• Paulo Vinicius

Hotel New Rose, de William Gibson

Uma história que podemos associar a uma espécie de Romeu e Julieta futurista. Um hacker chamado Sanjii acaba se vendo envolvido em uma guerra entre duas corporações. E ele encontrará um motivo para viver.




Na história, o narrador e sua parceira Fox fazem espionagem industrial. Grandes corporações como a Hosaka e a Maas pagam por seus serviços: geralmente eles pegam algum biólogo ou tecnólogo para que a corporação possa retirar informações sobre os últimos projetos da concorrente. A história se parece um pouco com um Romeu e Julieta no futuro, com os dois sendo parceiros e amantes. Sanjii é uma hacker que se alia a eles para extrair um biólogo desejado pela Hosaka que, no momento, trabalha para a Maas. O narrador é contratado para leva-lo até um laboratório na África para que ele continue suas pesquisas para a Hosaka. Não vou contar muito sobre a história já que várias surpresas esperam pelo narrador durante esse conflito entre as corporações.


Na minha opinião, Hotel New Rose é a essência do que Gibson acha que pode ser o futuro caso o capitalismo corra frouxo. É quase como um panfleto revolucionário. Para ele, as corporações representam o que existe de pior no capitalismo. Mostra como o sistema procura se beneficiar a todo custo dele para lucrar, não importando o que aconteça com aqueles que vivem à margem do seu punho de ferro. Durante os acontecimentos, vemos que, pelo biólogo ser da Maas, a Hosaka não se importa em matar aqueles ao redor do biólogo. Em uma cidade caótica do século XXI, os espiões industriais protagonistas do conto são meras peças de um imenso tabuleiro de xadrez.

E, nessa guerra corporativa, o amor pode se transformar de uma hora para outra. O amor de Sanjii pelo narrador consegue sobreviver a uma pilha de créditos? Ou a vantagens corporativas? Ou a um sem limite no fornecimento de drogas? Toda a ambientação feita por Gibson é claustrofóbica ao extremo. Mas, ao mesmo tempo, a prosa é completamente diferente de outras histórias. Apresenta um certo lirismo ao falar do amor do protagonista por Fox. E como as ações dela na metade da história o fazem se sentir entristecido. 



O desenrolar da história acontece de trás para a frente. O narrador se encontra cercado no Hotel New Rose esperando ser morto pelos assassinos da Hosaka. Durante essa situação ele descreve os acontecimentos que o levaram até ali. É um flashforward bem leve, apenas fazendo com que o narrador se torne o contador de sua história e apresente suas motivações. A escrita de Gibson não me incomodou nesse conto; reafirmo que o autor é um excelente contista porque faz com que sua escrita permaneça contida em um universo de poucas linhas ou páginas. 

Achei que Gibson contou um pouco de como ele se sente no mundo de sua época. O fato de o protagonista esperar matar ou se suicidar é a maneira como muitos revolucionários pensavam o mundo na década de 70. Mundo esse que era claustrofóbico e poderia acabar a qualquer minuto em um apertar de botão. E isso porque as grandes multinacionais não possuíam a amplitude que possuem no século XXI. Fiquei até curioso para ler Território Fantasma, um dos romances escritos por Gibson neste século. Hoje as corporações agem em todas as esferas de vida das pessoas. E a espionagem industrial continua correndo solta, vide a trilogia Blue Ant de Gibson que trata justamente desse assunto. 

Em 1998, Abel Ferrara adaptou Hotel New Rose para o cinema. Ele manteve quase toda a sequência de fatos do conto. Contou com Christopher Walken como Fox e o narrador ganhou o nome de X, sendo interpretado por Willem Dafoe. Abel Ferrara entendeu que Sanjii era uma japonesa e colocou Asia Argento interpretando a personagem. Já o renomado biólogo desejado pela Maas é interpretado curiosamente por Yoshitaka Amano (sim, gamemaníacos, é o mesmo de Final Fantasy). O filme teve pequena aceitação pelo grande público e foi considerado um filme B (como muitos filmes de Christopher Walken). Aqueles que desejarem ver o filme, ignorem completamente a capa e os pôsteres do filme: não é um filme pornô, é cyberpunk por incrível que apareça. Infelizmente Abel Ferrara aproveitou bastante da beleza de Asia Argento e fez algumas escolhas que prejudicaram muito a crítica do filme.


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