• Amanda Barreiro

Desafio #LeiaMulheres: "Frankenstein" de Mary Shelley

Um dos maiores marcos da literatura gótica, Frankenstein continua a ser revisitado e reinventado a cada leitura. A história do criador versus criatura nunca saiu do imaginário humano e, de tão versátil e atual, consegue assumir diversas interpretações a cada nova leitura.

Sinopse:


O arrepiante romance gótico de Mary Shelley foi concebido quando a autora tinha apenas dezoito anos. A história, que se tornaria a mais célebre ficção de horror, continua sendo uma incursão devastadora pelos limites da invenção humana.

Obcecado pela criação da vida, Victor Frankenstein saqueia cemitérios em busca de materiais para construir um novo ser. Mas, quando ganha vida, a estranha criatura é rejeitada por Frankenstein e lança-se com afinco à destruição de seu criador.

Introdução e Notas por Maurice Hindle. Este volume inclui todas as revisões feitas por Mary Shelley, uma introdução da autora e textos críticos de Percy B. Shelley e Ruy Castro. E ainda um apêndice com textos de Lorde Byron e do dr. John Polidori.




Ninguém poderia abrir melhor o nosso projeto Leia Mulheres do que Mary Shelley. Autora de Frankenstein, ela desafiou paradigmas de sua época e posicionou-se firmemente à crítica literária cruel e indignada - especialmente devido ao fato de um romance tão brutal ser obra de uma moça de dezoito anos -, firmando-se como uma pioneira no gênero e uma das autoras mais influentes da história.

A história do cientista Victor Frankenstein e sua criatura composta de retalhos humanos costurados e reanimados através da energia galvânica (muito estudada à época de Mary Shelley, quando os estudiosos debatiam seus poderes “milagrosos”) é de amplo conhecimento público. Dividido em três volumes, originalmente, o romance narra os acontecimentos envolvendo os estudos de Frankenstein, sua criação hedionda e as consequências de seus atos. Tudo se concentra em torno do cientista e seu ponto de vista à descrição dos eventos. Linear, Frankenstein possui uma lógica bastante simples, mas as ideias se enredam de tal maneira, utilizando-se de ferramentas narrativas tão sofisticadas, que justificam seu status de excelência literária.

​“Para examinar as causas da vida, devemos antes recorrer à morte.”

A escrita de Mary Shelley é um dos meus pontos favoritos. É realmente impressionante observar a estrutura narrativa, iniciando-se de forma epistolar e fluindo com perfeição ao relato de Victor Frankenstein. A divisão em três volumes se deve ao formato de publicação da época, mas serviu muito bem aos propósitos de Shelley. A autora é sensível em suas variadas críticas à humanidade, mas utiliza uma linguagem direta e objetiva, muito distante dos floreios apaixonados do romantismo clássico. Isso garante agilidade e fluidez à leitura e nos permite focar no que realmente importa na trama.

A todo o momento observamos o jovem cientista Frankenstein debater-se com suas questões morais, além do todo o medo e culpa sentido por ele após ter lançado tamanho mal ao mundo – sua terrível Criatura. É um personagem denso, habilmente construído e aprofundado. Victor, desde o início, nos dá pistas sobre os problemas que tanto afligiam a autora: as atitudes inconsequentes do ser humano, a impulsividade, a curiosidade desmedida e os limites da ciência. Vemos todas essas temáticas entrelaçarem-se na personalidade de Victor, em suas atitudes egocêntricas e imaturas.

À Criatura, a quem popularmente ficou atribuído o nome de Frankenstein, seu criador, Mary Shelley reserva boa parte da narrativa. Sentimos cada diálogo entre criador e criatura, momentos esses onde percebemos o quanto a autora se doa à história. Os tormentos emocionais submetidos à Criatura e o abandono sentido em seu íntimo enriquecem o personagem e permitem uma discussão moral persistindo até o final da trama, em uma constante dualidade de bem e mal. Afinal, o homem nasce bom e a sociedade o corrompe, ou a maldade está em sua essência? Victor Frankenstein e sua criatura são exemplos de personagens que, de tão vivos e complexos tornaram-se imortais.

​“Estás disposto a me matar. Como te atreves a brincar assim com a vida?”

Quando reunimos todos os elementos, percebemos a grandiosidade da autora. Mary Shelley ecoa personalidades e emoções com as quais leitores de qualquer época conseguem se identificar. Suas críticas voltadas à humanidade persistem: o homem desafiando a natureza, a curiosidade vencendo a razão, a ganância sobrepondo-se à ética. E mais além, transportando a história para os dias atuais, percebemos como o comportamento preconceituoso, no qual a imagem prevalece ao caráter, continua a se repetir.

Preciso comentar também sobre a edição da Penguin (Companhia das Letras), que está impecável. Além da tradução e revisão, que são excelentes, o livro conta também com vários anexos, além de um ensaio riquíssimo lançando luz à várias questões presentes na história, conectando elementos da narrativa à biografia de Mary Shelley e nos permitindo maior compreensão do espírito da autora e da necessidade compelindo-a a criar Frankenstein. A Penguin trouxa a edição final de Frankenstein, a terceira publicada enquanto Mary era viva e com revisões feitas pela autora, mas um dos anexos traz um comparativo entre a primeira edição e a revisada. Além disso, encontramos também dois contos, um do Dr. John Pollidori e outro de Lorde Byron, ao final do livro. Em suma, é uma edição completíssima e de alta qualidade.

Frankenstein, ou o Prometeu Moderno, supera expectativas. Quem imagina tratar-se de uma simples história de terror não imagina a profundidade de suas discussões. Estas nos atingir ao fazer-nos encarar nossa própria humanidade como o monstro que habita o mundo.


Ficha Técnica:

Nome: Frankenstein ou o Prometeu Moderno Autora: Mary Shelley Editora: Penguin Companhia das Letras Gênero: Ficção Científica Tradutor: Christian Schwartz Número de Páginas: 424 Ano de Publicação: 2015 (no Brasil)

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