• Diego Araujo

O NaNoWriMo: O que entregar em cada parte do livro?

Atualizado: 28 de Out de 2019

Compreenda a importância do que mostrar em cada etapa da sua próxima história a escrever neste NaNoWriMo conforme apresentado em mais este conteúdo baseado no livro Escrever Ficção, de Luiz Antônio de Assis Brasil.



O foco do NaNoWriMo é escrever. A campanha estabelece uma meta diária de modo a incentivar o autor a colocar em prática a história pretendida a contar. É preciso tomar cuidado, pois escrever por escrever pode levar a muitas cenas descartáveis, infiéis à proposta da história ou falhar em cativar o leitor no devido momento. Há o risco de estender o começo e apressar o desenrolar da história, ou mesmo fracassar no final ao entregar algo nada agradável ou fiel à proposta inicial. Sendo o escritor alguém do tipo arquiteto ou jardineiro, ambos precisam saber o que determinada parte da história deve entregar ao leitor, quando se trata de uma história linear. O livro Escrever Ficção de Assis Brasil tem um capítulo dedicado quanto a isso, e este artigo elencará os conceitos mais interessantes conforme minha leitura nele.


Primeiro capítulo


Também podemos referenciar como o início da história, afinal nem toda novela ou romance é dividida em capítulos. O foco desta parte é mostrar ao leitor a proposta da história, e isso deve ser feito aos poucos. Apresente um ou dois dos personagens relevantes no primeiro parágrafo, apresente os demais nos seguintes ao devido tempo, permitindo ao leitor assimilar o essencial logo no início. Situe também o lugar onde a cena inicial ocorre, em qual momento, qual personagem age ou sofre neste momento da narrativa, deixe claro qual o estilo de narrador escolhido e mostre logo de cara o conflito. Parece ser muito a esclarecer logo no começo, só que nenhum desses pontos devem ser expostos sob relatório, apenas considere-os ao formar a primeira cena. Confira o começo do primeiro capítulo de O Auto da Maga Josefa:


“Já fazia tempo que Toninho percorria o agreste e o sertão sozinho, caatinga adentro, caçando de tudo. Havia resolvido casos de urubu comedor de gente viva no norte de Minas, chácara infestadas por duendes no interior do Sergipe e até mesmo mortos que se recusavam a permanecer na tumba no Ceará. Demônios também, aos montes, tanto dos que vinham encarnados em pele de monstros, quanto dos possuidores de pessoas.”

Logo de início conhecemos Toninho, um dos personagens centrais. Já situa o ambiente da história no nordeste, inclusive podendo se passar por alguns estados. Também apresenta o contexto, pois Toninho é um caçador de criaturas fantásticas já experiente pelos exemplos elencados — ou seja, o narrador acompanha e sabe tudo sobre Toninho —, também define o momento vigente como posterior a todas essas caçadas, e por fim menciona os demônios, espécie a enfrentar nos parágrafos seguintes, o conflito eminente.


Aproveito este mesmo livro para explicar o conceito denominado por Assis de conflito-espoleta, quando algo acontece logo de início como estopim ao ponto principal da história. Apesar do conflito inicial partir da caçada ao demônio, a questão importante do romance ainda está por vir, que é o encontro e o desentendimento de Toninho com a Josefa, uma maga — e filha do Diabo — interessada em caçar criaturas feito ela.


Poderia começar a história sem apresentar o conflito? Talvez sim. É preciso entregar algo relevante no início a ponto de conquistar o leitor, se não for pelo conflito, pode ser feito com alguma qualidade a refletir no domínio do ficcionista quanto à história. Por exemplo, posso considerar uma história voltada à carreira de um advogado, começando por este personagem esclarecendo dúvidas a um cliente para o ficcionista demonstrar o conhecimento técnico crucial nesta história.


A dica final sobre o início corresponde à proposta de esta parte situar o leitor na história: facilite o entendimento ao leitor. Nada de palavras rebuscadas sem necessidade ou deixar a descrição incerta sobre determinado personagem ou evento. O leitor abrirá seu livro com a intenção de lê-lo, e espera fazê-lo sem obstáculos de compreensão. Talvez acredite a possibilidade de confundir o leitor caso o gênero do livro for mistério, a questão é focar este teor na história em si, não por meio da escrita. Confunda o leitor a partir do conteúdo disposto nas cenas, jamais pela dificuldade de compreender um parágrafo.


“Sua história pode ser de mistério, mas seu texto não pode ser misterioso.”


Segundo capítulo


Longe do que parece, não falarei de cada capítulo do livro, até porque cada um tem sua própria quantidade conforme o enredo e limitaria o escritor quanto à forma de desenvolver a própria história. Só é preciso destacar a importância do trecho seguinte ao início por ele propiciar pontos importantes e certos desafios ao escritor. Depois de o leitor descobrir sobre o assunto da história, o escritor deve firmar o conteúdo no segundo capítulo.


É a hora de apresentar o restante dos personagens relevantes — salvo em casos do personagem aparecer apenas mais tarde no enredo, com o devido cuidado de manter a simetria dos personagens —, engatar o avanço do enredo e comprovar o domínio do autor com a própria história. Depois de situar todos os detalhes da narrativa, o escritor precisa prosseguir sua história a partir de tudo o que foi disposto, ou seja, é preciso conhecer muito bem sobre os elementos da história, cujo resultado será refletido nesta parte.


“O ficcionista não pode ser dominado por seu enredo. Ao contrário, é o ficcionista que deve dominar o enredo.”

Aqui começam a surgir as adversidades ao personagem. Com o conflito central apresentado no começo, agora acontecerão outros a somar-se ao perigo principal e testarão as capacidades do personagem central no decorrer do miolo, a próxima parte a considerar neste artigo.


Miolo


O miolo corresponde à maior parte do livro, é onde a história acontece, quando os conflitos agravam a dificuldade do personagem. Caso pergunte, o motivo de falar tanto sobre o conflito, é que este é um dos pontos principais de toda história. Todo enredo consiste em personagens com qualidades e defeitos, tudo englobado na questão essencial, o fator sobre o que o personagem quer e o que ele precisa. A jornada consiste a partir desta questão enquanto aos poucos descobrem-se nuances da sua necessidade, esta impedida pelo conflito principal. Os agravamentos ao longo desta jornada serão responsáveis por revelar ao personagem central a verdadeira necessidade e levarão ao ponto crucial onde vencerá os desafios ou mesmo falhar, mas o mais importante: deve levar o personagem a uma mudança de atitude ou perspectiva frente ao conflito central.


Quem se dedicou ao trabalho anterior de planejamento, sentirá menos dificuldade nesta etapa, bastando escrever as cenas já concebidas na organização do enredo. Terá menos chance de provocar furos ou problemas de continuidade na história, apesar de jamais ficar imune a essas falhas, mesmo os escritores mais eficientes sofrem de lapso. Ciente deste risco, Assis recomenda pausar a escrita antes de avançar ao final e revisar, identificando esses deslizes no enredo e arrumando-os antes que os esqueça — atitude contraditória à proposta do NaNoWriMo, então fica a cargo do escritor decidir por qual caminho tomar nesta parte.



Final


É chegada a hora de escrever o desfecho da história! Prepare o melhor ambiente possível para escrever esta etapa crucial, nada de pegar as últimas horas da noite, esqueça dos demais problemas na vida. O esforço deve ser no mínimo o equivalente a quando iniciou a história, bem como a respectiva abordagem: seja claro. Esclareça o que acontece com o personagem no fim, demonstre também o espaço e o tempo que ocorreu. O leitor merece ter respostas satisfatórias após dedicar tanto tempo no seu livro.


Talvez tenha a intenção de, em vez de esclarecer o final da história, deixá-lo em aberto. Esta opção é válida sob a condição de encarregar o leitor de interpretar o subtexto do desfecho suspendido. A história precisa conter algum sentido, e se pretende fazer o final em aberto com intuito de desviar dele, o leitor pode acusá-lo de traição, por entregar algo fora do esperado ou julgá-lo incapaz de concluir a história. Em suma, planeje bem ao fazer este tipo de desfecho.


Apesar de ocorrer o grande clímax no final, a história precisa terminar sob esmaecimento da narrativa. O ficcionista deve mostrar as consequências advindas do último conflito confrontado. Apesar das precauções quanto ao final em aberto, também não precisa deixá-lo fechado por completo, uma pergunta deixada em suspensão possibilita a continuação desta história, mas também pode servir de um ponto a debater entre os leitores da história. Vou além do conteúdo de Assis: a narrativa contida no livro é o fragmento da história do personagem, com acontecimentos anteriores e posteriores ao retratado, então seria injusto o ficcionista enclausurar a vida dele numa história fechada, ofereça-lhe algo a mais para viver!

Há ainda muitos outros cuidados ao encerrar o livro, e elenco os principais a seguir:


- Mostre o final em vez de contar. Jamais resuma a conclusão da história relatando os acontecimentos de cada personagem relevante. Dedique cenas e as demonstre ao leitor;

- poupe o leitor de considerações genéricas. Nem toda história é uma fábula com lição de moral na conclusão. Poupe o leitor de ler toda a história apenas para receber a mensagem do autor no final; caso possua intenção de demonstrar seu ponto de vista no enredo, faça-o desde o começo;

- evite contar tudo sobre a história depois da conclusão, deixe o leitor tirar as próprias conclusões, do contrário soará como se o subestimasse, incapaz de interpretar os acontecimentos essenciais já expostos;

- e termino com a frase do Assis, pois o autor precisa lembrar de concluir a história sem prolongar as questões já resolvidas:


“Quando acabar seu romance, pare de escrevê-lo.”

Leve em consideração as etapas expostas neste artigo elaborado a partir da leitura do último capítulo de Escrever Ficção, também busque conferir este livro por si e descubra outros pontos que considere importante ao encarar esta grande aventura que é o NaNoWriMo. Ainda terá mais conteúdo baseado neste livro capaz de lhe ajudar, então nos acompanhe!



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Livro citado:


Ficha Técnica:


Nome: Escrever Ficção

Autor: Luiz Antônio de Assis Brasil

Editora: Companhia das Letras

Gênero: Não-Ficção

Número de Páginas: 400

Ano de Publicação: 2019


Link de compra:

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*Material enviado em parceria com a Companhia das Letras


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