• Paulo Vinicius

Resenha: "O Matrimônio de Céu e Inferno" de Eneias Tavares e Fred Rubim

Quatro trajetórias de vida vão colidir diretamente em uma narrativa em quadrinhos que adapta o clássico de William Blake, O Matrimônio de Céu e Inferno. Certamente, uma história maldita, mostrando um ser humano decadente e, quem sabe, uma fagulha de esperança no fim do túnel.

Sinopse:


Em 1792, o poeta e gravurista inglês William Blake contatou o demônio que lhe revelou o segredo da sabedoria infernal. Desse místico encontro nasceu o livro iluminado “O Matrimônio de Céu & Inferno”. Em 2019, na selva urbana de São Paulo, crime, desejo e redenção entrelaçam a vida de quatro personagens. Chico Amarante é um matador de aluguel a serviço de um poderoso conglomerado religioso. Verônica Viegas é uma acompanhante de luxo que sonha em voltar a Buenos Aires. Antonino Santos é o fundador da Orquestra Divina, uma organização espiritual que comercializa fé, esperança e livros sagrados. Dani Rosa é uma jovem pintora que trafica drogas para sobreviver e ajudar um amigo em estado terminal. No encontro de todos eles, um apocalíptico embate de revelação, poesia e morte. Misto de adaptação e história inédita, O Matrimônio de Céu & Inferno conta com roteiro de Enéias Tavares (Brasiliana Steampunk, Guanabara Real e Fantástico Brasileiro), arte de Fred Rubim (ilustrador das graphic novels A Canção do Cão Negro e Le Chevalier Na Montanhas da Loucura) e edição de luxo da editora AVEC. Com mais de noventa páginas de quadrinhos, notas de referência, extras de bastidores e paratextos de Cláudia Lemes, Octavio Aragão e Manuel Portela, esse volume infernal é um convite à abertura das Portas da Percepção!




Adaptações são sempre obras que exigem um largo conhecimento por parte do autor. Exigem a própria essência daquilo que o material adaptado queria dizer para os leitores. E, no caso de uma obra como Matrimônio de Céu e Inferno, de William Blake, um autor muito pouco conhecido no Brasil (uma pena mesmo), é preciso alguma coisa a mais para despertar o interesse do leitor. Eneias Tavares, um autor estudioso da obra do autor/pintor, fez um trabalho magistral aqui, ressignificando a obra, mas sem perder o que faz dela maldita e marcante. Isso sem falar no casamento entre o estilo infernal de Eneias e da pena angelical de Fred Rubim. Essa união produziu um resultado maravilhoso que me fez desejar mais coisas de Blake sendo trazidas para nós por essa dupla.


Vidas malditas que se cruzam em uma espiral de pecado


É óbvio que eu vou começar a falar sobre esta obra pelos personagens. Temos Verônica Viegas, uma prostituta de luxo que deseja acima de tudo juntar dinheiro para sair de São Paulo e voltar para Buenos Aires, para junto de sua família. Ela está prestes a conquistar essa façanha quando uma de suas associadas acaba sendo morta por espancamento por um de seus clientes regulares. Amarante é um leão de chácara, que se tornou assassino por vontade de seu empregador. De acertador de contas, ele passou a eliminar a concorrência do Maestro Santos. Este é um pastor criminoso, que engana seus fieis com falsas promessas de salvação enquanto é responsável pela Orquestra Divina, uma rede criminosa responsável por tráfico de drogas, extorsão, e um sem número de outros esquemas. Já Daniela Rosa é uma artista fracassada cuja inspiração se foi há muito tempo. Para ganhar uma grana, ela se envolveu com a venda de entorpecentes. Sua vida vai tomar um choque de realidade quando ela descobre que o seu amigo de infância, aquele que a apoiou nos seus momentos mais difíceis, irá morrer daqui a algum tempo. E tudo o que ele deseja é uma droga que permita que ele possa morrer em paz.

"Arte é uma mistura de concentração e desprendimento. No Brasil, esquece. Especialmente quando, desde criança, você tem de escutar as merdas dos familiares que não te ajudam em nada. Ou quando você quer comprar material e não tem dinheiro. Daí você tenta vender seu trampo e as pessoas não estão nem aí. É isso aí, mano, vida de artista é foda."

Os quatro personagens da trama funcionam como contrapartes um para o outro. São histórias distintas que se cruzam. Enquanto Verônica busca fugir de uma realidade dura, Santos deseja aproveitar ao máximo o seu status como maestro. Se por um lado Amarante se encontra indeciso e passivo diante daquilo que acontece a ele, Dani deseja apenas ajudar o seu amigo mesmo que isso a destrua por dentro. A narrativa blakeana adota uma estética tarantinesca que somente Eneias conseguiria fornecer a ela. A cada novo capítulo eu me sentia vendo novamente Pulp Fiction com algum personagem soltando uma daquelas frases sarcásticas em uma situação improvável. A maneira como Santos realiza a reunião de seus lacaios parece uma daquelas reuniões de empresas com slides sendo passados e demonstrando o ritmo de crescimento dos negócios. Santos realmente parece um maestro macabro, dando uma toada infernal aos seus demônios.

Entre os capítulos temos excertos de Matrimônio de Céu e Inferno. O autor consegue fazer com que eles sejam coerentes com os atos da história. A narrativa segue em um crescendo da decadência até chegar a um apocalipse generalizado onde apenas poucos irão sobreviver intactos a esse conflito mortal. Toda a sequência final é incrível com sangue e vísceras voando por toda a parte. Seguindo as referências pulp e tarantinescas de Eneias Tavares, vai agradar aos fãs de Kill Bill. Não vou estragar a cena, mas fica aqui os meus aplausos para o autor e para o artista que conseguiram criar algo épico para o final.


A arte ligada ao método


Essa já é a terceira obra que eu vejo a arte do Fred Rubim e só tenho a dizer o quanto a arte dele evoluiu. Tendo a difícil missão de adaptar a obra de Blake ao mesmo tempo em que criava verdadeiros quadros a partir de pinturas do autor clássico, Rubim conseguiu impor sentimentos às cenas. Os personagens são muito estilizados com características bem específicas como tatuagens ou estilos distintos de roupas ou cabelo. Alguns enquadramentos criados por Fred são lindos como os trechos finais com quadros inclinados ou vários momentos com 9 ou 11 quadros em tela que obrigavam o autor a se preocupar muito com cada quadro individualmente. Não só isso: temos muitos easter eggs de cultura pop inseridos nesse quadro. Eneias soube usar a habilidade do artista de criar fundos muito detalhados para dar personalidade às cenas.

" - Ezequiel! Traga a puta!
- A puta já está aqui!"

Mas, se eu posso falar de arte espetacular, eu tenho que mencionar os inícios de cada capítulo. Em cada um deles, Fred buscou recriar uma pintura ou passagem de Blake. Seja o método de impressão infernal ou o trecho Fantasia Memorável em que a arte de Rubim brilha pelo cenário. Preciso dar o braço a torcer e dizer que estes quadros estão magníficos. Digo isso porque eu tendo a achar a arte do Fred muito estilizada e em um padrão que não me agrada 100%, mas aqui... caramba. Fantasia Memorável é de longe o meu trecho favorito onde Eneias e Rubim nos contam a história da queda do Anjo da Razão Devoradora sendo empurrado pelo Demônio da Energia Prolífera. A gente vê claramente a história acontecendo, com direito a um enorme leviatã desenhado na primeira página. A Casa de Impressão Infernal é outro trecho digno de nota com o passo-a-passo do método blakeano. As placas de cobre são nitidamente apresentadas e parece até um método verossímil.

Outro ponto que eu gosto de mencionar na arte do Fred é em como ele sabe usar muito bem as cores. Elas chamam a atenção e denotam trechos da narrativa. No começo o artista emprega muito o laranja e o vermelho demonstrando os planos infernais para corromper o homem. Santos sempre aparecendo em um fundo azul escuro ou mais puxado para o preto e seus agentes do caos sendo silhuetas pelo cenário. Mais para o final as cores vão clareando passando sutilmente para tons pastéis significando uma temática salvífica e de redenção para os personagens. Essa manipulação das cores permanece coerente com o que Eneias trazia nos roteiros. Portanto, como eu brinquei no começo, talvez esse seja o maior simbolismo do Matrimônio de Céu e Inferno (uma arte angelical aliado a um roteiro infernal). E isso é maravilhoso.


A escrita do Eneias está magnífica aqui. Como vocês podem perceber nos pequenos trechos que eu coloquei nesta resenha, as palavras estão ferinas e irônicas. O autor consegue passar do poético ao devasso em instantes. E é essa escrita poética repleta da personalidade de Eneias que me faz abrir um sorriso no rosto toda vez que eu vejo uma passagem interessante ou curiosa. Os diálogos são tão bons que basta eu abrir a HQ em qualquer página aleatória que eu sou capaz de tirar uma boa citação. Não só isso como houve também a preocupação em dar individualidade aos personagens. Então cada um deles possui sua fala estilizada.

"Algo que aprendi cedo é o poder das histórias para moldar a mente. Dê ao povo uma infância sofrida e metade do serviço está feito. No negócio da fé é importante conhecer o poder da palavra. Não a de Deus, mas a do marketing."

Ao lado disso a edição da AVEC está luxuosa e vai agradar aos fãs de quadrinhos. Ela segue com uma jacket em papel brilhoso, a parte interna está em capa dura com uma imagem minimalista, mas que diz para o que o quadrinho veio. Temos dois prefácios: um da Cláudia Lemes (que vale ser lido... outra autora que eu adoro ver sua escrita infernal) e outro do Octávio Aragão, uma lenda no universo dos quadrinhos. Ao final temos mais textos de apoio, um do Eneias mostrando um pouco dos easter eggs espalhados pelas página e um do Manuel Portela falando sobre a comunhão da escrita de Eneias e da arte de Fred ao mesmo tempo em que tece comentários sobre como a escrita de Blake permeia a história criada pela dupla. Mais valioso ainda se encontra no final com Eneias colocando sua escaleta para estudos e Fred nos apresentando seus sketches.


Eu poderia falar a noite toda sobre diversos temas colocados no quadrinho que eu não esgotaria. Possivelmente é uma HQ que vai estar no meu top 10 no final do ano dada a sua qualidade. Parabenizo a dupla autor e artista por nos entregar uma obra de arte e a editora por apostar em algo tão grandioso quanto foi esse título. Só sou elogios e isso demonstra o quanto eu fui impactado pela narrativa gráfica.


Ficha Técnica:


Nome: O Matrimônio de Céu e Inferno

Autor: Enéias Tavares

Artista: Fred Rubim

Editora: AVEC Editora

Gênero: Fantasia/Thriller

Número de Páginas: 128

Ano de Publicação: 2019


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*Material enviado em parceria com a AVEC Editora


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