico com o fim iminente se aproximando como uma lâmina acima do pescoço do protagonista. Esse é aquele tipo de livro em que desde o começo o leitor está ciente de que não vai acabar bem. Não é uma narrativa de bem contra o mal; de mocinho contra bandido. É uma lenta dança de auto-destruição.


A imagem da bola de ferro chegando para derrubar seus sonhos paira na cabeça de Bartolomew Dawes. Tudo o que ele sempre lutou vai ser colocado abaixo por causa da extensão de uma rodovia interestadual. A lavanderia Blue Ribbon que se tornou sua casa e que ele viu crescendo se vê obrigada a mudar de terreno. E Bart é o encarregado dessa mudança (algo que ele não está se esforçando muito em fazer). Sua casa, um lugar que ele compartilhou por anos com sua esposa Mary. Um lugar de lembranças felizes e dolorosas como a de seu filho Charlie, que morreu vítima de um tumor no cérebro. Ausência essa que Bart não conseguiu superar e que paira como um silêncio desconfortável em sua sala de estar. O protagonista tem pouco tempo para sair dali... mas, será que ele quer?



"O povo americano é o cachorro adestrado que, neste caso, foi adestrado a amar brinquedos bebedores de petróleo. Carros, motos de neve, barcos grandes, buggies, mobiletes, trailers, e muito, muito mais. De 1973 a 1980, seremos treinados para odiar brinquedos que consomem energia. O povo americano adora ser adestrado. O adestramento faz as pessoas abanarem seus rabos. Use energia. Não use energia. Faça xixi no jornal. Não sou contra economizar energia, sou contra o adestramento."

O protagonista está passando pelas cinco fases do luto: negação, raiva, negociação/barganha, depressão e aceitação. Dá para ver claramente essas fases se alternando na história. Só para citar as duas iniciais e não dar spoilers, no começo Bart nega o que está acontecendo. Ele não consegue acreditar que tudo aquilo que ele fez e desenvolveu será posto abaixo. Em sua mente, existe uma saída, mas vamos nos dando conta de que se trata de um caminho sem volta. É quase como uma enorme rede para peixes: quanto mais Bart se debate, mais preso ele fica. Como ele se vê sem condições de dar um jeito no problema, ele resolve atacar. Sua raiva toma conta de seu ser. Bart se torna um homem raivoso que esquece a lógica para poder descontar naqueles que estão ao seu redor. A estrada se torna um ser físico, que precisa ser abatido e destruído. Só que o problema não é a estrada, mas aqueles que desejam construí-la. Quando Bart descobrir isso é que a narrativa toma um outro ímpeto.


King criou um personagem que é o protótipo do ideal americano, do self made man. Quase toda a primeira parte da narrativa que se passa no primeiro mês (os três atos correspondem aos três meses nos quais a narrativa se passa) e nela Bart descreve a sua relação com a Blue Ribbon. Desde o momento em que ele chegou até lá, à sua relação com os Tarkington, cujo sentimento é quase paternalista, até toda a sua vida sendo definida pela rotina lá. Ao tirar o espaço de Bart, mesmo ele mantendo o seu cargo em outro lugar, é como se tirassem um pedaço dele. A raiva do personagem vem do ato de retirar, como seu filho que foi retirado de sua vida. Associar a lavanderia a seu próprio filho talvez seja uma operação que amplificou a revolta dele. Perder a casa é a cereja do bolo. Essa relação paternal entre Bart e a lavanderia pode ser visualizada em alguns diálogos como quando ele discute com Steve Ordner o quanto este não se importa com a lavanderia, mas com o lucro que recebe dela.


"Quando você protesta por algo é porque pensa que alguma outra coisa seria melhor. Toda aquela gente protestou contra a guerra porque achava que a paz era melhor. As pessoas protestam contra as leis sobre as drogas porque acham que outras leis seriam mais justas, ou mais divertidas, ou menos prejudiciais ou... sei lá."

Também temos um personagem que parece ter uma dupla personalidade. Pelo menos parece que essa era a ideia do King, mas ele não trabalhou com esse tema com afinco e nem da forma tradicional como este detalhe é apresentado na ficção. Ficou estranho porque ao mesmo tempo em que estas parecem ser alternâncias do humor do personagem, o fato de ele tê-las não tem nenhuma consequência futura. Podemos dizer que Bart é guiado por essas vontades de seu inconsciente, mas ao mesmo tempo se elas não estivessem ali, não fariam falta alguma. Fred seria o racional dentre as duas enquanto George seria o raivoso. Chega um momento em que Fred desaparece, o que podemos entender como um simbolismo para a fúria cega do personagem.



A relação dele com Mary tinha uma solidez que calcava a relação entre os dois. As lembranças compartilhadas por Bart são belas e mostram uma dinâmica carinhosa e repleta de cumplicidade entre o casal. Mas, o aborto espontâneo de um filho e a morte por tumor de outro causaram um baque na confiança deles. Enquanto Bart foi sufocado pela melancolia, Mary adotou uma postura fria e de indiferença. É o tipo de situação que vai minando o casal pouco a pouco, onde estar um com o outro se torna sufocante. Um faz mal ao outro, não por palavras e nem por gestos, mas pela presença. Talvez se Mary não tivesse se escondido no véu da indiferença ela teria conseguido salvar o espírito de Bart que caiu em um precipício de dor e angústia. Toda a explosão com a estrada é um reflexo de tudo aquilo que ele acumulava em seu coração.


"Só tem uma coisa que me incomoda; uma sensação que tenho às vezes de que sou um personagem num livro de algum escritor ruim e ele já decidiu como as coisas vão acontecer e por quê. É até mais fácil ver as coisas dessa maneira do que culpar Deus: o que Ele fez por mim, de qualquer forma? Não, a culpa é deste escritor ruim. Ele cortou meu filho da história inventando um tumor no cérebro. Este foi o primeiro capítulo. Se vou me suicidar ou não, isso vem logo antes do epílogo. É uma história idiota."

Curioso ver uma narrativa politizada do King. Ele tece inúmeras críticas ao contexto em que ele vivia naquele momento. A Auto-Estrada é um livro de 1981, em plena administração Nixon com os EUA ainda vivendo os reflexos da crise do petróleo. As pessoas precisavam economizar energia e gasolina, o que eram situações que desagradavam ao norte-americano. A crise do petróleo tocou fundo no ego do americano e Bart e outros personagens como Magliore criticam o governo federal. Há uma clara perda de confiança em quem administra por não saber lidar com os novos tempos. E isso lembrando que pouco tempo depois estoura o escândalo Watergate em que Nixon se envolve em um terrível escândalo que acaba retirando-o da Casa Branca. Ou seja, é um momento crítico da história dos EUA em uma década considerada perdida pela população. A crise de energia afetava ricos e pobres, embora os ricos pouco se importassem em fazer sua parte. A solução de Nixon foi reverter a políticas de Roosevelt dos anos 30: investir na construção de estradas. É lógico que isso não vai dar certo.


A desapropriação da lavanderia e da casa de Bart podem ser associadas a algo que o brasileiro viveu durante o período antes dos grandes eventos esportivos da década de 2010. Várias famílias precisaram abandonar suas propriedades por conta de uma via que servia apenas como um ato populista e desprovido de mérito de um governo corrupto. Os moradores recebiam quantias irrisórias e precisavam lidar com a realidade de ter de deixar o lugar em que viviam. Claro que Bart recebe uma boa quantia em dinheiro, mas é o ato de ter que deixar suas raízes para trás o que incomoda o personagem. Isso é inaceitável para ele assim como para milhares de brasileiros afetados por essas obras. O detalhe curioso é a consequência inútil da construção da estrada.


Não quero entregar mais sobre a história porque ela revela ainda muitas surpresas como a chegada de Olívia, a mescalina que surge como ponto de mudança e a festa de ano novo fatídica. Isso sem falar na cena final que parece inspirada em um Forte Álamo em uma menor expressão. Não é uma trama fácil e o final não é o mais feliz.


"Eles estão construindo estradas para bestas sugadoras de energia enquanto as crianças desta cidade passam fome."












Ficha Técnica:


Nome: A Auto-Estrada

Autor: Stephen King (como Richard Bachman)

Editora: Suma

Tradutor: Fabiano Morais

Número de Páginas: 304

Ano de Publicação: 2009


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