• Paulo Vinicius

Resenha: "Os Filhos do Pôr do Sol" (As Estações vol. 3) de Anna Fagundes Martino

Atualizado: Jan 15

No último volume desta incrível série, vamos ver o destino de Amaranthe Hall após a chegada de uma noviça chamada Margaret. Veremos a personagem questionando seus valores e entrando em contato com o estranho mundo feérico.

Sinopse:


Em 1947, Éamonn Delaney se vê em uma posição complicada. Ele herdou uma residência com fama de assombrada e está cuidando sozinho de um grupo de ex-prisioneiros de guerra traumatizados. Para conseguir dar conta de tudo, Éamonn apela para as forças do Outro Lado, que salvaram sua vida anos antes. No entanto, a batalha também causou muitos danos aos misteriosos jardineiros que auxiliam Éamonn, e talvez magia e plantas não sejam suficientes para consertar todos os problemas…




Gente, tem muitos spoilers de volumes anteriores!!! Sério!




O destino de Amaranthe Hall


Vimos em O Berço de Heras que Amaranthe Hall se tornou uma espécie de casa de repouso para pessoas afetadas pela guerra. Isso muito por conta do sofrimento que Stella e Jack acabaram passando por conta dela. Eammonn acaba precisando de mais ajuda para cuidar dos feridos de guerra e Margaret é enviada para auxiliar no tratamento. A protagonista da vez é uma mulher cujas crenças religiosas são muito fortes e marcada pelo amor ao cristianismo. Esse amor a torna cega em relação às forças da natureza que estão por toda a parte. Tolhe a sua ação diante daquilo que acontece no mundo real. Vamos ver uma protagonista muito marcada pela inércia e isso vai atacando seus valores pouco a pouco. Ao mesmo tempo temos Stíofan, um feérico, precisando se decidir se assume ou não seu amor por Millie, uma das outras ajudantes da casa. No fundo disso, a relação entre feéricos e humanos parece estar chegando a um ponto sem retorno em que os primeiros não desejam mais ter contato com a humanidade por causa dos seus vícios e confrontos inúteis.


Mais uma vez a Anna consegue entregar uma boa narrativa e uma escrita gostosa. Para quem espera uma narrativa vertiginosa e dinâmica, repito sempre que este não é o livro para você. A autora é paciente e progressiva na construção daquilo que ela deseja. Ela tem uma vibe toda dela. Se trata daquele tipo de história que vai sendo entregue aos poucos, desenvolvendo os objetivos e a motivações dos personagens, suas características psicológicas, suas relações. E é curioso dizer que a autora é paciente e progressiva porque a série toda foi marcada pelo fato de estar dentro do gênero da novella, ou seja, ter uma quantidade limitada de palavras. Mesmo assim eu consigo sentir o cuidado no tratamento da narrativa, a boa escolha de palavras e o debate de temas reflexivos.


Passei a gostar muito do mundo que a autora criou. Os personagens são sempre cativantes e ela consegue ser coerente em suas personalidades. Pensar que vimos Seághan, por exemplo, rapidamente em O Berço de Heras e que ele manteve sua personalidade, sendo esta apenas marcada por suas perdas, é incrível. E aí você precisa pensar na série como um todo, já que ela é uma narrativa geracional onde o protagonista da história nada mais é do que a própria Casa de Vidro. Ela serve como portal que liga o mundo dos homens e o mundo das fadas. É a partir dela que as histórias acontecem. E em cada momento a Casa representa algum tema: o amor, no primeiro volume, a perda, no segundo e o legado, no terceiro. Se formos estabelecer comparativos, me vem à mente novamente Mythago Wood, romance icônico escrito por Robert Holdstock. Uma narrativa que se cerca da relação entre humanos e o meio ambiente (e os seres sobrenaturais que dependem dele). Que questiona a visão de mundo das pessoas em sua passagem por este mundo.

"Amor que é capaz de gerar frutos sempre é bom. Nem todo mundo nasce de amor e nem todo amor é de dar frutos, mas quando calha de acontecer, é bom o suficiente para ser celebrado."

A religião como modo de vida


Margaret é o alvo dos grandes questionamentos da trama. E é engraçado pensar que o pensamento dela é a abordagem de muitas pessoas nos dias de hoje. Daquelas que não conseguem aceitar sair do seu pequeno lago e entrar no oceano. Ou é o medo de entrar em águas maiores e descobrir que suas certezas são incertezas e nada é certo no mundo. O embate entre Seághan e Margaret é bom porque permite perceber aos poucos o quanto enfurece determinadas pessoas quando nosso mundo é virado de cabeça para baixo. Ao mesmo tempo desperta a curiosidade em saber como as coisas funcionam. A protagonista ficava maravilhada com as habilidades dos feéricos, mas se recusava a entender como esta era uma força benéfica. Como era algo que não vinha de seu Deus, ela colocava logo no campo do demoníaco. Anna não chega exatamente a mudar a opinião de Margaret, apenas faz com que ela entenda a necessidade das habilidades dos irmãos para manter aquele espaço em benefício de pessoas que precisavam de ajuda.


O final da Segunda Guerra Mundial colocou o mundo em uma nova era. Uma era de desconfiança e incerteza que se reflete na maneira como a casa é vista. Se não há guerras, não há necessidade de um lugar para acolher feridos de guerra. A entrada do Estado no acolhimento destas pessoas cria uma dúvida sobre o que fazer com Amaranthe Hall. Vai ser esse espírito de mudança, de alterar a forma como o local é encarado que angustiará os personagens. Isso porque a casa que vai seguir adiante não é a casa que Stella imaginou deixar a seus filhos. Essa mudança de pensamento é sinal dos tempos. É melancólico sim, mas é inevitável. Só que a mensagem deixada pela autora é que mesmo que haja mudança em algo, isso pode gerar o maravilhoso. É possível manter o encantamento e o segredo que a magia cria em nossas vidas.


Acabei sentindo que faltou alguma coisa a mais na história. Não digo um final impactante, mas uma sensação de desfecho e novos começos. Em volumes anteriores, essa passagem de tocha ficava bem claro na própria atitude dos personagens. Aqui, por exemplo, eu fiquei querendo saber o que aconteceu a Margaret e Millie, apesar de a autora deixar o destino de ambas meio que no ar. Eu adoro a série e recomendo a quem gosta de histórias mais compassadas e reflexivas. Sem dúvida alguma, você vai acabar se pegando pensando no futuro. É uma consequência natural dos três volumes da série.


Ficha Técnica:


Nome: Os Filhos do Pôr-do-Sol

Autora: Anna Fagundes Martino

Série: As Estações vol. 3

Editora: Dame Blanche

Gênero: Fantasia

Número de Páginas: 86

Ano de Publicação: 2019


Outros Volumes:

A Casa de Vidro (vol. 1)

Um Berço de Heras (vol. 2)


Link de compra:

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*Material enviado em parceria com a autora


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