• Paulo Vinicius

Desafio #LeiaMulheres: "Mensageira da Sorte" de Fernanda Nia

Atualizado: 6 de Jun de 2019

E se houvesse uma agência responsável por balancear o nosso azar com sorte proporcional? Bem, parece uma loucura, mas Sam vai descobrir que isso é bem verdadeiro. Assolada por uma tragédia no passado, ela tenta retomar sua vida em Lagoinha. Mas, uma confusão durante um protesto vai colocá-la na mira de uma organização muito estranha.

Sinopse:


A SORTE É IMPREVISÍVEL Em pleno Carnaval carioca, durante uma confusão em um protesto contra a AlCorp, Sam passa a ser uma mensageira temporária no Departamento de Correção de Sorte, uma organização extranatural secreta incumbida de nivelar o azar na vida das pessoas. Para manter esse equilíbrio, os mensageiros devem distribuir presságios de sorte para alguns escolhidos. E o primeiro “cliente” de Sam é justamente o seu novo vizinho e colega de classe, Leandro. O garoto é um youtuber em ascensão e a ajuda dela, na forma de uma mensagem sobre nada menos que paçoca, o impulsiona a fazer um vídeo que o levará para o auge da fama. O que Sam não sabe é que Leandro também é engajado nos protestos contra a corrupção da AlCorp, sem se preocupar com os riscos que possa correr ou com as chances que tem dado ao azar, e a garota se vê obrigada a usar a sorte do Destino para protegê-lo. Perdida entre seus sentimentos por Leandro e a culpa pela morte de seu pai, Sam começa a compreender a linha tênue entre o livre-arbítrio e o acaso. Com uma boa dose de sarcasmo, ela embarca na dura jornada para desmascarar o que está deteriorando o sistema da Justiça, tanto a natural quanto a extranatural. Em meio a uma rede de intriga, corrupção e poder, a mensageira da sorte precisará fazer as pazes com o passado e lutar até o fim para que a balança do Destino se equilibre outra vez.




Você já parou para pensar se existe o que chamamos de Destino? Sério. Se tudo o que fazemos segue mais ou menos uma escolha de uma entidade superior que nos comanda. O conceito de sorte e azar se encaixa nessa filosofia. Nunca sabemos se algo que está nos acontecendo é devido a uma coisa ou outra, mas sempre relegamos determinadas situações a um ou outro. Fernanda Nia brinca um pouco com esses conceitos ao nos apresentar uma história adorável sobre uma menina que precisa lidar com os fantasmas que assolam o seu passado. 

Culpa e Ressentimento

Esta é mais uma história que vai lidar com o que fizemos no passado. Ou o que poderia ter acontecido se fizéssemos algo diferente. É impossível voltarmos atrás no que fazemos. Não temos uma pequena máquina do tempo que possa corrigir as nossas escolhas. Somos responsáveis por elas e precisamos lidar com suas consequências. A vida não é interrompida por causa de uma tragédia apenas para que possamos nos afundar no sentimento de culpa. A protagonista vai descobrir isso ao longo da narrativa. Ela se culpa por causa da morte de seu pai, vítima do que aconteceu durante uma série de manifestações contra uma corporação corrupta. Ela fez uma escolha que se provou ruim, e seu pai acabou pagando o preço. Mas, o que ela não consegue entender é que o que aconteceu não pode ser colocado na conta dela. Seu pai também fez uma escolha que foi o de segui-la até as manifestações. Ele sentiu que estava cumprindo seu dever como pai. 

O peso dessa culpa acaba transformando nossa protagonista em uma pessoa melancólica. Ela afasta amigos, possíveis paqueras. Todas as suas relações sociais são afetadas porque ela não consegue perdoar a si mesma. Somente quando ela vê outra pessoa passando pelo mesmo que ela, é que Sam vai se dar conta de o quanto esse comportamento machuca até mesmo as pessoas ao seu redor. Faltava para ela alguém com quem ela pudesse compartilhar seus medos, sua culpa e seus anseios. E ela não conseguia enxergar na mãe uma pessoa com quem ela pudesse fazer isso. 

O debate sobre destino também é lindo. Tem algumas frases que chegam a ressoar em nossos corações. Por exemplo (e não é um spoiler), tem um momento em que Sam questiona as escolhas do Departamento de Correção da Sorte. Se eles tem o poder de corrigir a sorte das pessoas, por que seu pai não foi agraciado com uma correção? Uma pergunta ingênua, porém muito poderosa. E a gente volta a um debate filosófico sobre o que é parte ou não da vida. Será que a morte do pai de Sam não serviu para fazê-la amadurecer como pessoa? A gente não é capaz de entender as engrenagens do Destino, ou sequer modificá-lo. Isso mesmo a autora brincando um pouco de fazer isso aqui. Mas, a verdade é que não sabemos os caminhos tortuosos percorridos por ele. Nem sempre vamos gostar do que acontece conosco ou com as pessoas que amamos. Mas, de certa forma, alguém está aprendendo alguma coisa com isso. Por mais fútil que seja um acontecimento. 

Uma distopia?

Na ambientação temos uma corporação chamada AlCorp que acabou tomando várias empresas no Rio de Janeiro. Através de seu dinheiro e influência, ela controla todos os aspectos da vida das pessoas. É uma ideia simples, colocando uma empresa como a antagonista etérea da narrativa. Usando temas comuns para os brasileiros como subornos e corrupção. Se a gente for parar para pensar, podemos entender como uma distopia, mas sem nenhum elemento de devastação ou apocalipse ou desastre natural. Temos pessoas revoltadas contra o jugo da empresa, desejando se ver livres de sua influência. Eu, sinceramente, não sei dizer se eu entenderia Mensageira da Sorte como uma distopia no sentido total do termo, mas chega bem perto disso. 

Vou dar um chute, mas acho que a Fernanda teve a ideia para Mensageira da Sorte na época das manifestações por todo o Brasil há alguns anos atrás. Achei a abordagem sobre as manifestações muito boa e demonstrou o quanto a situação no país pode piorar caso as pessoas não façam nada. Se pensarmos além das linhas, foi um pouco disso que a Fernanda tocou ao comentar sobre a participação das pessoas. Somente quando a Sam resolveu tomar o destino dela para si mesma é que ela foi capaz de criar uma mudança real. As pessoas acabam sendo influenciadas pelo Moleque Sensato, o canal de Youtube do par romântico da nossa protagonista, mas, no fundo, eles queriam apenas uma pessoa ao qual eles pudessem seguir. Faltava aquele espírito de sair nas ruas e lutar pelo que você quer. 


"Queria poder guardar momentos como esse em detalhes, mas é difícil ter consciência descritiva perfeita quando o corpo deixa de ser concreto para virar um conjunto de abstrações. Sensações de calores e calafrios, anseios que só querem avançar e tomar para si."


Uma escrita doce e gentil

O romance é lidado de uma maneira muito doce e gentil. Não chega a ser meloso como em outras histórias e a Fernanda consegue dosar isso muito bem na história. Gosto de o quanto um complementa o outro. Sam e Leandro precisam um do outro porque ambos tem questões do coração a serem resolvidas. Então, no fundo, o romance é parte da narrativa, algo necessário para que eles possam evoluir como pessoas. Tem vários momentos fofinhos espalhados que vamos juntando como pequenos pedaços de uma história a dois. É óbvio que os dois vão acabar juntos, mas o legal de uma narrativa como o da Fernanda é acompanhar toda a caminhada. 

A escrita da Fernanda é em terceira pessoa, mas muito próxima do nosso personagem-observador, a Sam. Acompanhamos a personagem em sua caminhada e a autora nos permite saber seus pensamentos. Tudo vai acontecendo de uma maneira bem fluida e a escrita começa um pouco estranha, mas aos poucos vamos nos acostumando com a rapidez da autora. É nitidamente um romance Young Adult, não só pela escolha do tema, como também pela forma de escrita e pelos dramas vividos pelos personagens. Só fiquei um pouco preocupado com as referências usadas pela autora. Alguns autores YA empregam bastante referências de forma a fazer com que a narrativa seja facilmente reconhecível pelo público-alvo e possa falar a sua língua. Só que isso de certa forma faz com que a narrativa fique datada já que as referências apontam para um período de tempo em particular. Daqui a alguns anos, determinadas referências empregadas pela autora vão ser irreconhecíveis para os novos leitores. Não são todas, mas um bom número é. 

Gostei demais do tratamento dado aos personagens. Eles realmente são muito importantes para a história, mesmo aqueles que são secundários. Um exemplo disso é o quanto Cecília e a mãe de Sam são importantes para o crescimento da protagonista. Não estão ali apenas para figurar, mas para ter parte ativa na jornada da personagem. Os personagens principais funcionam bem e seus dilemas são importantes. Além disso, o leitor acaba se importando com os personagens dada a força do que eles precisam resolver. Mesmo o antagonista tem suas motivações e objetivos bem delineados. Sabemos que ele é um vilão, mas é possível de certa forma compreender o que ele está fazendo e seus motivos torpes. 

A ambientação é muito boa e facilmente reconhecível mesmo para quem não é do Rio de Janeiro. Nem é tão necessário assim visualizar todos os lugares até porque as descrições dela nos ajudam a montar mentalmente o lugar. A ideia do DCS me lembrou na hora o filme Agentes do Destino. Claro que o propósito das duas narrativas é diferente, mas achei que a autora soube transportar bem a ideia para o que ela pretendia fazer com os personagens e dar seu próprio toque. Gostei bastante de Mensageira da Sorte e foi uma narrativa que tanto me divertiu como me emocionou na dose certa. 


Ficha Técnica:

Nome: Mensageira da Sorte Autora: Fernanda Nia Editora: Plataforma 21 Gênero: Fantasia Número de Páginas: 424 Ano de Publicação: 2018

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