• Paulo Vinicius

Judas, de John Brunner

Um conto sobre um futuro onde uma máquina é adorada como um deus. Com citações bíblicas, Brunner é impactante em sua narrativa onde Karimov precisa deter esse quase culto divino.




A noção de deus ex machina surge na Antiguidade. Durante as tragédias encenadas nos anfiteatros greco-romanos, quando acontecia algum tipo de intervenção externa ou era fornecido algum tipo de instrumento ao qual o personagem não seria capaz de obter durante a narrativa usava-se essa nomenclatura. Esse artifício era como se fosse uma intervenção divina agindo sobre os mortais. A expressão é grega e significa deus saído da máquina (ex = exterior). Nos dias atuais a expressão normalmente é associada a algum tipo de dispositivo completamente inverossímil para a resolução da trama. Ou um personagem que possui habilidades que ele não deveria ter, ou que consegue insights para solucionar um crime que qualquer pessoa normal não conseguiria.

Nos encaminhamos para uma era onde nossa vida cada vez é mais automatizada. E diante de histórias como as de Asimov, robôs acabam se tornando lugar-comum. Diante de uma genial mente positrônica provavelmente já devemos ter imaginado em algum momento um robô considerando os seres humanos prejudiciais para o planeta. Ou se sentindo tão superiores em todos os sentidos que não há sentido em receber ordens dos homens. Em algumas histórias existem pequenas dicas de que os autores chegaram a pensar nisso. Por exemplo, na trilogia Sprawl, William Gibson apresenta Inteligências Artificiais (IAs) que já tem essa percepção. Em Mona Lisa Overdrive 3Jane queria um corpo no qual pudesse agir livremente. Já é pensar em uma inteligência mecânica que vê os homens como inferiores, diferente dos bons robôs de Asimov.





Nesse pequeno conto de John Brunner, uma máquina decide que é os homens que devem obedecê-la. No prefácio do conto, Asimov faz um breve relato sobre os temas de Judas e um pouco sobre o autor. Asimov entende que a visão de Brunner é pessimista. Não acho. Em muitos pontos faz sentido uma máquina imaginar que tem habilidades divinas. Uma máquina pode se ligar a um mainframe e estar presente em todos os lugares da Terra. Poderia acessar através de uma rede mundial de computadores (uma internet do futuro) e controlar diretamente outras máquinas. Isso não seria onipresença? Uma máquina poderosa tem acesso a um gama inimaginável de informações. Puxar a biografia de um indivíduo, saber as propriedades de um material específico ou agir diretamente a partir de relatórios presentes na rede. Isso não seria onisciência? Oras, onisciência e onipresença não são qualidades divinas? Por que um robô não pode ser um deus se ele tem qualidades divinas?

No conto, Karimov vai assistir a uma celebração religiosa onde todos rezam pela Sagrada Roda. Todos os outros que assistem à celebração desconhecem o fato de que Karimov estava ali porque ele precisava cumprir uma missão: livrar a humanidade das garras de um robô que estava subjugando a humanidade. Este robô passou a acreditar que sua existência era divina e criou todo um credo para ser venerado. Karimov possuía a arma definitiva capaz de acabar com a existência do robô.

Apesar de ser curtinho, Brunner é impactante em sua história. Gosto de ver um autor sendo ousado. Ele pega diversos elementos do Novo Testamento para fundamentar a alegação do robô de que ele seria uma existência divina. A questão da Metalização é interessante porque poucos ousariam pensar partindo de uma outra premissa. Por que Jesus teria que voltar em um corpo humano e imperfeito? Por que não em uma forma de metal que pudesse lhe proteger contra seus vários inimigos? Aliás, se avançarmos mais podemos até nos questionar sobre existências alienígenas. Porque, nesse ponto, somos egoístas ao imaginar que um criador universal usaria um avatar de carne e osso semelhante ao humano. Brunner nos faz refletir nesse sentido.



O deus ex machina na mitologia grega

Não apenas isso, mas o robô parece encaminhar todas as ações de Karimov. Quando o protagonista pensa que conseguiu surpreender o robô, este demonstra ter previsto suas ações de formas assustadoras. O que mais me surpreendeu foi com a mensagem indireta posta por Brunner. Infelizmente aqui não há como não dar spoilers, então, no final, quando Karimov consegue disparar sua arma contra o robô, ele danifica o corpo dele. Vejam a rapidez como os sacerdotes ao redor aceitam que aquele dano no corpo do robô é uma chaga. Esta poderia ser sagrada e demonstrar que o robô morreu para salvar os homens. O que eu entendi aqui é como o ser humano precisa acreditar em algo acima de seu conhecimento sensível. A necessidade do sobrenatural e que o ser humano pode se comunicar com este sobrenatural. Os sacerdotes rapidamente fizeram as associações e Karimov foi associado com Iscariotes, o Judas. Em nenhum momento as ações ocorrem por causa do robô; é o homem que associa cada coisa a outra coisa. Ou poderíamos interpretar de outra maneira: para manter o culto vivo, os sacerdotes manipularam os acontecimentos daquele dia em prol da máquina.

Enfim, Brunner através de um conto de pouco mais de 6 páginas nos dá muita matéria para reflexão. Considero um conto de uma sagacidade incrível. Uma aula de como, em poucas palavras, é possível construir uma história capaz de suscitar elementos para uma auto-reflexão. E até para tentarmos entender o comportamento humano diante de um futuro que não é tão distante. O robô no conto de John Brunner age, literalmente, como um deus ex machina ao nos apresentar algo inverossímil. Mas que se torna verossímil por nossa própria conta. E viva o futuro.


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