• Diego Araujo

O NaNoWriMo: Lições a aprender e a corrigir de edições anteriores

O que eu aprendi em edições anteriores? Hora de fazer uma autoreflexão sobre o que eu fiz que poderia ser diferente e o que pude assimilar a partir dos feedbacks.



Este artigo de NaNoWriMo será diferente. Apesar de basear no livro Escrever Ficção do Assis Brasil, não focarei no conteúdo deste livro, pois a abordagem desta vez será prática. Eu participei do NaNoWriMo ano passado, cumpri a meta de palavras e ainda escrevi por mais dois meses até terminar o romance. Alguns problemas impediram de eu levar a história adiante, entre eles pessoais, mas também por eu ficar insatisfeito com o que escrevi. Longe de ser todo ruim, falhei em certos aspectos, hoje mais claros após ler livros técnicos como o de Assis Brasil, os quais compartilho agora.


Introdução da história


Começo com o primeiro parágrafo do romance. Acompanhe o trecho antes de eu falar dele:


“Ara percorre a Cidade Bonita, onde o horizonte é bloqueado pelas muralhas. Metais rangem com a caminhada, pequenas explosões agudas em cada passo das botas reforçadas com ferro sobre cacos de pedra prensados no quartel. Observa seus colegas de armaduras menos reluzente, empunhando punhais ou espadas, tropeçam em seus golpes, com berros desnecessários, cavalaria vergonhosa. Fecha os olhos, ergue a mão direita por cima dos ombros, massageia o pescoço com sua manopla pouco flexível, e estapeia o longo cabelo preso com laço de corda, alivia o calor e o suor dos fios sobre a pele descoberta de metal, abre os olhos e não para de andar.”

Ainda gosto da primeira frase, entrega logo na primeira palavra o nome do personagem central e dá uma ideia de onde a cena ocorre, em uma cidade condizente ao período feudal. Já o problema começa na frase seguinte, nos “metais rangem”. Metais de quê? Deveria deixar claro que o personagem veste armadura e só depois explorar esta descrição sonora. Faltou também especificar o trecho “berros necessários, cavalaria vergonhosa” sendo a opinião de Ara, na forma vigente soando como se fosse dita pelo narrador — nem chegando a ser um discurso indireto livre, tópico também abordado no final deste artigo —, um deslize que pode custar a qualidade de todo o romance; afinal a focalização é onisciente ou interna ao personagem? Tendo tal inconsistência logo no início, abre um indício de acontecer também em outros capítulos, por isso os avaliadores de originais afirmam ser capazes de rejeitar um romance só de ler o primeiro parágrafo.



Pequei quanto ao narrador e por dificultar o entendimento da descrição, apesar das demais características atenderem ao que o começo de uma história deve entregar conforme o artigo anterior desta série. Os parágrafos seguintes dão mais detalhes de Cidade Bonita, do lugar onde acontece o prólogo. Também situei o tempo da história, melhor ainda, demonstrei sobre mesmo tendo aspectos medievais, esta história acontece no futuro! Ara visita a cela de um prisioneiro prestes a ser executado por utilizar conhecimentos e recursos profanos, esses anotados pelo condenado:


“— Já deve ter lido as primeiras páginas, sobre as civilizações convivendo em edifícios verticais numa altura capaz de arranharem o céu, pois não cabem tantas pessoas no solo das cidades. Talvez tenha alcançado o capítulo sobre os veículos mais velozes do que qualquer animal quadrúpede, ou das asas metálicas que percorriam o céu até aterrissar no próximo continente. Aliás tem outros mundos terrestres a milhares de quilômetros do nosso litoral. Se dedicou um pouco mais, descobriu que existia ferramentas de comunicação aprimoradas, os nossos ancestrais acessavam informações e pessoas de todo o planeta...”

Em seguida abre a questão do conflito principal do romance — e de Ara. Esta “Tecnologia Anciã” deve ser recuperada? Desenvolvo o argumento sobre esses recursos avançados solucionarem alguns problemas sob o preço de causar novos, culminando nos agravamentos a serem resolvidos ao longo do romance.


Esta mania de escritor iniciante...


Avançarei na história para destacar outro ponto a discutir, agora no primeiro capítulo:


“O conjunto de metais se chocam a cada ação de suas articulações. Dalb é um dos poucos guerreiros independentes capaz de adquirir e manter a sua armadura. Atravessa o quintal com a sacola preta nas costas, mais metais se batem lá dentro com seus passos. Bate na porta de alumínio duas vezes com a mão esquerda, a pulseira metálica justa contra a luva de couro, e deixa o barulho agudo anunciar sua chegada. O rapaz de cabelo ruivo abre pouco tempo depois. De estatura baixa, inclina a cabeça para alcançar os olhos castanhos sobre a barba branca.”

Pelo visto eu tinha certa obsessão em descrever barulhos metálicos antes de deixar claro serem armaduras... A última frase troca o foco de Dalb pelo rapaz que o recebe na casa, um desvio de POV desnecessário. Mas o mais grave vem agora: percebeu o trecho narrado na perspectiva de Dalb, outro personagem? Este capítulo é fragmentado, cada pedaço apresenta os demais personagens do romance, na perspectiva de alguns em específico. Isso mesmo, o romance contará a jornada de um grupo de guerreiros — neste caso, os Artesãos —, sendo Ara o personagem central. Eu perturbei a ordem do romance ao criar cenas focadas em outros personagens, pois focar neles em um momento abre a expectativa no leitor de receber informações íntimas desses personagens em outros capítulos, e o desiludi pelo resto da narrativa focar em Ara. Também tem o problema daquele primeiro parágrafo tender para a narrativa onisciente, outro motivo de enganar o leitor com a proposta sendo voltada ao personagem central.



Há outra questão muito batida: abordar vários personagens relevantes numa mesma história. Apesar de eu focar em Ara, a jornada é do grupo, com acontecimentos e conflitos ocorridos em pessoas diferentes. Em outras palavras, eu diluí o conflito entre os personagens, portanto diminuí sua intensidade. É aquela história de escritor iniciante com desejo de fazer igual aos seus inspiradores logo no primeiro romance. As Crônicas de Gelo e Fogo só existiu depois de inúmeras publicações de George R. R. Martin, com experiência o suficiente antes de coordenar esta saga em pontos de vistas diferentes. Ainda assim esta problemática pode recair na crítica, pois tendo tantos conflitos infligindo sobre Eddard Stark, eu duvido de alguém ter admirado aquelas páginas dedicadas a Catelyn trilhando até o castelo de sua irmã, entre outras passagens que apenas terão a devida relevância mais adiante. Ninguém está proibido de desenvolver vários personagens centrais na mesma história, apenas precisando tomar cuidados específicos, esses difíceis de obter o domínio sendo escritor iniciante.


Pelo menos acertei em algumas partes com esta diversidade de personagens. Confira o trecho a seguir:


“― Essa coisa [navio] logo sairá e deixará o horizonte livre novamente, vazio... ― Tosse ao notar a presença de Ara. ― É o que as mulheres disseram durante a manhã.

Ara segue seu caminho sob o suspiro de Bira, sua barriga ronca pelo café e inúmeras frutas dispostas na mesa, mas dá atenção ao que o Carrancudo [título de Bira] diz:

― Vejo que a nossa camisa lhe serviu bem. ― Quase esboça um sorriso. ― Lamento por eles te incomodarem com a jaqueta de Carme, eu disse a eles que jamais serviria.

― Não se preocupe. Adorei o gesto deles de prestar uma homenagem.

E o sorriso do Carrancudo se concretiza, some com o tempo de um piscar de olhos.

― Dê a jaqueta para a mulher que veio com Dabu. Apesar da homenagem, aquilo foi feito para se vestir, e servirá nela.”


Contextualizando: Bira era líder de um bando de mercenários até desistir deste meio de vida e convencer seu grupo a virarem cidadãos. Garantiram moradia em um vilarejo próximo ao litoral, onde Bira ficou responsável pelo lugar. O grupo de Ara o encontrou enquanto enfrentava os saqueadores da região, quando a seguidora de Bira chamada Carme morreu na batalha. Por garantir a proteção da vila, Ara recebeu a jaqueta da mulher — modelo unissex — dos colegas dela.


Quanto ao trecho, é uma passagem de diálogo que revela aspectos de Bira, o sujeito “Carrancudo” com a sensibilidade exposta quando Ara o flagra sentir saudades do navio a partir, esta disfarçada em seguida por Bira atribuir esta sensação às mulheres da vila. A outra fala demonstra satisfação em poder ajudar Ara com roupas novas — ele estragou as dele no capítulo anterior, depois de outra batalha —, e conclui sendo prático, dando pouca importância ao sentimentalismo dos seguidores o qual ele mesmo busca esconder. Tudo isso expresso a partir do diálogo, sem eu precisar contar essas características de Bira ao leitor.


Capítulo... Diálogo... Ação!


O romance trata da jornada de guerreiros, sendo natural eles batalharem ao longo da jornada. Por outro lado, eu deveria ter cuidado com a quantidade das cenas de ação. Por ser um romance, devo dar atenção a outros fatores alheios ao combate, coordenar a questão essencial dos personagens — já explicado em outro artigo — e planejar o agravamento dos conflitos, esses além de enfrentar inimigos. Entra na mesma equação conflito x personagem: quanto mais combates tiver, mais será diluída a tensão entre eles. Bem melhor reservar a grande batalha no clímax do romance sem sobrecarregar o leitor a ponto de deixá-lo enjoado quando chegar nesta parte. Livros não possuem os recursos audiovisuais da tevê capazes de mostrar os movimentos em batalha, nem dos videogames com desafios ao jogador através do combate para então prosseguir o enredo como recompensa; e mesmo essas plataformas são passíveis de críticas sob públicos mais exigentes.


Então sim, exagerei nas cenas de ação, essas ainda sendo poucos variadas, apenas o grupo contra outro ou contra um adversário poderoso. Por ser narrado a partir do personagem central, tive de levar Ara a diversos pontos da batalha para demonstrar a situação dos demais personagens, estendendo o que já é sobrecarregado. Reservo o direito de mostrar onde pelo menos acertei, pois nem toda briga consistia somente na ação. Lembra do conflito revelado logo no começo do romance? Coloco-o em questão antes de um combate:


“— Emoções causaram discórdias entre pessoas ao alcance da tela dos dispositivos em meu tempo. Casos isolados de ódio levaram à agressão e mortes planejadas, evoluíram a terceira e última guerra mundial em que prometia acabar com a destruição por meio da própria. Vocês quase não sobreviveram naquele tempo, e agora você [Ara] pretende repetir o mesmo erro, deixando a emoção empunhar sua arma e sobrecarregar o corpo. Recue agora — Venmel eleva a voz a ecos estridentes.

[...]

— Você não entende de sentimentos. — Queixo de Ara treme com a estática presa na mandíbula. — É uma máquina, um ninguém com memórias de pessoa ultrapassada.”


Venmel é um robô cuja inteligência artificial foi feita a partir da consciência de um cientista do passado quando a Tecnologia avançada era comum — lembrando que este romance é de ficção especulativa, apesar de na realidade já haver pessoas tentando realizar algo parecido, o tal do mind upload. Perceba a ausência da disputa entre herói e vilão, o antagonismo está nas perspectivas diferentes dos personagens, de toda a experiência vivida e implícita que levaram a eles terem as respectivas visões e culminarem no combate. É a penúltima batalha no romance, e se eu organizasse os conflitos anteriores de formas mais variadas, deixaria esta etapa do romance bem mais interessante.


Alternativas de narrativa


Cometi uma mudança grave ao longo da escrita no NaNoWriMo: o estilo da narrativa. Tive a ideia e a implementei na hora, gostei do resultado naquela época e comecei a usar nos capítulos seguintes. Isso acarreta em adequar os capítulos escritos antes deste estilo. Segue o trecho com o exemplo desta ideia:


“Ter mais alguém com tanto poder? Poderia dar certo, mais provável que não. O poder não é ruim, e sim a consequência do mal uso dele. Frente ao que devem enfrentar, e caso seja tudo o que Venmel diz sobre o Pacificador [o adversário final do romance], infelizmente não há outra maneira.”


O trecho trata da divagação de Ara, o narrador entrando na mente dele e expondo os pensamentos ao leitor, sem sequer explicar que fez isso ou indicar através de algum verbo de pensamento. Não tem nada de inovador nesta abordagem, já existente desde o século XIX, chamada de discurso indireto livre. Mesmo existindo há tanto tempo, é raro vê-la na ficção fantástica, cuja narrativa teima em ser descritiva, e assim poderia atribuir uma qualidade distinta ao meu romance caso for bem executada.


Quanto a esta minha tentativa ter sido bem feita ou não, confesso ter ficado indeciso. A ideia é boa, talvez eu precise pegar mais referências com o uso do discurso indireto livre e me guiar a partir deles. Por isso muitos aconselham aos escritores lerem livros fora do nicho em que pretende trabalhar, assim conseguindo inovar naquele gênero.


Acredito ter tirado boas lições fazendo esta revisão crítica sobre o romance escrito no NaNoWriMo passado. Alguns dos problemas seriam corrigidos através da revisão, outros dariam mais trabalho e ainda seriam possíveis de corrigir, já outros exigem refazer, substituir ou excluir capítulos inteiros. Fico indeciso quanto a tentar trabalhar neste romance outra vez, meu sentimentalismo exige que sim, e eu ainda gosto da ideia desta história. A única certeza é por ora focar em outra história, de fantasia regional e histórica, esta a escrever no próximo NaNoWriMo considerando todo o aprendizado tido a partir desta série de artigos e de outros estudos ao longo do ano.



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