• Paulo Vinicius

Resenha: "Sangue de Dragão" (Filhos do Fogo vol. 1) de Denis Ibañez

O surgimento de estranhos seres próximos à cidade de Vanir do Norte coloca os hoenir em alerta. Um bardo malandro acaba se envolvendo com a mulher errada. E um mendigo acaba encontrando o filho de uma família nobre e tenta obter uns trocados; mas, isso vai acabar mal. Essas três histórias vão nos apresentar esse incrível mundo criado pelo autor. 

Sinopse:


A ameaça do Povo Antigo assombra as terras de Soteros mais uma vez. Nas terras geladas do norte, o perigo se aproxima cada vez mais dos Hoenir, o povo de Vanir. Porém, conforme a sombra de um inimigo há tempos esquecido se aproxima, o chamado do sangue dos descendentes de Altheram, filho do dragão Ignar, se fortalece. Acompanhe a história do bardo Karan, o bastardo Thar, o nobre Bakon, a assassina Togany e o fazendeiro Bjorn. Qual deles conseguirá fazer o que é preciso, mesmo que isso signifique abandonar a luz dentro de si? Qual deles responderá ao chamado do Sangue de Dragão?




O mecanismo de Pontos de Vista é muito comum nos dias de hoje. Ele permite construir histórias mais ágeis enquanto se foca em vários núcleos narrativos ao mesmo tempo. Entretanto, como qualquer ferramenta ele tem virtudes e defeitos. Mas, apesar de alguns detalhes que podem ser corrigidos futuramente a narrativa é criativa e o mundo tem muita coisa ainda a ser explorada pelo autor. Sangue de Dragão pertence a uma nova safra de autores nacionais que chegam ao mercado com fome de espaço para si. 

A narrativa é apresentada em primeira pessoa. Um dos pontos altos da narrativa é em como ele torna cada ponto de vista único. Os personagens tem voz própria e isso é muito bem passado para as páginas. Por exemplo, Karan é um personagem malandro e narcisista. Essa personalidade faz com que ele tenha sua própria visão de enxergar os eventos. Togany é uma mulher fria e voltada para o cumprimento de suas missões. Bakon é um menino inocente. Essa forma única de tratar os personagens dá individualidade a eles, além de termos níveis diferentes de narradores não-confiáveis. Temos narradores não-confiáveis por serem honestos, outros por não entenderem o mundo ao seu redor, outros por enxergarem o mundo ao redor de si. Além disso, a escrita está bem tranquila, não tendo grandes dificuldades para o leitor. Os problemas de revisão são pequenos e não prejudicam a leitura. Gostei bastante do trabalho de formatação da Luva Editora, mas só achei que as ilustrações podiam ser de cenas da história e não de localidades. A Cristina Pezel fez isso muito bem nos dois volumes de O Mundo de Quatuorian. Aqui, as imagens não funcionam bem. São muito bonitas, mas não me dizem nada sobre a narrativa. 

Da mesma forma que o mecanismo de Pontos de Vista ajudou o Denis a tornar a história muito ágil, ela também prejudicou o desenvolvimento e a fruição da narrativa. Até mais ou menos dois terços da história, os capítulos são bem pequenos e os núcleos se alternam com muita frequência. O leitor não consegue entrar na história adequadamente. Para o Ponto de Vista funcionar, ele precisa descrever uma cena completa e não apenas parte dela. Tem um momento na narrativa em que Karan e Togany estão se encontrando com um chefe do submundo na cidade e esta cena é trabalhada em quatro capítulos espaçados. Alguns dos capítulos chegam a ter duas ou três páginas e o ponto de vista troca de Togany para Karan. Se a cena é a mesma não há necessidade de criar capítulos distintos para os personagens que estão envolvidos diretamente nela. É possível usar o mesmo capítulo, usando quebras de página para alternar entre os personagens. Incomoda, mas não chega a atrapalhar. Impede o leitor de se investir 100% na narrativa. 

Mas, algo que fica muito eficiente na escrita do autor é o desenvolvimento de personagens. Ele sabe aonde ele quer levá-los. Ou seja, eles vão sair do ponto A para um ponto B futuro na narrativa. Cada um deles possui um dilema a ser resolvido. Por exemplo, Thar é um filho bastardo que acabou precisando ir para as ruas. O envolvimento dele com Bakon é muito da vontade do personagem de desejar sair daquele mundo fétido da cidade. Há vários mistérios a serem resolvidos sobre ele. O fazendeiro Bjorn possui o espírito de um guerreiro em seu interior. Quando a invasão começa, ele acaba precisando deixar sua vida pacata de lado para abraçar o seu lado berserker. Isso é só a pontinha do iceberg que vemos na narrativa. Outros temas são explorados pelo autor. 

Porém, eu acho que alguns plots precisavam de um desenvolvimento maior. Por exemplo, a relação entre Thar e Bakon é mal explicada. Ficou uma sensação muito abrupta para a amizade entre os personagens. Faltou trabalhar a relação emocional entre ambos que acabou forjando essa confiança mútua entre eles. O cativeiro de Arualen poderia também ter algum elemento dramático a ser explorado pelo autor. Darius poderia ter viciado a personagem em drogas ao ter obrigado-a a experimentar como parte da tortura. Poderia ter ferido a personagem e tê-la feito perder parte de sua habilidade como assassina, deixando-a em um dilema. Ou até provocado algum dano psicológico grande. E o autor dá uma sugestão de que algo poderia ter acontecido a Arualen quando Darius nem se incomoda com a presença dos personagens em sua cela. Ou seja, são plots que poderiam render algo mais. Mas, nada também que interfira na fruição. Apenas que a narrativa acaba mediana quando tinha um enorme potencial. 

O universo literário que ele criou é inacreditável. O autor novamente tem uma maturidade sobre o que ele quer contar e até onde ele quer guiar a história. Claro que a gente sabe que em séries longas, os personagens acabam tomando o controle da história das mãos do autor. Gostei também de como ele vai entregando as informações pouco a pouco. Entretanto, como se trata de um primeiro volume de uma série a quantidade de informações a ser passada para o leitor é muito grande. Isso é inevitável e todo autor passa por esse problema. A maneira como ele equaciona isso é o que vai tornar um primeiro volume mais ou menos memorável. No caso aqui, achei que o Denis encarou bem o obstáculo. Não ficou chato e nem maçante com os personagens apresentando costumes e locais com bastante naturalidade. 

No fim, eu acabei curtindo a narrativa e a leitura é bem rápida. Consegui terminar em três dias, mas daria para ler em um ou dois numa boa. A mão do autor é bem leve e dá para entender os detalhes da narrativa muito bem. Os personagens são ricos e com bastante potencial para novas histórias. A forma de escrita também brincou bastante com a ideia de narradores não-confiáveis, sendo que cada um tem sua própria particularidade. Para mim, é uma série que eu quero e vou acompanhar. 


Ficha Técnica:

Nome: Sangue de Dragão Autor: Denis Ibañez Série: Filhos do Fogo vol. 1 Editora: Luva Editora Gênero: Fantasia Número de Páginas: 240 Ano de Publicação: 2018

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