• Paulo Vinicius

Resenha: "Steampunk Ladies - Choque do Futuro" de Zé Wellington, Sara Prado e outros

Nesta segunda aventura de Sue e Rabiosa, elas seguem para Londres para investigar quem está usando as invenções do pai de Rabiosa para o mal. Elas vão se deparar com uma sociedade marca pelo preconceito contra as mulheres.


Sinopse:


O vapor e certos valores estão ultrapassados! Ajude a mudar o mundo nesta eletrizante aventura!


Em um passado em que a tecnologia evoluiu muito além do que na nossa realidade a partir das máquinas a vapor, a Inglaterra do século XIX se tornou o centro das grandes invenções do planeta. Saídos da cabeça de um mesmo inventor, esses projetos revolucionários têm sido usados em uma campanha britânica para colocar o resto do mundo de joelhos.


Como única força de oposição resistente, um grupo de sufragistas contará com a ajuda de Sue e Rabiosa, duas mulheres recém-chegadas da América. Elas vieram acertar as contas com o controlador primeiro-ministro inglês e um misterioso grupo cuja atuação é global. Para estas mulheres, vencer o autoritarismo é também vencer as barreiras que as separam dos seus direitos.





Neste segundo volume da série Steampunk Ladies, Zé Wellington continua a explorar questões de desigualdade de gênero em um mundo repleto de engrenagens e vapor. Sem perder o espírito de aventura e perigo que foi tão característico no primeiro volume. Uma HQ com ação frenética e que não para em nenhum instante e o leitor fica preso do início ao fim. Aliado a isso temos a bela arte da Sara Prado, do Wilton Santos e do Leonardo Pinheiro que arrebentam nos três atos da história.


Sue e Rabiosa desembarcam em Londres na pista de um homem que roubou os planos do pai de Rabiosa e os empregou para seus objetivos. Elas se encontram com uma conhecida que as informa que esse homem chama-se Albert Calvin e hoje é o primeiro-ministro do império. Seu poder é tamanho que chega a obscurecer o poder da rainha. Ou seja, é um adversário praticamente intocável. Para tentar detê-lo, a dupla vai buscar se aliar a um grupo de sufragistas que defendem os direitos femininos. As mulheres sofrem com muito preconceito na sociedade britânica e estas mulheres desejam a aberturados direitos. Mas, se aliar a elas pode ser mais difícil que parece, principalmente quando os objetivos de Sue e Rabiosa começam a caminhar por lados opostos.


A temática empregada na HQ de trabalhar questões de gênero foi feita de uma maneira bem tranquila. Os objetivos são claros e o cenário deixa a gente compreender por que a ação das duas protagonistas se torna tão necessária. Esta é uma sociedade que espelha bem como era a sociedade no século XIX. As mulheres não tinham espaço e eram tratadas como incapazes. Fenômenos como Mary Shelley e as irmãs Bronté são exceções à regra. Os direitos femininos só começaram a ser conquistados após o final da Primeira Guerra Mundial, muito por conta da ausência de força de trabalho masculina nas fábricas. Zé Wellington dá um fio de esperança aqui ao colocar uma série de mulheres lutando por seus direitos em manifestações e piquetes. O antagonista emprega de força bruta para colocá-las na linha, causando eventualmente alguma fatalidade.


Se no primeiro volume, o roteiro acabou colocando as duas juntas a partir de objetivos comuns, aqui vemos o exato oposto. Enquanto Sue parece se alinhar aos objetivos da sufragistas, entendendo a necessidade de sua presença diante de tantos obstáculos, Rabiosa está focada em sua vingança. Principalmente quando ela descobre que Calvin esteve envolvido na morte de sua mãe. Isso a torna cega aos objetivos das mulheres londrinas. E coloca Sue e Rabiosa em rota de colisão. Se pararmos para pensar um pouco, este segundo volume se foca mais na história de Rabiosa e de sua família e de como elas se envolvem com Calvin e seus planos. Sue acaba mais em segundo plano nesse sentido. Por isso eu não senti tanto quando o roteirista deu a deixa de que talvez fosse separá-las.


O roteiro está bem competente e combina com a pegada aventuresca da narrativa em si. Por se tratar de um segundo volume, fica aquela necessidade de se conhecer a história das duas protagonistas do primeiro volume. Porém, tive a sensação de que se você pegar só esse segundo volume para ler, é possível curtir mesmo assim. Possui uma história encerrada em si mesma que dá para entender independentemente de ter ou não tido contato com o primeiro volume. Eu mesmo não lembrava de tanta coisa do primeiro e consegui me encontrar numa boa. A história é dividida em três partes fazendo homenagens a romances do século XIX: Grandes Expectativas (Grandes Esperanças, de Charles Dickens), Prometeias Modernas (Frankenstein ou o Prometeu Moderno, de Mary Shelley) e Orgulho e Preconceito (romance homônimo de Jane Austen). Ao final ficam alguns ganchos para um futuro próximo volume e aí o autor vai ter que escolher se vai continuar a narrativa a partir de Sue ou de Rabiosa.


A arte é feita por três pessoas diferentes em cada um dos três capítulos. Os coloristas buscaram suavizar um pouco as diferenças, mas é possível enxergá-las um pouco. Das três artes distintas, confesso que gostei mais da do Leonardo Pinheiro presente no terceiro capítulo. Ela é mais dinâmica, voltada para trabalhar a ação e torná-la coesa para que o leitor possa compreendê-la, ao mesmo tempo em que a deixa verossímil. Achei a arte da Sara Prado, no primeiro capítulo, muito carregada nas sombras. Não sei se foi mais a escolha de uma palheta mais puxada para o azul-escuro e o roxo feita pelos coloristas ou se foi uma opção da própria artista. Caso é que em algumas páginas, as cores estão tão escuras que fica difícil discernir o que está acontecendo no cenário. E isso é bem ruim. A arte do Wilton Santos não me agradou tanto simplesmente por mudar o padrão de cores de forma abrupta. A mudança é tanta que o vestido da Sue toma tons esverdeados em comparação ao azulado da primeira e terceira parte. Mas, a questão que me incomodou não foi essa. Achei que entre as cenas de ação da segunda e da terceira parte, gostei mais da do Leonardo por dar essa coesão. Alguns momentos na segunda parte ficaram estranhos para mim como o protesto das mulheres no hipódromo.


Steampunk é uma HQ divertida e ao mesmo tempo consegue trabalhar temas como o sufragismo, o preconceito de gênero e a luta pela igualdade social no século XIX. O roteiro do Zé Wellington está preciso e consegue entregar uma narrativa com bons momentos de ação espalhados ao longo da história. Ele também permitiu aos artistas brincar com o seu roteiro, o que produziu resultados divididos, que ora brilhavam com boas cenas, ora confundia com momentos em que os artistas poderiam ter brilhado mais. Mas, o resultado ficou bem legal e eu só tenho a recomendar a leitura.










Ficha Técnica:


Nome: Steampunk Ladies - Choque do Futuro

Autor: Zé Wellington

Artistas: Sara Prado, Wilton Santos e Leonardo Pinheiro

Coloristas: Ellis Carlos, Ale Starling e Thyago Brandão

Letrista: Deyvison Manes

Editora: Draco

Número de Páginas: 72

Ano de Publicação: 2019


Link de compra:

https://amzn.to/2vpBKkd


Tags: #steampunkladies #choquedofuturo #zewelington #saraprado #leonardopinheiro #wiltonsantos #elliscarlos #alestarling #thyagobrandao #dyvisonmanes #sufragismo #igualdadesocial #preconceito #vinganca #lutapordireitos #ficcoeshumanas




ficções humanas rodapé.gif

Todos os direitos reservados.

Todo conteúdo de não autoria será

devidamente creditado.

  • Facebook - Círculo Branco
  • Twitter - Círculo Branco
  • YouTube - Círculo Branco
  • Instagram - White Circle

O Ficções Humanas é um blog literário sobre fantasia e ficção científica.