• Paulo Vinicius

O Reino dos Gatos

A vida de adolescente chegou para Haru: transformações, mudanças, crescimento. Um dia ela salva um gatinho de ser atropelado. Mas, parece que esse gatinho esconde um segredo. E, possivelmente, tem algo a ver com um reino secreto de gatos.

Sinopse:


Haru salva um gato que estava prestes a ser atropelado por um caminhão e descobre que ele é, na verdade, um príncipe. Por gratidão o Rei dos Gatos a pede em casamento, e a menina é levada para o Reino dos Gatos. Agora, ela quer sua liberdade.




Eu realmente gosto das animações do Studio Ghibli. Estas se caracterizam por uma história leve e reflexiva, amparada em personagens marcantes e um nível de animação de cair o queixo. Algumas das animações do Studio adotam algum nível de vanguarda como Meus Vizinhos: Os Yamada ou uma história sensível como Os Sussurros do Coração. Infelizmente O Reino dos Gatos não é a história mais marcante do estúdio. Mesmo trazendo elementos familiares de outras animações, a história não possui nada de especial e acaba sendo mais uma entre várias animações japonesas do período. Mas, O Reino dos Gatos possui alguns pontos positivos.

Haru é uma doce menina que está passando pelos problemas da adolescência. Sempre acorda tarde e chega atrasada na sala de aula. Ela e sua melhor amiga aprontam todas e ela tem uma paixão platônica pelo rapaz mais bonito da escola. Porém, Haru não tem confiança em si mesma; sua baixa auto-estima faz com que ela perca várias boas oportunidades. Um dia, ela salva um gatinho de ser atropelado por um carro. Quando o gatinho agradece a ela, Haru se assusta pelo gato ter falado. Mais tarde ela recebe a visita da corte do rei dos gatos que diz a Haru que ela salvara seu filho e que agora ela receberia presentes dos gatos. Haru não leva muita fé até que começa a receber vários presentes malucos: erva de gato, ratos para comer. Quando ela recebe o convite para se casar com o príncipe dos gatos, Haru se assusta. Graças a uma voz misteriosa, ela chega até uma pequena vila onde conhece Baron que se prontifica a ajudá-la dessa imensa enrascada.

Para aqueles que não se lembram, Baron é aquela estatueta que ficava na loja de Antiguidades do filme Sussurros do Coração. A protagonista da história escreve um livro sobre as aventuras de Baron. O Reino dos Gatos nasceu pelo apelo dos fãs do Studio Ghibli sobre uma história com o Baron. Hayao Miyazaki começou a fazer um curta metragem sobre o personagem, mas abandonou a história depois de um tempo. O enredo não havia ficado do jeito que ele gostaria e o projeto foi engavetado. Anos mais tarde Hiroyuki Morita fez uma série de storyboards contendo uma história sobre uma menina e seu amigo Baron que precisam fugir de um reino de gatos. Miyazaki gostou do que viu e autorizou a produção. Para ele, seria uma maneira de treinar alguns dos membros do studio para algum possível grande projeto futuro. Esta é uma prática comum do estúdio que entre dois projetos grandes, produz uma animação teste com uma forma de praticar técnicas de animação.

A animação é comum. Não vi nada de espetacular na forma como este foi produzido salvo algumas cenas que se passam no Reino dos Gatos como a queda da torre, o estranho labirinto e até a transformação da Haru. Morita usou muitas referências a gatos durante a animação; isso seria óbvio, mas vale a pena o espectador prestar mais atenção às cenas de fundo do cenário. Novelos de lã, queijos de todo o tipo e até mesmo a própria torre parece um daqueles objetos de madeira que os gatos gostam de brincar. A trilha sonora também não me chamou muito a atenção. Temas relacionados à escola e no final algumas músicas voltadas para os elementos fantásticos apresentados pelo autor. Particularmente eu gostei da música dos créditos finais. A composição é bonita e os quadros desenhados que compõem as cenas são muito bem feitos. Talvez se a animação tivesse metade da qualidade desses quadros finais eu teria ficado mais satisfeito. Se eu posso salvar alguma coisa da animação foi a cena em que Haru salta do alto da torre e precisa andar por sobre um caminho formado por pássaros. Belo elemento visual.

O enredo é uma jornada de crescimento. Haru começa com uma menina medrosa e sem confiança. Os acontecimentos fantásticos servem para fortalecer a sua resolução. Acho até que o autor força um pouco demais essa transformação da protagonista. Entendo que o objetivo da história era Haru mudar seu comportamento e amadurecer como pessoa, mas a transformação foi radical demais. O contato dela com Baron me parece uma paixonite adolescente. Em vários momentos da história, Morita deixa transparecer essa paixonite. Baron se comporta como o heroi. Ele é o personagem com virtudes incríveis e suas habilidades fantásticas servem para guiar Haru até o seu objetivo. Se formos analisar do ponto de vista da jornada do heroi, Baron seria o mentor de Haru.

Porém, existem vários buracos no enredo. Ficou mal explicado o envolvimento do gato Muta com a família real. É contada uma história muito às pressas que fala de Muta tendo comido demais e sido expulso do reino. Hein? Era para ser apenas uma tirada cômica ou havia elementos de enredo sobre a história do Reino dos Gatos por trás? Não ficou muito claro isso. O próprio príncipe do reino tem seu envolvimento com sua noiva explicado muito estranhamente. Entendo que o tamanho da animação prejudicou o desenvolvimento do enredo, mas tal não justifica os buracos. Me pareceu um pouco de preguiça da parte dos roteiristas para deixar o enredo mais redondinho.

Alguns elementos de enredo me parecem terem sido inspirados por Alice no País das Maravilhas de Lewis Carroll. A cena acima em que Haru precisa tomar chá com Baron em uma casa pequena (é como se ela passasse na toca do coelho e entrasse em um mundo fantástico). O rei dos gatos possui um temperamento parecido com o da Rainha de Copas. A jornada de Haru se assemelha à jornada de Alice, apesar de Morita apresentar uma evolução no personagem enquanto Alice continua a mesma. Entretanto, as comparações ficam por aí. São apenas elementos soltos em uma história cujo encaminhamento é diferente do nonsense de Lewis Carroll.

O Reino dos Gatos foi uma boa tentativa de agradar aos fãs ávidos por rever o famoso Baron, apresentado em Sussurros do Coração. Infelizmente, a animação não passa disso: uma boa tentativa. É uma animação leve, com uma temática voltada para a auto-estima e a coragem interior, mas com muitos buracos no enredo. Para o espectador mais atento, muita coisa é deixada para trás. Não posso dizer que a experiência foi condizente com a qualidade do estúdio. Porém, O Reino dos Gatos possui alguns poucos pontos positivos que o tornam minimamente divertido.

Ficha Técnica:


Nome: O Reino dos Gatos

Diretor: Hiroyuki Morita

Produtores: Toshio Suzuki e Nozomu Takahashi

Roteirista: Reiko Aoshida

Baseado em The Cat Returns escrito por Aoi Hiiragi

Estúdio: Studio Ghibli

País de Origem: Japão

Tempo de Duração: 75 min

Ano de Lançamento: 2002


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