• Paulo Vinicius

Resenha: "O Problema dos Três Corpos" (O Problema dos Três Corpos vol. 1)

Atualizado: 29 de Mai de 2019

A escolha de uma cientista chinesa durante a Revolução Cultural vai pôr toda a humanidade no alvo de forças além de nossa imaginação. E o que o jogo Três Corpos tem a ver com isso?

Sinopse:


China, final dos anos 1960. Enquanto o país inteiro está sendo devastado pela violência da Revolução Cultural, um pequeno grupo de astrofísicos, militares e engenheiros começa um projeto ultrassecreto envolvendo ondas sonoras e seres extraterrestres. Uma decisão tomada por um desses cientistas mudará para sempre o destino da humanidade e, cinquenta anos depois, uma civilização alienígena a beira do colapso planeja uma invasão. O problema dos três corpos é uma crônica da marcha humana em direção aos confins do universo. Uma clássica história de ficção científica, no melhor estilo de Arthur C. Clarke. Um jogo envolvente em que a humanidade tem tudo a perder.




A chegada de Cixin Liu ao Ocidente abriu os olhos de muitos ao enorme mercado de autores orientais. Um mercado que permanecia inexplorado talvez por culpa da necessidade de haver um investimento na tradução destes materiais. Liu consegue ser contemporâneo ao mesmo tempo em que rende homenagens a autores como Asimov e Clarke. Conseguindo empregar altas ideias o autor incorpora conceitos como singularidade, prótons de nove dimensões e outras tecnologias avançadas para criar uma história misteriosa e intrigante. 

Dá para sentir uma clara inspiração do autor vindo de Encontro com Rama. O mesmo estilo progressivo, empilhando mistérios um após o outro. Isso mantendo uma escrita simples e didática. Não me senti perdido em nenhum momento embora o livro seja claramente um hard scifi. Mesmo com os jargões técnicos aparecendo aqui e ali, o sentido geral da trama é bem mantido. Ao mesmo tempo somos capazes de entender o que está em jogo. Optando por capítulos curtos de forma a dar velocidade à narrativa, Liu constrói uma teia interligando ideias e pessoas. Quando chegamos ao final estamos completamente entregues ao livro. A narrativa é escrita em terceira pessoa a partir de dois pontos de vista: Ye Wenjie, uma cientista da Base Costa Vermelha que aparece no começo da narrativa e depois só retorna muito tempo depois e Xiao Wang, um professor que trabalha com nanofibras e vai ser os nossos olhos da história. 

Uma das minhas críticas não é nem em relação à escrita, mas à progressão narrativa. As coisas demoram muito a acontecer. O autor passa mais da metade do livro descrevendo os acontecimentos e as consequências da Revolução Cultural na China. São detalhes da narrativa que são importantes, porém eles são largamente explorados. Daria para reduzir um pouco esse trecho para se focar mais nos personagens. Chega a um ponto onde a história se torna muito factual e pouco progressiva. A gente fica sem saber para onde os personagens estão indo. Mas, quando o autor começa a amarrar as pontas, a história ganha um ritmo vertiginoso. Vamos percebendo o que está em jogo e tudo fica muito veloz. Os últimos 25% vão desenrolando os fios de mistério soltos ao longo de toda a narrativa. Ele conseguiu entregar uma história muito bem amarradinha. 

A Revolução Cultural é o ponto central deste primeiro livro. É ela que vai acabar desencadeando os acontecimentos na Base Costa Vermelha. Apesar de o autor falar ao final do livro que ele não teve intenções políticas ao pensar a narrativa, é impossível não ser parcial ao tratar desse período da História. Vimos o quanto o desenvolvimento científico foi prejudicado por ideologias políticas. Gênios foram tolhidos porque não seguiam princípios absurdos. Um governo ditatorial que queria imprimir uma forma de pensar obrigatoriamente a todos. Homogeneizar o pensamento. A cena do espancamento logo no começo do livro é de partir o coração. Mais para a frente vamos ver o quanto tudo isso vai se empilhando nos ombros de Ye Wenjie. 

"O universo não era desolador. Não era vazio. Era cheio de vida! A humanidade havia dirigido seu olhar para os confins do universo, mas não fazia ideia de que a vida inteligente já existia nas estrelas mais próximas da Terra."

Ela talvez seja a maior vítima de tudo o que aconteceu ao longo da história. Tudo o que ela desejava era uma vida serena e pacífica. E ela sempre era colocada no olho do furacão. O que ela vai acabar fazendo mais para a frente é fruto da falta de confiança adquirida com os erros das pessoas ao seu redor. Entendo que algumas das decisões feitas por ela são muito radicais, mas a gente vê esse tipo de presciência e sensibilidade em pessoas com sua inteligência. O pior de tudo é saber que a personagem passa por um ciclo de traições uma após a outra. Sua visão pessimista sobre a vida não tem fim. No alto de sua genialidade, ela não consegue encontrar uma saída para a raça humana. Fico curioso para saber quais os rumos que a personagem vai ter seguindo adiante. 

Wang acaba sendo os nossos olhos para o grande mistério que cerca a história. Essa parte da narrativa seguida por ele e Da Shi é muito interessante. Parece realmente uma história de detetive porque o personagem acaba precisando seguir as pistas encontradas por ele. O autor foi habilidoso em ora nos levar para uma direção,ora para outra. E a suspensão de descrença é destruída aos pouquinhos. O pano da realidade vai se desfazendo à medida em que vamos percebendo que existe algo mais no horizonte. O personagem segue tentando encontrar soluções lógicas até o momento em que não dá mais para fazer isso. O que está em jogo vai ficando maior progressivamente até aquele final arrebatador. Porque de certa forma a gente precisa saber como o mundo vai reagir diante de tal revelação. 

O jogo Três Corpos também é fascinante. Para quem considera estes capítulos inúteis, revejam seus conceitos. Eles são usados para demonstrar avanços científicos um a um e colocá-los diante de uma situação complexa. Vemos o método cartesiano, o confucionismo, o desenvolvimento da computação em série. Quando eu me dei conta disso logo na segunda entrada do jogo, achei de uma criatividade muito boa. Ao final a gente é capaz de entender por que uma determinada situação está do jeito que está. É como se o autor usasse essas entradas como uma forma de exemplificar as suas ideias. Me senti em uma sala de aula recebendo lições do professor Cixin Liu. Outro mérito do autor é conseguir mesclar ciência real com especulações exóticas. Quem não se policiar, vai realmente procurar determinados termos que ele emprega. 

“Ao abrir os olhos, viu o teto pouco nítido. Do lado de fora, as luzes da idade lançam um brilho fraco nas cortinas. Porém, teve companhia ao voltar à realidade: a contagem regressiva. Ela ainda pairava diante dos seus olhos. Os números eram finos, mas brilhavam muito, com uma luminosidade intensa. 1180:05:00, 1180:04:59, 1180:04:58, 1180:04:57.”

Só achei que ele não desenvolveu bem os seus personagens. Seu livro é guiado pela história e não pelos personagens. Ele coloca a narrativa na frente, em detrimento de um desenvolvimento maior do caráter de seus personagens. Não é que eu queira que a história seja toda voltada para o Wang e a Wenjie. Mas, se formos querer entender certas atitudes de ambos, precisamos saber para onde se dirige a sua forma de pensar. Acho que no próximo livro veremos isso mais profundamente. Já estou ansioso por pegar Floresta Sombria para comentar com vocês a continuidade da história. Vão me acompanhar nessa viagem?


Ficha Técnica:

Nome: O Problema dos Três Corpos Autor: Cixin Liu Série: O Problema dos Três Corpos vol. 1 Editora: Suma Gênero: Ficção Científica Tradutor: Leonardo Alves Número de Páginas: 320 Ano de Publicação: 2016


Outros Volumes:

A Floresta Sombria (vol. 2)

O Fim do Mundo (vol. 3)

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