• Paulo Vinicius

Resenha: "300 de Esparta" de Frank Miller e Lynn Varley

Esta é a história lendária dos guerreiros espartanos liderados por Leônidas que resistiram aos milhares de soldados persas na batalha das Termópilas. Frank Miller nos apresenta uma narrativa sanguinária de honra, glória e morte.



Sinopse:


O invencível exército persa avançava para o Ocidente conquistando inapelavelmente todos os povos em seu caminho. Chegou o momento da pequena Grécia, uma “ilha” de razão e liberdade num oceano de misticismo e tirania, enfrentar a força de Xerxes. Entre os gregos e a onda de destruição que se aproxima existe apenas um pequeno destacamento formado por 300 soldados de elite liderados por Leônidas. Nenhum soldado comum teria aceitado essa missão, mas eles não são homens comuns...eles são ESPARTANOS. "300 de Esparta" é mais um sucesso na extensa lista de realizações de Frank Miller ("Batman: O Cavaleiro das Trevas"; "Sin City"). Em 1999, ano de sua primeira publicação nos EUA, a série recebeu 3 prêmios Eisner: Melhor Minissérie, Melhor Roteirista/ Artista e Melhor Colorista (para Lynn Varley).


A graphic novel de Miller foi finalmente levada aos cinemas em 2007 pelo diretor Zack Snyder. Sucesso de público e crítica, 300 ainda é um dos filmes censura R mais lucrativos de todos os tempos, com mais de US$456 milhões arrecadados. No Brasil o longa metragem teve mais de 2 mihões e meio de espectadores. Em 2018 a Devir comemora os 10 anos de publicação da edição de luxo de "300 de Esparta", um marco dos quadrinhos mundial e, até hoje, o campeão de vendas da editora no Brasil, com 20.000 cópias vendidas.





Uma das histórias mais citadas entre estrategistas militares, a batalha das Termópilas entrou para a civilização ocidental como uma narrativa de honra e glória. Até hoje ela tem tons de lenda, mas fatos históricos que colocam em dúvida se ela seria realmente fantasiosa. A verdade é que ela encanta gerações e gerações de leitores e entusiastas. Frank Miller fez a sua interpretação sobre esse acontecimento em um dos seus trabalhos mais ousados e colocado no hall dos melhores que ele produziu ao lado de histórias como Cavaleiro das Trevas e O Homem Sem Medo. O mínimo que posso dizer é que 300 é visceral, com um ritmo que não para nem por um instante. Acho até que a narrativa de Zack Snyder, que adaptou a HQ para o cinema, é mais limpa do que os guerreiros truculentos de Miller. O que podemos dizer sobre a obra como um todo é uma frase repetida por Leônidas no primeiro capítulo dela: "Isto é Esparta!"


Falar rapidamente sobre a história? Bem, ela é simples. Se passa no ano de 480 a.C. quando Xerxes liderou uma horda de persas para conquistar as nações do ocidente. Sua pretensão era esmagar Atenas e Esparta, duas das maiores cidades-estado da Grécia. Inicialmente sua intenção era negociar um acordo de vassalagem dos espartanos, reconhecendo Xerxes como o grande líder. Mas, não tendo dado certo o acordo, os persas iniciaram a invasão. Leônidas pede autorização aos éforos para realizar a guerra contra Xerxes, um ritual religioso obrigatório entre os espartanos que remete aos primeiros dias da fundação da cidade-estado. Mas, os éforos se recusam e Leônicas parte com 300 homens em direção a um desfiladeiro conhecido como Termópilas. Com altos penhascos e uma passagem estreita, Leônidas queria dificultar a passagem das tropas, e reduzir em parte a desvantagem que ele teria frente ao poderoso líder oriental. Inicia-se aí a maior batalha da Antiguidade.


O roteiro de Frank Miller é bem direto, sem perder tempo com subtramas e histórias secundárias. Trata-se do confronto dos hoplitas gregos contra os milhares de soldados persas em toda a sua crueldade. A narrativa se passa em cinco partes abordando o poder de liderança de Leônidas e sua capacidade de frustrar os planos dos persas de obter uma vitória fácil. Miller usa várias frases de efeito, mas como se trata de uma história bem direta, isso não me incomoda nem faz Leônidas parecer um bobo. Pelo contrário, o personagem passa uma aura de liderança única e capaz de fazer os seus soldados seguirem até o inferno com ele. Miller também é bastante feliz ao construir a imagem dos persas como terríveis e o perigo presente a cada momento da batalha. Mesmo os persas obtendo pesadas derrotas, a gente sabe que eventualmente Leônidas irá cair. No fundo, o autor conseguiu desviar a atenção mais do que acontece e colocar em como acontece.



Bem, sejamos sinceros em relação à arte de Frank Miller como está acima: ela não é das melhores (e só piorou à medida em que o autor envelheceu). Mas, aqui em 300 ele estava no auge de suas potencialidades e podemos ver no quadro acima como sua arte combina com o quadrinho. Novamente: não é que a arte seja maravilhosa, é mais o fato de existir uma colorista muito competente (a Lynn Varley) e de ela ser perfeita para essa história. A arte é suja, com uma concentração nas sombras e no preto. O trabalho com o lápis também é competente, ressaltando a ferocidade dos guerreiros presentes na batalha. Outro ponto positivo para Miller é que ele poderia ter errado muito ao trabalhar cenas com inúmeros personagens em cena. Mas, ele escolhe dar um visual de um tsunami de indivíduos que se dirige em direção aos gregos. Talvez a melhor metáfora seja o emprego do termo Portões de Fogo, nome do livro clássico de Steven Pressfield onde Miller parece ter se inspirado. Não me sai da cabeça a imagem dos persas sendo como fortes ondas batendo nas rochas, que seriam os espartanos. Um maremoto de pessoas que seriam quase como forças naturais frente a uma inútil tentativa de refreá-los. Tem uma cena que vou colocar mais abaixo que representa esse mundo de gente.


E como não mencionar a Lynn Varley? Ela faz um trabalho de colorização fora do normal. O seu emprego de cores mais escuras e chapadas se combinam a esse foco do Miller no preto. Ela emprega um marrom escuro ou um azul petróleo que torna as cenas ainda mais impactantes. O leitor se sente preso naquele campo de batalha ao lado dos espartanos precisando segurar uma força impossível de ser detida. Varley complementa o trabalho de Miller fazendo com que arte e cores se tornem uma coisa só. Não à toa, Zack Snyder levou essa forma de colorização para o cinema. Porque ela é eficiente para essa história.


300 é a epítome do que significa a noção dos hoplitas, da filosofia do exército espartano. Na falange, cada membro do exército ocupa o seu espaço no campo de batalha à risca. Ele não abandona o seu posto. Existe um código que conecta todos os membros da falange, um treinamento que vai desde pequeno. Os espartanos são ensinados na arte da guerra desde que nascem, e caso um bebê nasça com alguma deficiência, ele é atirado do alto de uma colina. Entre os diversos mistérios (criptoi) dos espartanos está um treinamento onde uma criança de 6 ou 7 anos é abandonada em uma mata, sem nenhum equipamento ou roupa e completamente desarmado e precisa sobreviver durante um mês. Após esse período, a criança se torna cidadão espartano e é aceito para o treinamento como hoplita. Na HQ, nós vemos como os espartanos mantém a formação mesmo diante de forças avassaladoras. Ninguém deixa o seu posto e todos sabem que irão morrer. Mas, eles confiam no seu líder Leônidas que é o responsável por comandar a falange.



Leônidas nos é apresentado como o protótipo do espartano: um homem rude, violento, mas justo. Não há nada que diga mais a seu respeito como quando ele fala que na guerra não há espaço para o amor. E ele não se despede de sua esposa antes de seguir para a guerra e nem ela exige um adeus. O líder está lá para passar uma moral inabalável àqueles que o seguem e assim ele prossegue. Não há dúvidas em sua decisão de destruir o exército persa. Ele sabe que não irá retornar e já tinha preparado seu espírito para isso. Mas, ao mesmo tempo, ele tem obrigações como rei de Esparta e precisa detê-los o máximo que ele puder para que seus compatriotas tenham a chance de sobreviver à invasão persa. Em vários momentos ele tem a chance de abandonar o conflito ou se render e em todas Leônidas não titubeia em permanecer firme aos seus ideais.


É curioso que do exército de Leônidas o único que sobrevive é o contador de histórias. E isso serve para nos dizer como a história dos 300 entrou para os livros. A memória é um fundamento essencial para a cultura grega. A necessidade de aprender com os fatos passados, da História como a Mestra da Vida. Esta é uma ideia concebida pelo pai da História, Heródoto. E o homem experiente é aquele que carrega as narrativas para serem passadas às novas gerações. Caso contrário o que Leônidas e seus soldados fizeram teria caído no esquecimento. Isso serve para nos lembrar também do poder que as narrativas carregam em seu seio.


300 é uma história sensacional, criado por um autor que estava no ponto mais elevado de sua carreira. Frank Miller conseguiu escrever uma daquelas histórias que, mesmo que conheçamos, ele deu a sua marca a ela. Foi capaz de criar uma história atemporal que faz justiça à narrativa desses homens que resistiram com bravura a uma horda de persas que encontraram a resistência de guerreiros de fibra. Conceitos como honra e glória são repetidos até hoje e Leônidas, assim como Aquiles na Guerra de Troia, entrou para as lendas mesmo que sua vida tenha sido curta. Sem falar nas cores de Lynn Varley que elevam a arte de Miller à enésima potência.











Ficha Técnica:


Nome: 300 de Esparta

Autor/Artista: Frank Miller

Colorista: Lynn Varley

Editora: Devir

Tradutor: Marquito Maia

Número de Páginas: 88

Ano de Publicação: 2018 (nova edição)


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