• Paulo Vinicius

Resenha: "Sláine - The Wanderer I" de Pat Mills e Clint Langley

Estas são aventuras dispersas de Sláine, o deus guerreiro, pelo reino de Albion. Histórias em que ele e seu companheiro, o anão Ukko, se envolvem em todo tipo de confusão. Tem uma bruxa que precisa ser exorcizada, uma estranha torre atacada por Cyths e um terrível esporte cujo nome já diz tudo sobre ele: Mortebol.


Aviso: essa série é parte integrante das revistas Heavy Metal Primeira Temporada, publicadas pela editora Mythos. Nós estamos analisando história por história das cinco edições. Caso vocês desejem ler sobre outras das séries na revista, cliquem nos links abaixo:


Guerreiros ABC

Contos de Telguth

Mundo dos Labirintos




Estas são histórias fechadas com Sláine vagando pelo antigo território dos celtas e dos bretões vivendo todo o tipo de aventuras. Recomendo aos leitores que procurem o encadernado em capa dura de Sláine - O Deus Guerreiro que foi lançado pela Mythos. Isto porque essas histórias, apesar de poderem ser compreendidas por si só, indiretamente precisam que o leitor tenha algum conhecimento mínimo sobre o personagem. Dá para ler numa boa, mas algumas situações vão ficar no ar. Vou comentar sobre cada uma das histórias presentes nas edições da revista, mas de um modo geral, Sláine foi um grande rei da tribo dos sessaires. Essas histórias acontecem após ele deixar os sessaires e ele começar a vagar pelo reino em direção aonde a deusa Danu o envia, sempre com algum propósito.


Antes de falar sobre as histórias, quero me deter um pouco sobre a arte que é um estilo renderizado e vetorial, que se assemelha bastante a CGIs. Ela tem uma atratividade por ser bastante estilizada e precisa, mas admito que ela não me agrada. Parece algo artificial demais para mim. E aqui em Sláine ela pareceu esquisita. Se comparada à arte pintada do Simon Bisley que foi um dos artistas mais aclamados do personagem, ela parece estranha. Clint Langley tirou totalmente o foco de um personagem capa e espada e o inseriu em um estilo mais de horror ou lovecraftiano. Sim, alguns inimigos que ele enfrenta são realmente tenebrosos e parecem ter saído de alguma dimensão abjeta. De certa forma, a arte fornece um contexto mais pesado ao Sláine, com aquela sujeita típica dos períodos mais antigos. Quando o barbarismo parece ainda mais bárbaro e estranho. Dentre os capítulos do Sláine que, artisticamente, mais gostei está O Batedor de Gongo por causa do visual da torre dos Cyrrh. Parece uma catedral gótica, mas transpirando uma névoa pecaminosa e maligna que o leitor consegue captar logo que a vê.


Os roteiros de Mills estão bem contidos, com ele focando no ar de andarilho do personagem. Não temos um grande arco de histórias, com Sláine vivendo suas aventuras e o leitor acompanhando-o decapitar cabeças e tomar nomes. Algumas histórias são mais diretas enquanto outras tem alguma virada narrativa lá pelo final. Para quem espera algum desenvolvimento do personagem, esqueça, não é esse o propósito geral. Podemos concordar que são histórias divertidas, e algumas contam com bons momentos de ação. Só que esperava mais porque se trata de um personagem clássico da revista 2000AD e vê-lo sem rumo nas histórias me decepcionou. Os roteiros estão bem aquém do que foi o encadernado publicado pela Mythos que mostrava muito da cultura celta e da relação com a natureza.


A primeira história é O Batedor de Gongo e temos o personagem chegando a uma estranha torre. Sláine reconhece como sendo um lar dos Cyrrhs, criaturas demoníacas que tem como hábito possuir humanos para levá-los a fazer os seus propósitos malignos. Assim que chega próximo à torre, Sláine é atacado por um guerreiro que acha que o personagem teria vindo até ali para pilhar os tesouros. Logo depois, Sláine descobre que Ukko estava vivendo na torre, alugando cômodos do lugar como se fosse um estalajadeiro. Ou seja, o anão estava fazendo mais um dos seus esquemas. O grande gongo usado para afastar os Cyrrhs estava sendo usado por Ukko como sinalizador para que seus homens soubessem quando era a hora de trabalhar na reforma da torre. Quando Sláine decide tocar o gongo (após uma leve provocação de nosso querido anão), algo surge na torre.


Se estamos falando de esquemas do Ukko, a segunda história nos mostra como o anão tem o dom de se meter em todo tipo de encrencas. Chamada O Contrabandista de Âmbar, ela começa com Sláine enfrentando um grupo de assaltantes de estrada logo no começo. Depois de derrotar com facilidade seus agressores, nosso herói fica confuso quando um burro está falando com ele. Qual não é o espanto de Sláine quando ele descobre que o burro é Ukko, que foi costurado nas entranhas do animal porque decidiu desviar contrabando de um mago local. O anão pede ajuda ao bárbaro para se livrar do mago e conseguir lucrar com algumas pedras de âmbar. No começo, Sláine não quer saber da história, mas Ukko diz que ele estava acompanhando de uma mulher que lembrava muito as feições de Niamh, amor da vida do personagem.


Com homenagens a Lovecraft e a filmes clássicos de terror, O Exorcista coloca Ukko como uma espécie de médico capaz de tirar possessões malignas de dentro do corpo das pessoas. O anão pensou da seguinte forma: bem, sei extrair Cyrrhs do corpo das pessoas e tenho Sláine do meu lado para passar o machado nos demônios. Dinheiro fácil, não é? Principalmente quando a paciente é uma bela e voluptuosa mulher. Mas, tudo isso muda de figura quando a mulher se revela uma bruxa ninfomaníaca que é detestada pelos Cyrrhs. E ela não foi possuída por um demônio, mas por dúzias deles. Acho que o dinheiro não é mais tão fácil como Ukko pensava. E vai exigir bem mais esforço de Sláine para eliminar tais criaturas malignas.


O legal nessa terceira história é que Mills nos fala um pouco mais sobre os Cyrrhs. Estas são criaturas que detestam os humanos por conta de seus corpos. Segundo as lendas, eles não gostam das funções corporais dos homens preferindo apenas suas mentes, passíveis de emoções e racionalidade. É uma discussão interessante sobre como os celtas valorizam a alegria, a carnalidade, a felicidade. Os antagonistas das histórias de Sláine seriam a contraposição total a isso.


A última história da primeira temporada da Heavy Metal (na quinta edição não temos histórias do Sláine) chama-se Mortebol. Um esporte maluco realizado por vários exércitos que se reúnem em tempos de paz para isso. Ele consiste em seis times de vários guerreiros que precisam levar uma bola até uma espécie de gol. A bola é uma cabeça humana espetada em uma lança. Todos os prisioneiros tem suas cabeças cortadas a cada vez que uma bola é necessária. Quando a bola é destruída, substitui-se por outra cabeça. Não há regras. Curiosidade: esse hábito celta realmente existiu e a última notícia que se tem dele é que ele teria sido realizado antes da Batalha de Boyne, em 1690. Não é invenção do Mills. Voltando à história, o interesse de Sláine nessa edição do simpático esporte é que Nest, uma estudiosa da torre eterna e interesse do personagem, foi capturada como prisioneira por um dos times. E ela pode vir a perder sua cabeça para servir como bola.


Enfim, as histórias são divertidas e atendem àqueles que estão em busca de cabeças decepadas e muito barbarismo. No mais, achei que faltou aquele carisma do personagem que vim a conhecer antes. Faltou um algo mais. A arte de Clint Langley definitivamente não me agrada, e ainda a achei pouco eficiente para o personagem. Embora dizem que Langley seja o herdeiro criativo de Bisley, ainda prefiro a arte pintada do antigo desenhista. No mais, as histórias valem a pena se você quer algo rápido e simples de entender.









Ficha Técnica:


Nome: Sláine - The Wanderer I

Autor: Pat Mills

Artista: Clint Langley

Compõe as edições 1 a 4 da primeira temporada da revista Heavy Metal

Editora: Mythos

Tradutores: Érico Assis, Octávio Aragão, Antônio Tadeu e Hélcio de Carvalho

Número de Páginas: 100 cada edição

Ano de Publicação: 2018 a 2019


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