• Paulo Vinicius

Astro Boy

Toby é um menino inteligente que parece que vai suceder seu pai, dr. Tenma em suas pesquisas. Os experimentos com um novo tipo de energia parecem ter dado errado, pois fazem os robôs terem atitudes malignas. Um dia, um teste sai errado, e Toby é atingido por um laser mortal. O dr. Tenma coloca as memórias de Toby em um corpo robótico.

Sinopse:


Metro City é uma cidade avançada que se situa no céu. Ela é o lar do Dr. Tenma, um brilhante cientista que usa seus dons para construir um robô que deverá substituir o filho que perdeu. Ele o programa com todas as qualidades positivas dos seres humanos. Astro Boy também é dotado de poderes muito além da capacidade humana. Quando ele não consegue satisfazer seu criador, é expulso da cidade e, descendo a terra, tenta compreender sua existência como um robô não humano.




Um menino em busca de amor


Astro Boy é uma das obras que tornaram o nome de Osamu Tezuka famoso mundialmente. Não é a única, mas é uma das mais conhecidas. Aliado a um traço maravilhoso, ele foi capaz de criar uma história sensível e voltada para todas as idades. A história de um menino que acaba sendo morto acidentalmente e seu pai coloca suas lembranças em um corpo robótico super forte. A partir daí fica a dúvida de se o Astro revivido ainda é o mesmo menino ou se trata de outra pessoa. É uma história que já teve diversas releituras por muitos autores. O diretor David Bowers tentou fazer a sua, modernizando os cenários e as histórias, adaptando para um novo tipo de audiência.


Toby é o nosso protagonista e desde cedo já percebemos o quanto ele incorpora o espírito do bom menino. Sempre ajudando os seus colegas, muito inteligente e aplicado. É aquele personagem que se adapta muito bem à nossa audiência apresentando uma imagem bacana no qual se espelhar. Quando o dr. Tenma o revive e acaba o rejeitando, Toby foge desesperado para uma espécie de lixão. Lá ele conhece outras crianças que vivem dos rejeitos deixados pela cidade de Toby (esta fica no alto e tudo o que ele não quer mais é atirado para baixo). Ao conhecer um mundo maior do que os lugares onde ele ia, Toby conhece outras pessoas com problemas diferentes dos seus. E algo que ele poderia ajudar. É com essa compreensão e refletindo sobre o seu papel no mundo que ele retorna para casa.


Metro City é a cidade do futuro. Depois de muitos problemas ambientais, os cidadãos alçaram sua cidade aos ares e se tornaram uma metrópole autossustentável. A popularização dos robôs deu às pessoas mais liberdade para se dedicar a outras atividades. Mais tempo para cuidar dos filhos, para se engajar em projetos, para edificar suas próprias vidas. Ao mesmo tempo tornou o ser humano preguiçoso. Além dos robôs serem tratados quase como escravos. É um trabalhador que pode ser comprado e substituído com facilidade. Não há uma consciência de que estes robôs podem ou não ter uma inteligência sensível capaz de entender o que está acontecendo com eles.

Muitos Temas, Pouco Foco


Além da sociedade voltada para os robôs, existe também o Ferro-Velho, a Terra que foi deixada para trás quando Metro City ascendeu. Todo o lixo de Metro City (inclusive robôs indesejados) são atirados do alto da cidade. Este lixão se tornou lar de pessoas abandonadas pela sociedade e robôs que ainda mantiveram parte de sua consciência. Toda esta temática dos robôs, da cidade elevada e do lixão vai te fazer lembrar no ato de Battle Angel Alita, escrito por Yukito Kishiro. Sim, a ideia é semelhante apesar de Kishiro ter feito uma obra mais madura e adulta. Quando Toby desce para o Ferro-Velho ele compreende as diferenças sociais claras entre os dois lugares e a injustiça presente nesta relação. Quando ele retorna a Metro City não se trata apenas de rever seu pai, mas de acertar os ponteiros da injustiça.


O que me incomodou na animação é o exagero de temáticas e a falta de foco e coerência. Uma das marcas da escrita de Tezuka é a sua capacidade de compressão ao utilizar ao máximo os quadros em cada páginas. Ele é capaz de tratar de assuntos diferentes com arte e roteiro competentes. Bowers não conseguiu fazer a mesma coisa. Todos os temas foram mal trabalhados e resolvidos e ficaram muito buracos mal explicados. Por exemplo, um dos principais temas é o da aceitação ou recusa do dr. Tenma em relação ao Toby. Quando Tenma percebe que Astro não é o seu Toby, mas uma máquina, ele expulsa o menino de casa. Bowers coloca Astro em perigo para que o doutor o aceite novamente. Mas, não ficou claro se Tenma está aceitando a sua imagem do velho Toby ou se ele está aceitando Astro por ser quem ele é.


Os personagens coadjuvantes acabam servindo mais como alívio cômico do que ter alguma importância para a narrativa como um todo. Lá no Ferro-Velho, Astro conhece Grace e seu grupo de meninos perdidos. Eles moram junto com Zog, um estranho inventor. Mais tarde na narrativa descobrimos que Zog tem uma espécie de coliseu onde robôs lutam entre si por apostas. Novamente esta é uma situação mal resolvida e que sequer serve para desenvolver o caráter de Astro. Eles simplesmente pegam o robô gigante e saem dali. O destino das crianças e do próprio inventor foi deixado de lado para se focar no confronto entre Astro e Stone.

A animação é mediana e há o emprego do 3D digital. Isso acaba por gerar personagens que não são tão expressivos. Por outro lado a construção do rosto e do estilo de cada personagem fornece a eles características únicas que os individualiza. Isso seria ótimo se o roteiro ajudasse a focar a história em cada um deles. Algo que não acontece. O design dos robôs é legal e fornece individualidade também. Gente, tem uma geladeira falante. Não tem nada mais divertido do que isso. Os cenários também são muito coloridos e amplos. Até mais ou menos o terço final da história temos muitas cores que acabam fazendo o espectador observar para toda a parte. Até o Ferro-Velho é bem trabalhado. O legal de Metro City é que parece que os designers da cidade imaginaram algo nos moldes da cidade dos Jetsons, desenho da Hanna-Barbera.


A ação do desenho é bem rápida e dinâmica. Nesse ponto, a direção acertou bem. As cenas são bem trabalhadas e fluidas. Tem alguns bons momentos como a perseguição da polícia ao Toby, a cena no coliseu e a batalha contra o robô gigante no final. Muitas coisas acontecem ao mesmo tempo, o que certamente vai chamar a atenção do público infantil. Há poucos momentos de pegar fôlego entre esses momentos mais dinâmicos. O roteiro também é bem divididinho, com o primeiro ato sendo a apresentação e transformação do personagem, o segundo ato é quando ele cai no Ferro-Velho e o terceiro é o retorno. A direção seguiu bem a linguagem cinematográfica e entregou algo competente. Eu não achei a trilha sonora memorável. Achei, no máximo, okay. Os efeitos sonoros sim estão muito legais.


Astro Boy precisa ser analisado como um material por si só. Porque se compararmos ao material original de Osamu Tezuka chega a ser até covardia. Tezuka não é o deus dos mangás à toa. Qualquer coisa do Tezuka eu vou recomendar. Entretanto, esse é um daqueles materiais que ao assistir ao filme, eu sugiro buscar o original para ver como o personagem é trabalhado pelo autor. Foi uma boa tentativa, mas o resultado fica bem aquém de sua origem.

Ficha Técnica:


Nome: Astro Boy

Diretor: David Bowers

Produtora: Maryann Garger

Roteiristas: Timothy Harris e David Bowers

Estúdio: IO Films

País de Origem: EUA e Hong Kong

Tempo de Duração: 94 min

Ano de Lançamento: 2009