• Paulo Vinicius

Resenha: "Tubarão" de Peter Benchley

Uma terrível força da natureza começa a atacar os cidadãos de Amity, uma cidade que depende das férias de verão para alimentar os negócios. O chefe de polícia Brody vai precisar unir todos os esforços possíveis para eliminar essa ameaça marinha.



Sinopse:


Devore ou seja devorado. Você não está vendo, mas ele está lá no fundo, observando suas pernas se mexerem nas águas turvas. A mais perfeita máquina assassina da natureza, o predador que mantém seu posto no topo da cadeia alimentar desde a época dos dinossauros. Um torpedo de carne, ossos e dentes. Não há para onde fugir. Se você sempre devorou livros, chegou a hora da revanche. Tubarão é o clássico romance de Peter Benchley que deu origem ao primeiro blockbuster de Steven Spielberg. Mas, mesmo antes do sucesso na telona, o frenesi alimentar de Jaws se transformou num fenômeno de vendas. O best-seller internacional foi o principal responsável em elevar a fera de barbatanas dorsais ao status de perfeita encarnação do mal. Se já existiu um bicho-papão na natureza, ele está dentro d'água. A história se passa em Amity, um balneário ficcional situado em Long Island, Nova York. Quando o corpo de uma turista é encontrado na praia o chefe de polícia Martin Brody ordena o fechamento das praias da região.






Antes de começar a resenha queria deixar um aviso básico: tem algumas cenas logo no começo da história que são bastante fortes. De um ataque de tubarão. Então aqueles que não se sentem à vontade lerem cenas mais descritivas, sugiro que não o façam.





O homem contra a natureza. Alguma força mortal movida por seus instintos que sobrepuja a capacidade do homem de derrotá-lo. Vários autores já se debruçaram sobre esse tema: Herman Mellville em seu clássico Moby Dick nos mostra um marinheiro obcecado por uma baleia branca; Jack London explorou o tema em várias de suas obras; Stephen King nos traz um cachorro possuído por uma força maligna. É isso o que vamos encontrar em Tubarão: um animal o qual os personagens não conseguem compreender. E lidar com a natureza pode nos colocar em uma situação capaz de nos fazer sentir humildes diante de seu enorme poder. Peter Benchley consegue nos fazer pensar isso em vários momentos de sua história, demonstrando que ela possui várias camadas não tão aparentes. E o mais legal de tudo: é só uma história sobre um tubarão aterrorizando uma cidade. Mas, é tão mais do que isso.


A cidade de Amity é um balneário turístico que sobrevive da grande procura que existe durante o verão. Quando as pessoas vão gastar seu dinheiro em bebidas, praia, diversão. Nos outros meses do ano, a cidade fica parada. Todos estão ansiosos pela chegada do verão já que as vendas do ano anterior não foram muito satisfatórias. Mas, às vésperas dos grandes feriados uma série de mortes começam a ocorrer na praia. Todas atribuídas a um tubarão. O chefe Brody precisa lidar com essa criatura, algo para o qual ele não foi treinado para lidar. E essa criatura parece não mais sair da baía que circunda a região, algo atípico para seres de sua espécie. Para salvar a população, Brody decide fechar a praia, mas bate de frente com os desejos do prefeito Vaughan que não quer ver a cidade empobrecida diante da falta de turistas. Mas, Brody desconfia que existe um motivo mais sombrio para a resistência do prefeito em fechar a praia. Além de lidar com um tubarão assassino e com políticas escusas, Brody vai enfrentar um desafio maior: o seu próprio casamento colocado em risco com a sua esposa insatisfeita com a sua atual situação.


Para um livro escrito em 1974, ele até que envelheceu bem. A escrita de Benchley é acima da média. Esse é um livro muito veloz de ser lido. Daquelas escritas que você não deseja parar antes de terminar. Os ganchos que Benchley deixa entre os capítulos são daqueles suculentos, que fazem você continuar para saber o que vai acontecer a seguir. A narrativa é contada em terceira pessoa e ela começa sendo bastante descritiva até que passa para um tom mais narrativo propriamente dito. A narrativa segue um estilo cinematográfico, ou seja, se passa em três atos. Primeiramente o perigo é apresentado, depois seguem-se os complicadores para na última parte termos o clímax e o desfecho. O autor chega a dividir o livro em três partes o que facilita essa compreensão. A tradução feita por Carla Madeira está muito boa e o texto não apresenta quaisquer dificuldades. Temos algumas notas de rodapé deixadas em alguns trechos, mas nada que atrapalhe a fruição do leitor. Achei o texto bem adaptado e não apresenta quaisquer desafios. A boa tradução somada à habilidade de escrita do autor criam um livro bem gostoso de ser lido. Devorei o livro em dois dias como um verdadeiro tubarão.



O autor não idealizou personagens. Brody, o protagonista, não é nenhum herói virtuoso. Ele é um policial justo que faz o seu serviço com dedicação. Tem os seus problemas familiares e quando o seu casamento é colocado em jogo, vemos em parte o quanto o personagem fica mexido. Tem alguns momentos em que Brody demonstra sua fraqueza e vemos um lado mais ciumento, invejoso e até violento dele. Mas, no fundo, o protagonista é uma boa pessoa e acabamos torcendo por ele até certo ponto. A narrativa acaba nos conduzindo rumo a essa direção. Até porque ele fica perdido diante do poder de um ser o qual ele não é capaz de lidar. Suas tentativas de acabar com a ameaça se veem infrutíferas o que o frustra. Mais tarde ele se vê obrigado a lidar com Matt Hooper, um ictiologista (especialista em peixes) o qual ele tem um problema claro. Sem entregar a história, Hooper e Brody em um barco no meio do oceano não pode dar certo. Mas, Brody faz o possível para dar certo pensando na população de Amity. Tudo parece se mover contra o personagem, e ele é levado ao limite para encontrar uma solução à ameaça que assola a cidade.


Benchley criou uma criatura aterradora. E não é nenhum monstro sobrenatural, nenhuma criatura vinda de outra época. É só um tubarão branco que deixa aqueles que o caçam desarmado diante de seu poder. Por vezes, o autor dá um ar de inteligência primitiva ao ser, mas ele é essa criatura marítima que encontramos no mundo real. O ar de tensão e de que nossas vidas estão em perigo permeia toda a história. O tubarão é aquele inimigo que não pode ser derrotado. A terceira parte da narrativa me fez lembrar demais Moby Dick. Quando a caça ao animal deixa de ser algo para salvar a cidade e se torna obsessão. Principalmente quando somos apresentados a Clint, um marinheiro especializado na caça de tubarões que é contratado pela cidade. A dinâmica entre Clint, Hooper e Brody é reveladora em relação à personalidade deles. Clint é o homem do mar solitário que busca a sua caça perfeita e o dinheiro no bolso; Brody representa a cidade amedrontada por uma ameaça poderosa e Hooper é o biólogo que parece uma criança empolgada com um ser monstruoso. O que representa, no fim das contas, a morte da criatura?


Achei a narrativa repleta de buracos. O que eu posso elogiar da escrita do autor, tenho só a criticar em relação à narrativa. Vários plots ele deixa sem qualquer solução aparente ou sem um desfecho satisfatório. O final foi abrupto demais. Por exemplo, um dos elementos de enredo é a existência de um grupo de mafiosos que realizavam especulação imobiliária em Amity e pressionavam o prefeito para manter a cidade aberta. Estou ando esse spoiler pequeno porque esse plot não leva a lugar algum. Benchley os apresenta na história na segunda parte e depois eles nunca mais são citados. O que aconteceu? Eles desistiram? Mataram o prefeito? Outro plot que não tem um desfecho satisfatório é o sobre a relação entre Brody e Ellen. Acontecem determinadas situações na história que demandam algum tipo de reação de Brody. No entanto, não sabemos se ele aceita, se ele se enfurece... enfim, o que ele vai fazer dali em diante? São muitas falhas de roteiro se formos pensar em todo o entorno que Benchley cria para a narrativa do tubarão. Se formos pensar só na história principal, ela é boa e consegue ser interessante. Só que o autor insistiu em criar problemas secundários. E isso foi o que baixou muito o nível entregue ao final. E prejudicou também no desenvolvimento dos personagens que ficou incompleto.


Tubarão é uma história clássica de terror que coloco o homem frente a frente com uma criatura mortal. Criatura essa que é verossímil, que existe em nosso mundo. Que podemos encontrar em uma praia. Parte da história do livro é inspirada em acontecimentos reais pelo que Benchley comenta na introdução ao livro. A escrita é muito boa, mas o fato de ele ter criado subplots ao qual não soube conduzir adequadamente fez a história cair bastante. Mesmo com tudo isso, recomendo aos leitores que deem uma oportunidade a este livro. Vai ser uma leitura bastante divertida.












Ficha Técnica:


Nome: Tubarão

Autor: Peter Benchley

Editora: DarkSide Books

Tradutora: Carla Madeira

Número de Páginas: 294

Ano de Publicação: 2016


Link de compra:

https://amzn.to/3bJnIft