• Paulo Vinicius

Anastasia

Uma tragédia acontece com a família Romanov. A maldição deixada pelo místico Rasputin vai colocar todo o povo da Rússia contra a família real. Alguns anos mais tarde, uma jovem menina chamada Anya sai de um orfanato para ir em direção à cidade e novas oportunidades. Dmitri, um trambiqueiro, está em busca de alguém que imite a filha desaparecida dos Romanov, Anastasia, e possa lhe render um bom dinheiro.

Sinopse:


Depois do feitiço do maldoso Rasputin, a jovem Anastasia desaparece do palácio. Anos depois, sua avó, a grã-duquesa imperial que vive em Paris, oferece uma recompensa para quem trouxer sua neta de volta. De olho no dinheiro, dois russos fazem testes para encontrar uma menina parecida com a princesa, e encontram Anya, uma jovem órfã, que tem tudo para se fazer passar por Anastasia.




A tragédia da família Romanov


Um dos maiores mistérios ainda não resolvidos da nossa História é o destino da família Romanov. Tendo sido afetados pela Revolução Russa, depois de uma série de trapalhadas do governo czarista, a família acabou sendo morta pelos revolucionários. Mas, o paradeiro de Anastasia Romanova nunca ficou muito claro. Até hoje existem dúvidas se ela teria morrido ou não. A maioria dos historiadores imagina que ela, de fato, teria perecido junto com a família. Mas, aquela pequena margem de dúvida existe e acaba criando histórias como esta imaginada pela Disney. Todo o padrão conhecido do estúdio está presente: princesas, contos de fadas, músicas, magia. Mas, no fundo é uma história bacana sobre acreditar em si mesmo e sonhar.


O filme começa mostrando um pouco de como era a rotina da pequena Anastasia. Bailes, uma vida de princesa, um pai amoroso. E somos colocados em um imenso jantar reunindo os nobres de Moscou. A jovem se esconde atrás da mãe, mas esta lhe fala de que ela precisa aprender a brincar e dançar. Um menino da cozinha apenas a observa de longe, encantado com a sua beleza. É durante a festa que aparece o místico Rasputin. Este reclama de ter sido abandonado pelo czar após muitos anos de serviço. Ele deseja que seu valor seja reconhecido. Mas, o czar, sabendo da má fama do místico, o expulsa de sua festa e ele o amaldiçoa. Na animação, a revolta popular contra o czar é fruto da maldição de Rasputin que teria enfurecido o povo através de seus poderes (ai, ai, a inocência...). Todo o palácio é atacado por uma população em polvorosa que obriga a família a fugir e só vemos a avó e a pequena Anastasia em perigo. A avó sai para pegar um trem e a jovem consegue fugir graças a uma passagem secreta que o menino da cozinha conhecia. Anastasia sai correndo atrás de sua avó, mas não consegue pegar o trem e bate a cabeça no chão.


Daí temos um avanço de vários anos à frente. Uma jovem chamada Anya sai de um orfanato em busca de uma vida melhor em outra cidade. A senhora do abrigo a indicou a um outro orfanato para que Anya possa cuidar de outro grupo de crianças. Fica em uma cidade no interior da Rússia. Mas, Anya prefere seguir para a cidade e ver o que a espera. Ela acaba se envolvendo com Dmitri, um jovem trambiqueiro que quer encontrar alguém parecido com Anastasia Romanova. Ele descobriu que a avó de Anastasia está dando uma enorme recompensa em dinheiro para quem a encontrar. Os caminhos de Anya e Dmitri se cruzam, e o trambiqueiro se impressiona em como Anya tem várias semelhanças com a jovem princesa. Então é hora de pôr os seus planos em ação.


Gente... não vou nem me desculpar por esse spoiler. A história é tão previsível que a gente sabe aonde ela vai dar né? Até acho que o roteirista poderia ter brincado com as possibilidades e ter dado uma rasteira no espectador. Até porque a coincidência não precisava existir e poderia apenas ser uma garota normal parecida. Daria até uma mensagem mais positiva do que simplesmente enfiar uma personagem desaparecida e sem memória. A mensagem poderia ser a de que uma princesa não precisa ser uma nobre para ser uma pessoa virtuosa. Ela poderia apenas ter um bom coração. Fico até pensando em uma verdadeira Anastasia vilã ao lado de Rasputin para destruir de vez a família Romanov. Mas, optaram pelo roteiro fácil. Legal, nada conta, até porque se trata de uma animação voltada para o público infantil. Só que por se tratar de uma história original, o estúdio poderia ter bagunçado um pouco as coisas e ter criado uma narrativa mais inteligente.

Uma jovem em busca de sua família


Adoro os personagens de Anastasia. Eles são vivazes, cativantes e inspiradores. O mais interessante de tudo é o quanto a Disney nos apresenta uma protagonista empoderada. Isso em uma época que não era tão comum assim ver personagens femininas fortes, principalmente em animações da Disney. Anya sabe o que quer e o que não quer. Apesar de a narrativa acabar guiando a personagem em uma direção para poder levar a história adiante, nós percebemos que ela não é exatamente uma heroína. É apenas uma pessoa solitária em busca do verdadeiro significado de ter uma família. E ela acaba desenvolvendo isso ao lado de Dmitri e de Vladimir. Em diversos momentos, ela reluta por uma decisão. Em outro momento ela demonstra abertamente o que deseja, causando um racha na relação dela com Dmitri. Gosto de pensar em Anya como um bom modelo de personagem feminina.


Já Dmitri é aquele estereótipo de anti-herói bonzinho. Ele é um trambiqueiro, mas no fundo se importa com as pessoas. E Dmitri me incomoda um pouco porque o filme não se importa muito em mostrar o que aconteceu a ele depois que o palácio foi atacado. Ele era o menino da cozinha e agora é um trambiquei. Ponto. Por que a escolha em ser trambiqueiro? A vida dele foi tão ruim assim que ele foi obrigado a embarcar nesse mundo? Faltou muita profundidade ao personagem o que poderia ser resolvido com 3 minutos de flashback. Nem precisaria de muita coisa. Só mostrar uma vida de fome, frio e dificuldades. E como ele encontrou Vladimir? Já que este é um nobre caído, como foi que eles ficaram juntos? E qual é o motivo de Vladimir apoiar os golpes de Dmitri? Essa relação não ficou clara e deixa um belo de um buraco na narrativa.


O vilão é um típico vilão da Disney: malvado, falastrão e trapalhão. Eu gosto disso. Para crianças não é necessário apresentar um personagem cinzento e com nuances. A boa e velha batalha entre o bem e o mal é mais do que o suficiente para conduzir a narrativa. E eu até acho Rasputin engraçado com os seus trejeitos e formas de falar (parabéns para a dublagem que está maravilhosa). Ele é aquele bom e velho personagem que apenas quer se vingar porque sim. Não existe redenção para ele. Sua vida é voltada para destruir toda a família Romanova e ele não vai parar enquanto isso não acontecer. Somente a sua destruição pode trazer paz à família. É o antagonista perfeito e isso cria uma clareza nos objetivos dos núcleos narrativos. Para crianças, é importante esse maniqueísmo absoluto. Entender que o cara que faz coisas erradas, que trapaça, maltrata as pessoas, vai se dar mal no fim. Mesmo Dmitri que é do lado dos mocinhos, fez coisas erradas e acaba decepcionando Anya em um momento da narrativa. E depois ele precisa se redimir para conseguir o perdão. Claro, simples e eficiente.

Músicas que embalam, encantam e enjoam


Okay, filmes da Disney tem muitos números musicais. Já entendi essa parte. Só que Anastasia tem números musicais demais. Pelas minhas contas são 7 ou 8 espalhados por um filme de 94 minutos. E números musicais que levam de 3 a 4 minutos. É mais de um terço do filme só com isso. Planeta do Tesouro que eu assisti recentemente e só tem 4 anos de diferença para Anastasia tem 3 musicais. E são divertidos e emocionantes. Ou seja, não é a quantidade de números musicais que vai tornar uma animação mais sensível ao espectador. Mas, a motivação por trás de cada número. Alguns destes números são importantes como a festa no palácio, a música do vilão e a redenção de Dmitri. Outros são bizarros e em momentos estranhos como a dancinha em cima da ponte, ou a chegada de Anya no teatro abandonado. Não faz sentido!!! Cansa. Okay, a Disney quer vender a trilha sonora do filme... então por que não colocar clipes no final do filme, quando estão passando os créditos? Podem ser clipes com melhores momentos do filme, ou até situações que acontecem depois do final (eu adoraria uma cena bonitinha da Anya e do Dmitri depois de a carta ter sido entregue).


A trilha sonora é muito boa. Digo as músicas de fundo (sem serem as cantadas). O diretor de som conseguiu entender bem como é o estilo musical russo e inseriu vários instrumentos típicos. E ele é eficiente em passar sentimentos para cada situação. Seja um momento de festa onde a música é grandiosa e demonstra a suntuosidade daquilo que está acontecendo; seja uma música mais melancólica apresentando a solidão no coração de Anya; ou uma música mais divertida, com o braço ou a cabeça de Rasputin desgrudando do corpo. Fazia alguns anos que eu não escutava uma trilha sonora tão boa e isso me faz pensar o quanto as animações da Disney conseguem entregar isso de uma maneira única.


A animação é muito bonita. Falar de animação bonita e Disney é quase sinônimo. E isso me faz lembrar também o quanto eu amo arte pintada. Nada contra animação em 3D, mas isso é arte. A animação toda é muito colorida, sem ser exagerada. Os cenários são escuros quando precisam ser ou com cores mais pastéis em outros momentos. Algumas cenas se destacam: a festa logo no começo, o submundo azulado/preto de Rasputin (com vários, vários detalhes no fundo), a cena na ponte (tirando a música, a cena é linda) e o teatro em Paris. Aliás, a tomada de cima da Cidade das Luzes realmente faz jus ao apelido dela. Belo. A animação é fluida em determinados momentos, como a perseguição de carruagem, a ação no trem, o navio. É uma arte em extinção, mas que consegue encantar aqueles que a admiram.


Anastasia é uma excelente animação, apesar de a parte musical ficar um pouco cansativa às vezes. Ela representa os momentos finais das animações em 2D da Disney, mas entrega um material de excelente qualidade. Contudo, os roteiristas perderam a oportunidade de criar algo memorável, sem que a inocência da história fosse abalada.





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