• Paulo Vinicius

Resenha: "Uma Coisa Absolutamente Fantástica" de Hank Green

Quando retornava à noite para casa, April May se depara com um robô gigante parado no meio da rua. Ela grava um vídeo e o joga no Youtube junto de seu amigo Andy; Agora, ela precisa lidar com a fama súbita ao mesmo tempo em que passa a se tornar a representante destes robôs. 

Sinopse:


Enquanto volta para casa depois de trabalhar até de madrugada, a jovem April May esbarra numa escultura gigante. Impressionada com sua aparência ― uma espécie de robô de três metros de altura ―, April chama seu amigo Andy para gravar um vídeo sobre a aparição e postar no YouTube. No dia seguinte, a garota acorda e descobre que há esculturas idênticas em dezenas de cidades pelo mundo, sem que ninguém saiba como foram parar lá. Por ter sido o primeiro registro, o vídeo de April viraliza e ela se vê sob os holofotes da mídia mundial.

Agora, April terá de lidar com os impactos da fama em seus relacionamentos, em sua segurança, e em sua própria identidade. Tudo isso enquanto tenta descobrir o que são essas esculturas ― e o que querem de nós.

Divertida e envolvente, essa história trata de temas muito relevantes nos dias atuais: como lidamos com o medo e o desconhecido e, principalmente, como as redes sociais estão mudando conceitos como fama, retórica e radicalização.




A internet hoje é um dos maiores repositórios de informações do mundo. Isso serve tanto para o bem quanto para o mal. Nos últimos anos vimos o quanto as pessoas passaram a se polarizar em torno de opiniões monolíticas sobre determinados assuntos. É preto ou branco, azul ou vermelho, sim ou não; e ai daquele que pense o contrário. Pessoas com opiniões fortes passaram a dominar o espaço virtual e as redes sociais hoje despertam aquilo que há de pior nas pessoas. É dentro dessa temática que Hank Green baseia o seu livro e nos entrega uma narrativa que mesmo tendo um clima bem light, toca em temas pesados e consegue surpreender pela sua atualidade. 

Apesar da escrita do autor ser bem precisa e direta, eu não gostei muito do formato. Pode ser implicância da minha parte, mas em muitos momentos o autor emprega um estilo que parece saído de um blog. Entendo que isso faz parte até da opção de estilo narrativo (em primeira pessoa), mas isso dá uma bela de uma quebra de ritmo em determinados momentos. É possível ter um texto dinâmico sem abusar da mudança na formatação do texto. Uma vez ou outra eu até entendo, até porque se trata de uma literatura Young Adult, mas ele usa desse recurso à exaustão. Às vezes mais de uma vez no mesmo capítulo. 

"O poder só desempenha seu papel empoderador quando é percebido como um diferencial em relação aos demais e, sobretudo, em relação ao que se tinha antes. E não vou fingir que essa estranha confiança recém-adquirida combinada com essa estranha nova plataforma não era intoxicantes e viciante. Dizem que o poder corrompe, mas nunca mencionam como isso acontece rápido."

A narrativa ser em primeira pessoa torna tudo bem parcial e interessante. Aqui é preciso destacar que April May não é a sua heroína típica. Em muitos momentos ela é falha, toma atitudes reprováveis e chega a ser uma verdadeira canalha em algumas situações. Essas características dão uma verossimilhança incrível a ela: April May poderia ser a sua amiga descolada ou até aquela crush que não te dá bola. Seus defeitos dão uma tridimensionalidade e uma complexidade únicas a ela. Outra coisa que é preciso destacar é que ela é uma narradora totalmente parcial e não confiável. Ela expõe a sua opinião sobre o que está acontecendo. Em alguns momentos ela demonstra um certo arrependimento sobre atitudes tomadas. Mas, não se deixem enganar: ela está vendo as coisas pelo seu próprio ponto de vista, goste você ou não. 

São tantos os temas deste livro que vocês não podem acreditar. Vou começar pelo grande elefante na sala: redes sociais. Em um determinado momento na história aparece um personagem chamado Peter Petrawicki que funciona como um contraponto a ela. Enquanto April defende o entendimento do que os Carls (como os robôs gigantes passam a ser chamados) estão fazendo na Terra, Peter defende que o governo americano destrua os Carls antes que eles tomem alguma atitude. Ou seja, estamos diante de uma visão compassiva versus uma visão belicista. O que começa como algo responsável por uma possível união da humanidade em favor de um mundo melhor em pouco tempo se torna um duelo entre visões díspares. April acaba sendo levada pela disputa e acontecimentos trágicos se sucedem um após o outro. Vai muito na vertente de como encaramos as coisas na internet. Vivemos uma era de maniqueísmo barato onde as pessoas se deixam influenciar por frases de efeitos tolas que não levam a lugar algum. Homens inteligentes tem se aproveitado da fragilidade humana diante de situações extremas para propagar o ódio e o medo. Hank Green trabalha esse tema de uma forma espetacular apresentando a mudança na filosofia da protagonista diante dos ataques de seu "rival". 

“Você nunca pode parar de criar conteúdo, não só porque a sensação de que as pessoas te ouvem é boa, mas também porque você precisa manter a atenção delas presa. E eu tinha me acostumado a medir minha vida em curtidas.”

Um segundo tema muito trabalhado é o narcisismo da April May. Repito: ela não é uma personagem legal. O egoísmo e o narcisismo dela a colocam em situações que não precisariam acontecer da forma como ocorrem. Em muitos momentos, a protagonista toma a pior atitude possível, mas que a coloca no topo das menções na internet. O fato de ela produzir uma persona para si mesma é uma prova total desse comportamento dela. Ela mesma arrebenta com as relações sociais dela pouco a pouco. Tem pelo menos umas cinco situações em que ela prejudica o próximo em prol de favorecer a si mesma. Ao mesmo tempo, April é uma personagem muito assertiva que mesmo diante de uma situação complicada busca dar andamento à história. Muitas vezes eu reclamo de personagens passivos demais, que acabam reagindo às coisas sem serem responsáveis diretos pela narrativa se encaminhar. Tal não é o caso aqui. A relação dela com Maya, abordada no começo da história é a ilustração perfeita de como é a personalidade da personagem. Vemos como esta relação vai mudando, fruto das ações da personagem. 

Eu só achei algumas soluções encontradas para a história muito guiadas. Em alguns momentos a presença de um deus ex machina tão claro acaba prejudicando a fruição da narrativa. Entendo que a história não é sobre os Carls, mas sobre a própria April, mas é preciso sempre tomar cuidado para não entregar tudo de mão beijada para os personagens. Tem pelo menos três ocorrências disso na narrativa. Como se trata do primeiro trabalho escrito pelo autor, é totalmente perdoável e o livro é muito bom. Nessa época de redes sociais tomando conta de nossas vidas e opiniões se tornando verdadeiras, mesmo sendo falsas, esse é um daqueles livros necessários. 


Ficha Técnica:

Nome: Uma Coisa Absolutamente Fantástica Autor: Hank Green Editora: Seguinte Gênero: Ficção Científica Tradutora: Lígia Azevedo Número de Páginas: 344 Ano de Publicação: 2018


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*Material enviado em parceria com a editora Seguinte


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