• Diego Araujo

Onde estão as histórias de lobisomem? Resposta: No Brasil

Uma matéria dedicada aos carentes por livros sobre lobisomens viscerais. Sentem falta de algum bom livro do gênero lançado recentemente? Então confiram quatro indicações de histórias embaixo de nossos focinhos, pois todos são de publicação brasileira.



Começo esta matéria com uma pergunta: vocês se lembram de algum livro ou filme focado em lobisomens publicado há pouco tempo? Essas histórias ficaram presas na primeira metade da década passada. Uma pesquisa rápida no Google traz quase nenhum lançamento sobre lobisomens nos últimos cinco anos. A exceção é o filme Carnivore, dono de nota desastrosa no site IMDB, e As Boas Maneiras, filme de produção franco-brasileira.


É difícil entender o motivo. Por mais antigo que o mito do lobisomem possa ser, suas características refletem situações contemporâneas. Já vimos histórias reais de dualidades em pessoas com ótima aparência à vista de todos, mas de comportamento agressivo no privado, com a família, esposa... A rotina tumultuada de quem vive em metrópoles pode sobrecarregar alguém a ponto de reagir com momentos de loucura no fim do expediente, sob a lua cheia ou qualquer outra. Apesar de tudo isso, a escassez de obras sobre lobisomens é falsa, pois elas estão bem aqui, debaixo de nossos narizes. Muitos livros brasileiros dedicaram palavras aos lobisomens, lançados por publicação independente ou de editora de pequeno porte, e nem por isso deveriam ser ignoradas. Os autores brasileiros sabem descrever a visceralidade da besta, explorando a mitologia ou elaborando alguma nova interpretação do mito. Caso sinta falta deste tipo de história, é hora de conferir as indicações a seguir:



O Capeta-Caolho Contra a Besta-Fera, de Everaldo Rodrigues


Livro vencedor do Prêmio ABERST na categoria melhor conto ou novela de horror em 2018, Everaldo Rodrigues explora a situação complicada no interior de Pernambuco na época quando os cangaceiros tocavam o terror. Além da moléstia já rotineira, o povoado descobre que um lobisomem assombra o lugar em cada lua cheia, e o desespero da população faz com que eles recorram à ajuda do bando de Capeta-Caolho, o cangaceiro da região.


Esta novela regionalista traz o espaço nordestino interpretado pelo autor que explora a realidade durante toda a prosa, aproveitando cada oportunidade de descrever o horror sofrido pelos personagens, entregando o embate no qual é difícil prever o resultado. Ainda assim o desafio principal é encontrar meios daquela população viver em paz, quem dirá prosperar diante de tanta dificuldade destacada por Everaldo. Vale uma observação quanto a alcunha de Besta-Fera dada ao lobisomem causar equívoco, pois no folclore brasileiro existe outra criatura com este nome.


Quem quiser saber mais, fica o link da nossa resenha.


Lobo de Rua, de Jana P. Bianchi


Como o livro de Everaldo Rodrigues, não basta explorar toda a miséria cotidiana ― neste caso sobre a vida de um morador de rua no centro de São Paulo ―, o protagonista ainda recebe a maldição de lobisomem, cuja transformação impõe a dor enlouquecedora antes de o amaldiçoado persistir na sobrevivência mesmo nessas condições.Também sendo uma novela, os leitores podem matar a saudade de ver os dilemas dos amaldiçoados pela licantropia nessa leitura rápida, além de conhecer o pouco de uma história maior planejada pela Jana Bianchi, e mesmo assim não deixa a desejar como livro único, cuja história do protagonista é fechada.


Quem quiser saber mais, fica o link da nossa resenha.



Filhos da Lua, de Marcella Rossetti


Outra série, esta que o segundo volume está sob campanha de financiamento coletivo no momento. Marcella nos entrega algo diferente nesta história ao elaborar uma mitologia original em torno dos lobisomens, cujas características aparecem sem pressa no decorrer do primeiro volume. Também é o único desta lista com uma abordagem voltada ao público jovem-adulto, pois a protagonista adolescente convive nas adversidades comuns de pessoas da mesma idade enquanto descobre sua ligação aos lobisomens, chamados no romance de trocadores de pele. E mesmo abordando temas adolescentes, acredite: os lobos de Filhos da Lua mantém as garras viscerais bem afiadas.


Com muitos elementos de fantasia urbana, podem distanciar leitores acostumados a abordagem clássica de lobisomem. Por outro lado recompensa os de mente aberta ao abordar questões contemporâneas, inclusive indo além dos problemas decorrentes da idade da protagonista ao abordar civilizações tradicionais em conflito com a modernidade, de manter o sobrenatural anônimo das pessoas comuns, das tantas complexidades sociais envolvidas na narrativa, todas exploradas a favor dos leitores apreciadores de um bom bloco de páginas recheado de história.


A resenha do primeiro volume de Filhos da Lua está neste link.


Crônicas da Lua Cheia, de Clecius Alexandre Duran


Clecius já entregou dois livros desta saga, e está escrevendo um livro de terror diferente no momento, apesar de prometer trazer o terceiro volume da série em breve. Os livros já lançados podem atender a diferentes tipos de leitores: os que gostam de ver lobisomens clássicos, mas vivendo em regiões contemporâneas do Brasil em A Maldição do Lobisomem; e quem prefere a exploração deste mito junto com aspectos de ficção histórica em A Ascensão do Alfa, a história de lobisomens no meio da Revolução Farroupilha. Confesso fazer parte do segundo grupo.


De escrita requintada, Clecius elabora cenas brutais, estraçalha as vítimas em seus romances, tendo pudor nenhum ao descrever as atrocidades causadas pelas feras lupinas. O autor deixa claro quais são as características dos lobisomens nos romances e desenvolve o enredo concentrado nelas, demonstrando o dia e a fase da lua correspondente a cada capítulo, sem falar dos conflitos dos protagonistas serem atrelados aos aspectos da maldição.


A resenha do primeiro volume, A Maldição do Lobisomem, se encontra neste link.



Lobisomens no Brasil


O mito das bestas lupinas existe em várias regiões do planeta, por vezes de características distintas. No Brasil não é diferente, em partes com imigrantes portugueses, nossas feras são portadoras de uma maldição ao serem o sétimo filho homem depois dos anteriores serem todos homens também, ou todas mulheres. Tal questão é até levantada nas três primeiras obras citadas, apesar do folclore brasileiro em relação ao lobisomem ir além disso. Nenhum dos livros citados mostram o amaldiçoado espojando em encruzilhada antes de se transformar na besta com aspectos dos animais que espojaram ali antes ― pois lobisomens brasileiros podem ter aparência de bode, porco, cachorro ou touro. A lua cheia só deixa essas feras mais visíveis durante a noite, pois eles se transformam toda semana, independente da fase de nosso satélite prateado. Bala de prata? Desperdício! A munição pode ser das mais comuns, só precisa imbuí-la de cera usada na Missa do Galo ou ao longo de três missas de domingo.


Até agora nunca encontrei uma história de lobisomem com tais características do folclore brasileiro. Acredito que exista, apenas falta o reconhecimento a ponto de encontrá-la com facilidade, de todo modo eu escrevi uma história do tipo no último NaNoWriMo, em revisão no momento. A certeza é: temos muitos lançamentos recentes dedicados a lobisomens em que valem pelo menos conferir, uma oportunidade de descobrir boas histórias de fantasia nacional.



Livros citados:


Ficha Técnica:


Nome: Filhos da Lua - O Legado

Autora: Marcella Rossetti

Editora: Avec

Gênero: Fantasia

Número de Páginas: 488

Ano de Publicação: 2016


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Sinopse: Você consegue imaginar que a vida que te ensinaram a viver pode não ser aquela para a qual nasceu? Que tudo o que acredita pode não ser inteiramente verdade? E que existem criaturas conhecidas como trocadores de pele vivendo entre nós?


Em Filhos da Lua: o Legado, você descobre um novo universo de fantasia urbana, tendo como cenário o nosso país. A autora apresenta uma aventura cheia de mistérios cuja personagem principal é Bianca, uma adolescente que não imagina que sua chegada na cidade desencadearia uma série de acontecimentos capazes de transformar completamente a sua vida e revelar os segredos de um perigoso mundo.



Ficha Técnica:


Nome: O Capeta-Caolho contra a Besta-Fera

Autor: Everaldo Rodrigues

Editora: Auto-publicado

Gênero: Terror

Número de Páginas: 95 

Ano de Publicação: 2018


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Sinopse: Sertão. Anos 30. É o auge do cangaço…


Um lobisomem ataca, todo mês, a cidadela de Terezinha de Moxotó, no interior de Pernambuco. Sem ter a quem recorrer, o prefeito e Coronel Jesuíno de Cândida contrata o bando do cangaceiro Jeremias Fortunato Silveira, conhecido como Capeta-Caolho, figura aterrorizante, tão maléfica quanto o monstro que os ataca, na esperança de que o bandido terrível dê cabo da besta-fera. Mas quando os cangaceiros chegam na cidade, o povo entende que combater o mal com o mal nunca é a melhor escolha.



Ficha Técnica:


Nome: A Maldição do Lobisomem

Autor: Clecius Alexander Duran

Série: Crônicas da Lua Cheia vol. 1)

Editora: Giostri

Gênero: Terror/Fantasia Urbana

Número de Páginas: 268

Ano de Lançamento: 2016


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Sinopse: Desde muito antes da fatídica narrativa de Stevenson, o conto da dualidade de personalidades disputando um mesmo corpo vem fascinando a humanidade. Como seria o desenrolar dos eventos quando duas mentes de diferentes índoles assumem alternadamente o comando de um mesmo corpo? Seja em seu aspecto mais sombrio, seja em seu tom esverdeado mais pop, o dilema de O Médico e o Monstro nos desafia a imaginar como seria se nossa própria consciência nos tornasse meros espectadores de uma história de vida (ou morte) que se desenrola ao alcance de nossa percepção, mas sem nossa interferência? É fácil concluir que duas consciências distintas e antagônicas não podem conviver pacificamente num mesmo corpo. Esta é a história da disputa entre o homem e a fera e, no final, só pode haver um.


Ficha Técnica:


Nome: Lobo de Rua

Autora: Jana P. Bianchi

Editora: Dame Blanche

Gênero: Fantasia

Número de Páginas: 122

Ano de Publicação: 2016


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Sinopse: Raul é um morador de rua, um homem invisível e desgraçado como tantos os outros. Como se sua desgraça não fosse suficiente, Raul contrai a maldição da licantropia, tornando-se um lamentável lobo de rua. Tito Agnelli não compartilha do abandono de Raul, mas conhece muito bem a sensação de ser rasgado por dentro, todos os meses, pela coisa vil que se abriga nele. Assim, compadecido com o sofrimento do recém-transformado, Tito acolhe Raul na Alcateia de São Paulo, extinta até então por falta de lobisomens residentes na Pauliceia. Depois de décadas de contaminação, Tito conhece cada detalhe da maldição que o transforma em lobisomem. Além disso, conhece também a Galeria Creta, um lugar em São Paulo onde ele e outros dos seus são bem vindos nas noites de lua.



Links:


Campanha do Catarse para o lançamento do segundo volume de Filhos da Lua (https://www.catarse.me/FilhosDaLua2)


Página Oficial do filme As Boas Maneiras (https://globofilmes.globo.com/filme/as-boas-maneiras/)


Nota do filme Carnivore (https://www.imdb.com/title/tt5715234/)


Matéria sobre os lobisomens brasileiros (https://xpliterario.com.br/aprendizado/lobisomem-brasileiro-dia-do-folclore/)


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