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  • Foto do escritorPaulo Vinicius

Desafio #LeiaMulheres : "As Coisas que Perdemos no Fogo" de Mariana Enriquez

Em uma coletânea que possui elementos de terror e realismo fantástico, Mariana nos apresenta a temas como o sobrenatural, a violência e o medo de cada dia. Uma coletânea que merece a sua atenção.

Sinopse:


Doze histórias sombrias e amedrontadoras que mostram o horror oculto no dia a dia.


Macabro, perturbador e emocionante, As coisas que perdemos no fogo reúne contos que usam o medo e o terror para explorar várias dimensões da vida contemporânea. Em um primeiro olhar, as doze narrativas do livro parecem surreais. No entanto, depois de poucas frases, elas se mostram estranhamente familiares: é o cotidiano transformado em pesadelo.


Personagens e lugares aparentemente comuns ocultam um universo insólito: um menino assassino, uma garota que arranca as unhas e os cílios na sala de aula, adolescentes que fazem pactos sombrios, amigos que parecem destinados à morte, mulheres que ateiam fogo em si mesmas como forma de protesto, casas abandonadas, magia negra, mitos e superstições.


Uma das escritoras mais corajosas e surpreendentes do século XXI, Mariana Enriquez dá voz à geração nascida durante a ditadura militar na Argentina. Neste livro, ela cria um universo povoado por pessoas comuns e seres socialmente invisíveis, cujas existências sucumbem ao peso da culpa, da compaixão, da crueldade e da simples convivência. O resultado é uma obra ao mesmo tempo estranha e familiar, que questiona de forma penetrante e indelével o mundo em que vivemos.




Uma forma diferente de fazer terror


As Coisas que Perdemos no Fogo é uma coletânea de doze histórias que flertam com o terror à maneira sul-americana. Misturam situações do cotidiano de uma forma a causar apreensão ao leitor. Se você está esperando aquela história típica de fantasmas ou uma narrativa a la Stephen King, não é isso o que você vai encontrar aqui. Mariana Enriquez explora a nossa maneira particular de ver o mundo e ao nos colocar em situações corriqueiras surpreende e aterroriza ao nos mostrar que esse mundo além do nosso pode estar mais próximo do que imaginamos. As histórias variam em intensidade e medo. No fim, a gente acaba se acostumando com a maneira da autora de contar histórias.


O conto que dá título à narrativa é o último da coletânea. Ele explora as nossas definições de beleza e desejo. Começam a acontecer por toda parte ataques a mulheres belas. Homens com sede de violência colocam fogo nestas mulheres. Mulheres no metrô, mulheres andando pela rua, mulheres pelo trabalho. E isso acaba deflagrando um culto feminino às mulheres queimadas. Elas passam a valorizar a si mesmas e essa ideia se torna algo semelhante a uma religião. Mulheres passam a colocar fogo em si mesmas e aquelas que saem ilesas se tornam pessoas abençoadas. Fogueiras em praça pública se tornam a norma. Isso choca a população masculina no geral, mas quando a reivindicação se torna a norma, o mundo se transforma completamente. A noção de beleza muda para algo perigoso.

"[...] É que eu falo com as meninas. Conto-lhes que sempre queimaram a nós, mulheres, que nos queimaram durante quatro séculos! Não conseguem acreditar, não sabiam nada sobre os julgamentos de bruxas, percebem? A educação neste país foi para o cacete. Mas têm interessem, pobrezinhas, querem saber."

A autora coloca de forma mórbida a questão da libertação feminina. É uma ode ao empoderamento, à mulher recuperando sua capacidade de estabelecer sua independência em um mundo patriarcal. O próprio título representa aonde ela quer chegar. O que as mulheres perdem no fogo são a sua prisão, a sua submissão. Claro que a forma como isso acontece é bem distópica e me faz lembrar um pouco do ato de queimar livros que Bradbury apresenta em Fahrenheit 451. E a proposta é oposta: enquanto em Fahrenheit a sociedade abdica da sua liberdade, se submetendo, em As Coisas que Perdemos no Fogo, a mulher a retoma de uma forma violenta, deixando a submissão de lado.

Em Os Anos Intoxicados somos apresentados a um grupo de amigos que vive a toda nos últimos anos da década de 1980. Todos os dias a vida era uma festa regada a drogas, a sexo e a muita loucura. O furgão do namorado de Andrea servia para esconder o que elas estavam fazendo e as levar até onde elas gostariam de ir. Mas, os anos vão passando e as pessoas vão mudando até restarem apenas as duas amigas que são as protagonistas. Elas descobrem um jeito de se drogar de uma forma que parece que o tempo parou completamente para elas (para quem está vendo Euphoria, série da HBO, é a sensação que Rue busca ao longo da série). Só que para alcançar esta sensação elas vão precisando realizar coisas cada vez mais ousadas. Aquele instante onde tudo para e elas deixam de sentir. Isso as conduz a um caminho sem volta, quando elas perdem todo o peso do corpo para se colocar mais próximas das portas da morte. O momento final é assustador.


É uma bela analogia aos anos dourados das drogas e o caminho apresentado por elas. A gente percebe que a protagonista (narrativa feita em primeira pessoa) é alguém que não se conforma com o status quo. Uma vida normal não basta a ela. Seu instinto diz que ela precisa procurar por algo mais. As emoções da vida, as lutas, os obstáculos não interessam a ela. E sua amiga é sua cúmplice nessa jornada. O terror vem da absoluta quebra de limites, quando nem mesmo a vida alheia importa se isto se colocar na frente de sua busca pelo nirvana supremo.


Mas, se vocês buscam algo realmente assustador, que tal Nada de Carne entre Nós? Alguém tão obcecada com um esqueleto encontrado em uma rua, que ela deseja se ligar completamente a esta pessoa que ela não sabe quem é, mas possui uma história forjada por ela. A ligação entre ambas vai se tornando sombria e a protagonista deseja praticamente se fundir a esse esqueleto. Sua obsessão passa a ser emagrecer tanto que não haverá barreiras entre ossos e carne. Tudo a seu redor se torna vazio e inócuo. Mesmo seu namorado não tem mais importância: apenas Vera. A maneira como a narrativa progride de forma veloz é assombrosa e em pouco tempo vemos o quanto a sanidade se perdeu em algum momento.


Não quero comentar outras histórias porque espero que com essas três eu tenha conseguido despertar a curiosidade de vocês em relação à escrita da autora. Mariana abraça mais o estranho do que o terror. E chega até a brincar com pequenas histórias folclóricas ou lendas urbanas para ilustrar suas narrativas (como Pablito Clavó, uma espécie de lenda argentina). Eu gostei da proposta da autora e já vou buscar outros materiais que ela produziu.

Ficha Técnica:


Nome: As Coisas que Perdemos no Fogo

Autora: Mariana Enriquez

Editora: Intrínseca

Gênero: Terror

Tradutor: José Geraldo Couto

Número de Páginas: 192

Ano de Publicação: 2017


Avaliação:


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