• Paulo Vinicius

Resenha: "O Fantasma da Máquina" de Gabriela S. Nascimento

Alex é uma Laika: um tipo de robô semelhante aos seres humanos. Ela foi contratada para ficar ao lado de Kris, um menino que tem problemas para lidar com outras pessoas. Alex é sua única amiga. Mas, subitamente, Kris se suicida e Alex precisa lidar com as consequências disso.



Sinopse: Alex está viva.

Ela ainda não sabe disso, mas é só uma questão de tempo…


NOVO MODELO DE ANDROIDE NO MERCADO!

Apesar da função exclusiva de robôs de companhia, a verdade é que existe pouca coisa que os Laikas não possam fazer. Tudo depende, é claro, da vontade do dono — são completamente confiáveis e obedientes! Têm plena capacidade de realizar qualquer atividade humana, mas, acredite se quiser, muitos veem isso como um problema. São "reais" demais. Esqueçam isso! A melhor tática é parar de pensar no que um Laika pode fazer, vamos mudar a questão: o que você faria com um Laika?


Alex está aqui para responder! Ela não sabe o que fazer consigo mesma. Tem certeza de que alguma coisa mudou em sua programação quando viu o melhor amigo se matar no Parque da Melancolia, mas o quê? Não parece ser um simples defeito. Essa dúvida guia seus passos por toda a ilha de Aurora, procurando respostas para perguntas que não deveriam existir.




O que faz de uma pessoa senciente? O que nos dá uma alma? Vários autores de ficção científica como Isaac Asimov e Brian Aldiss já se debruçaram sobre esta pergunta para falar de robôs e se eles poderiam ou não ter uma consciência humanas. Gabriela S. Nascimento vai trabalhar esta pergunta, mas sob um outro ponto de vista. Vamos ao lado de sua protagonista Alex descobrir o que faz dela tão diferente de outros robôs do mesmo modelo. O que faz dela um indivíduo, se é que robôs podem ser enxergados como indivíduos.


O que sou eu?


Logo no início da narrativa Alex é colocada diante de um dilema. Ela presencia o suicídio da pessoa a quem ela foi incumbida de acompanhar. Às portas da morte, Kris desperta em Alex o desejo de viver. Presenciamos em seu dono a angústia que cada dia significava e seu suicídio não é nenhuma surpresa. Sua fobia social era bem grave e, inicialmente, eu imaginei que a história seria sobre a relação dos dois. A autora nos dá uma rasteira logo nas primeiras páginas e tira o nosso chão completamente. Ela emprega um recurso de escrita que é lindo, e acaba se encaixando muito bem com a sua proposta. O narrador da história é Kris, que tinha acabado de se suicidar. Ele vai nos acompanhar até o final da história, relacionando suas experiências com as de Alex e contando um pouco sobre o pouco tempo que ele e a robô tiveram juntos. Um recurso semelhante ao que Markus Zuzak usa em A Menina que Roubava Livros. Kudos total para a autora por escolher esse tipo de narração.


Podemos dizer que a odisseia de Alex é quase como um conto de fadas porque ela precisa superar obstáculos para conseguir chegar ao final e descobrir quem ela é. Essa abordagem em trios se passa em três momentos distintos: ao lado de Ana, no Pinóquio e depois ao lado de Júlia. Para mim, o momento com a dra Borges já é um encerramento e eu não incluo necessariamente nesse trio de obstáculos. Quando Alex chega para ficar com Ana e Elias, temos uma personagem confusa sobre o que fazer. Ela comete uma ação terrível que a coloca em fuga e ela não entende por que está correndo. Qualquer robô apenas esperaria para ser reprogramada ou reciclada. Surge nela uma estranha vontade de viver. É com essa mentalidade que ela segue rumo a outro lugar. Mas, quando ela chega lá, sua cabeça é muito infantil e inocente. Ela não sabe o que fazer com sua súbita liberdade. Para alguém que nunca havia experienciado o mundo, tudo parece ser muito grande. E Ana percebe isto na personagem. Ao tentar tomar as decisões por ela, Ana retira novamente a liberdade de Alex. O que vamos ver é o livre-arbítrio sendo desenvolvido nela. Mas, peraí.... robôs tem programação ou livre-arbítrio?


" - Você não come, não bebe, não dorme. Mas você chora. É nessas horas que descobrimos o que realmente é necessário para sobreviver."

A autora não vai se debruçar muito em determinados meandros e especificidades da história. O que eu achei uma pena porque tira um pouco da amplitude do que ela poderia conseguir. Por exemplo, a gente entende que os Tristonhos estão em busca de uma suposta liberdade. Mas, não fica bem claro que liberdade é essa. Seria uma igualdade social? Seria uma revolta por espaços iguais? O que eu entendi dos Tristonhos é algo mais filosófico e tem a ver com a personalidade de Ana. Por ter deixado alguém para trás, a personagem ficou com remorso. Este remorso se transformou em algo além. O estar lutando por algo acabou por perder a importância com o tempo e tudo o que ela desejava era voltar para casa. A máscara representava apenas o que a personagem sentia em seu interior.



Quem sou eu?


O momento no Pinóquio significa a busca da personagem em entender qual é o seu lugar no mundo. Para isso ela precisa descobrir que está viva. E ao se colocar buscando alguém que compartilhe dos mesmos desejos e anseios que ela mesma, ela embarca em uma jornada que, por mais infrutífera que seja o resultado final, a ajuda a crescer. Nem sempre encontrar pessoas iguais vai nos ajudar a entender a nós mesmos. Se somos indivíduos, não devemos buscar a homogeneidade, mas a diferença. É nessa diferença que está a faísca de vida que Alex tanto necessita. É muito legal perceber que a autora solta pequenos easter eggs sobre aonde ela quer chegar. Seja na ideia de uma boneca que queria ter vida ou em um lugar chamado Pinóquio. Afinal, se formos pensar, este é o grande tema da história. Se a personagem vai conseguir isso ou não já é algo completamente diferente.


"Ela era capaz de sentir alguma coisa ou tudo aquilo se tratava apenas de um erro de sistema ou programa adormecido até então?"

A ideia de inserir poucos personagens secundários na narrativa tem a ver com a própria dificuldade de Kris e de Alex de se relacionar com os outros. Achei isso coerente e distinto. Tem até alguns momentos no Pinóquio em que percebemos a personagem lutar contra si mesma para poder falar com um grande número de pessoas. Mas, por outro lado, senti falta de um trabalho maior com os personagens. Como o narrador era onisciente, era possível caracterizar e aprofundar melhor os mesmos. Isso em um sentido de dar a eles plots a serem resolvidos. Alguns destes plots apenas ficam no ar, abrindo espaço para o leitor formular suas próprias ideias sobre o que aconteceu a eles. Quase no final, Gabriela até dá algumas dicas sobre o que aconteceu com eles, mas nesse momento eu já estava em um sentimento de fechamento e não queria saber tanto sobre eles.


Quando é que percebemos que estamos vivos? Quantos de nós já não nos perguntamos se isso é um sonho ou é real? Tem todo um momento da trajetória de Alex que não sabemos se aconteceu ou se se tratou de um erro de configuração. A autora aproveita para colocar mais uma dúvida em nossa cabeça: robôs podem sonhar? Em momentos quase oníricos, Alex desperta a percepção sobre si. Entender sua própria existência no mundo a partir do óbvio: o que eu vejo no espelho é um objeto ou uma pessoa? Então pouco a pouco a personagem vai se dando conta de que a individualidade é formada por nossas ações no mundo que nos cerca. São as experiências que vivenciamos que nos torna mais reais. Ela nos difere uns dos outros.




Para um romance de estréia, O Fantasma da Máquina é acima da média. Tem alguns problemas aqui ou ali, mas a obra se supera ao nos propor questionamentos. A escrita da autora tem uma leveza e suavidade incrível. As páginas passam como o vento passando em nossos rostos ou o som de folhas farfalhando ao fundo. Dá para você ler o romance com aquelas músicas de documentário sobre a natureza ao fundo apenas para dar vazão ao momento. Eu gostei muito do romance, e a Gabriela me trouxe de volta o prazer de ler uma boa ficção científica, daquelas reflexivas, escritas por um autor nacional. Termino a minha resenha com esta citação linda:


" - Eu li um livro uma vez, sobre um viajante do espaço que passa a vida procurando uma caixa com todos os segredos do universo em montanhas feitas de pó de mundos distantes, só para se dar conta de que ela estava enterrada no quintal da própria casa."



Ficha Técnica:


Nome: O Fantasma da Máquina

Autora: Gabriela S. Nascimento

Editora: Plutão Livros

Gênero: Ficção Científica

Número de Páginas: 202

Ano de Publicação: 2019


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