• Paulo Vinicius

Resenha: "A Arte de Charlie Chan Hock Chye" de Sonny Liew

Em uma mistura de ficção com biografia, Sonny Liew nos conta a história de Charlie Chan Hock Chye, o ilustre quadrinista desconhecido de Cingapura. Ao mesmo tempo em que ele conta a história desse personagem fictício, vemos um pouco da história do país. 

Sinopse:


Conheça Charlie Chan Hock Chye. Atualmente com 70 e poucos anos, Chan vem fazendo quadrinhos em Singapura desde 1954, quando ainda era um garoto de 16 anos. Conforme ele relembra sua carreira de mais de cinco décadas, vemos suas histórias se desdobrando em uma deslumbrante variedade de estilos e formatos; o desenvolvimento delas ecoa a evolução do panorama político e social de sua terra natal e do próprio meio das histórias em quadrinhos. Com a Arte de Charlie Chan Hock Chye, Sonny Liew une com sua versátil arte uma miríade de gêneros em um trabalho impressionantemente engenhoso e engajado, no qual a linha entre verdade e imaginação às vezes é nebulosa, mas cuja história é sempre empolgante, levando-nos para dentro de uma jornada única, engraçada e instigante da vida de um artista e da história de sua nação. Parte graphic novel, parte livro de arte, parte ensaio narrativo, a Arte de Charlie Chan Hock Chye, de Sonny Liew, autor malaio vencedor do Prêmio Eisner, é um olhar ímpar sobre Singapura. Refletindo sobre a vida de um quadrinista cuja carreira durou cinco décadas, este livro comenta acidamente sobre o passado e o presente de Singapura, enquanto homenageia a arte da narrativa sequencial.




Esse é um daqueles quadrinhos onde o leitor fica indeciso entre elogiar o roteiro e arte. Ambos são sensacionais, mas cada um tem sua cota de mérito na construção dessa grande obra. Não conseguimos descolar uma coisa da outra. E é nesse equilíbrio entre arte soberba e roteiro bem construído que temos um dos melhores quadrinhos publicados em 2018. Não é à toa que é uma HQ que recebeu o Prêmio Eisner. Liew perpassa décadas e décadas de história dos quadrinhos pelo mundo. 

É impossível não começar essa resenha pelo enredo. E aí temos a genialidade de Sonny Liew. Ele criou uma mockbiography, ou seja, uma biografia fictícia para falar dos temas que ele gostaria de tocar. O mais curioso é que essa foi uma obra que nasceu através de incentivos fiscais dados pelo governo (uma espécie de programa de incentivo à cultura). Vendo o que a obra se tornou, o governo decidiu retirar o financiamento, mas já era um pouco tarde porque as primeiras edições já haviam ido para a gráfica. Entretanto, a impressão foi paralisada e apenas poucos exemplares acabaram chegando às mãos de leitores. Graças ao burburinho criado pela censura cingalesa, a obra acabou tomando vulto. Mas, nesse primeiro momento, suas vendas foram sustentadas pela polêmica. Alguns anos mais tarde, houve o reconhecimento artístico de fato e a obra ganhou o que merecia. Várias das críticas que vemos aqui são bem sutis e o autor foi muito habilidoso ao construir a história de seu protagonista atrelada à história do próprio país. 

Quando estudamos o processo de descolonização afro-asiática, nosso foco quase sempre cai nas antigas colônias africanas e, às vezes, nos voltamos para falar de Coreia e Vietnã porque estiveram no pano de fundo da Guerra Fria. Mas, outras colônias como Cingapura passaram pela mesma situação. Muitos dos países que se livraram de suas antigas metrópoles optaram pelo governo comunista. Cito aí no bolo Angola, Coreia e Cingapura (os que não foram para o comunismo, embarcaram em ditaduras cruéis que duraram décadas... vide Indonésia e Sri Lanka, por exemplo). Só que acabamos erroneamente pensando que o modelo socialista acabou por resolver todos os problemas do país. O socialismo não conseguiu ser um sistema político efetivo porque no seu interior, a elite dirigente queria manter vantagens tipicamente capitalistas e acabar com todo e qualquer movimento opositor. Na HQ, vemos o quanto o PAP e o Barisan Socialis tentam disputar o poder na pequena ilha, muitas vezes com resultados lastimáveis. 

A manipulação da opinião pública e o cansaço com tantas situações de exclusão social (alguma associação com o Brasil hoje não é mera coincidência) fez da população extremamente apática quanto ao que estava acontecendo. Aqueles que se opunham ao regime ou eram desacreditados, ou eram mortos ou exilados. Um pequeno desenvolvimento, quase um milagre econômico (novamente... associações com o Brasil) não é mera coincidência já que na década de 1970 os EUA passaram pela crise do petróleo, o que fez com que os países da Cortina de Ferro obtivessem um desenvolvimento incipiente. Mas, já na década de 1980 vimos o quanto isso foi efêmero. O protagonista vive essas mudanças na pele, já que seus quadrinhos tinham um viés revolucionário, de crítica social. 

Também é preciso analisar a história a partir do ponto de vista da própria criação e difusão dos quadrinhos pelo mundo. Se Liew fala muito sobre a política em seu país, ele também toca em como os quadrinhos chegaram até países fora do eixo EUA - Europa. E tudo isso influencia na forma como o autor vai criar sua obra. No começo, o protagonista sofre influência muito mais do mercado japonês com o titã que foi Osamu Tezuka. Sua arte era capaz de atrair multidões e suas histórias podiam ser tanto ingênuas quanto complexas. Mas, aos poucos Charlie Chan vai tendo contato com outros quadrinistas como Wally Wood, Jack Kirby, Howard Chaykin, Frank Miller entre muitos outros. Vamos vendo que a sua forma de construir histórias vai mudando com o passar das décadas à medida em que ele absorve e transforma em algo próprio o que chega a ele. Ao mesmo tempo vemos o quanto a indústria dos quadrinhos é cruel. Em um espaço tão pequeno quanto Cingapura, sua arte não é interessante para a população. Quando ele tenta ganhar um espaço maior, sua arte apenas não é suficiente diante de um enorme oceano. Fora as interferências editoriais que ele acaba sofrendo também. Algumas das discussões que ele tem com seus editores são fenomenais. É a demonstração de como a magia funciona. 

Liew é um monstro como desenhista. Ele consegue emular dezenas de traços distintos. Não sou especialista em desenhistas ao longo do tempo, mas a gente consegue perceber algumas influências. E ele consegue mostrar essa habilidade sem muito alarde. Essa mudança no traço acontece harmonicamente, servindo como um indicador até de quando a história foi escrita. Então, a gente sabe que quando ele foi influenciado por Tezuka era nas décadas de 1940 e 1950 e quando é com Frank Miller é para o final dos anos 1980. Vocês podem imaginar a dificuldade do que ele fez? A atenção nos pequenos detalhes? Algumas páginas são arte de alta qualidade: ele tenta simular cartazes antigos criando detalhes como o durex gasto, o papel amarelado e um pouco amassado. É de uma genialidade ímpar. 

Também preciso comentar sobre a edição do Pipoca e Nanquim. Uma bela capa em baixo relevo com uma jacket lindíssima por cima. Ela destaca algumas das obras criadas pelo personagem como o Ah Huat. Internamente o papel é de alta gramatura o que valoriza as mudanças no traço feitas pelo artista ao longo das décadas. Ao final tem um glossário com algumas curiosidades e notas sobre a história de Cingapura. O legal é que o autor se envolveu diretamente no processo de tradução da obra dando opiniões e sugestões. O interesse dele pelo primor da publicação de sua obra é tocante e demonstra um total respeito pelos leitores e por aquilo que ele criou. 

Só tenho elogios a fazer sobre esse quadrinho e, mais uma vez, o Pipoca e Nanquim se supera em uma edição primorosa. Já sei que vários de seus quadrinhos estarão entre os melhores do ano para mim. E o mais legal de tudo é poder estudar a história de um país que passou ao largo da gente. Além de ser um quadrinho belamente desenhado, é instrutivo e enriquecedor. 




Ficha Técnica:

Nome: A Arte de Charlie Chan Hock Chye Autor: Sonny Liew Editora: Pipoca & Nanquim Gênero: Ficção/Biografia Tradutora: Maria Clara Carneiro Número de Páginas: 320 Ano de Publicação: 2018

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