• Paulo Vinicius

Resenha: "O Dezoito de Escorpião" de Alexey Dodsworth

Uma série de indivíduos com habilidades perigosas começam a aparecer por toda a parte. O doutor Ravi Chandrasekhar começa a reuni-los de forma a ajudar com os seus problemas. Mas, será que existe alguma coisa por trás dessas boas intenções? E o que é Muhipu? 

Sinopse:


Fim do século XX. Um astrofísico brasileiro descobre que uma pálida estrela da Constelação do Escorpião é uma gêmea perfeita de nosso Sol. Segunda década do século XXI. Vários adolescentes brasileiros entram em surto psicótico ao mesmo tempo, durante uma explosão solar. Como podem eventos tão distintos ameaçar um mesmo segredo? De que forma esses fatos podem afetar uma vila no coração da selva? A Vila Muhipu, resguardada por índios da etnia Tukano, é um paraíso onde o sofrimento não passa de lembrança. Uma utopia que deve ser mantida escondida a todo custo, e o doutor Ravi Chandrasekhar não poupará esforços nesse sentido. Em Dezoito de Escorpião, Alexey Dodsworth (de O Esplendor) se apropria de fatos científicos reais e os recria, compondo uma trama que se debruça sobre a mais intrigante questão: estamos sós no Universo? Descubra por sua conta e risco.




Antes de mais nada quero agradecer ao Alexey Dodsworth por ter enviado gentilmente o seu trabalho para que eu pudesse ler e dar minha opinião sobre o mesmo.

​A boa e velha história sobre adolescentes e adultos com super poderes que aparecem subitamente já foi tentada inúmeras vezes por diversos autores. Mas, como todo e qualquer clichê, não é o tema em si que importa, mas a maneira como o autor se apropria dele para criar algo único. E, mais uma vez, Alexey Dodsworth consegue me encantar com uma história da mais pura ficção científica feita corretamente e instigando o leitor a prosseguir em suas páginas. 

Desde o ano passado que eu curti demais O Esplendor, o trabalho de Dodsworth entrou no meu radar. Isso porque já se tornou raro no Brasil autores que se dedicam a escrever esse tipo de gênero. Não apenas isso, mas escrever boas histórias de ficção científica. Alguns podem ficar intimidados diante da escrita bem cientifica do autor que confunde em um primeiro momento. Porém, a minha sugestão é: persista na narrativa. A escrita dele é bem abrangente e explicativa, nem sempre explicando da maneira mais simples, mas sempre expondo de uma maneira elucidativa o que ele pretende realizar na história. Hard Scifi, ou ficção científica dura, é assim: desafia o leitor a queimar um pouco os neurônios para contar uma boa história. Com uma narrativa feita em terceira pessoa, o autor vai e volta na narrativa de forma a nos apresentar todos os ângulos daquilo que está acontecendo. Então é bem comum os flashforwards e flashbacks, onde elementos narrativos são expostos pouco a pouco ao leitor permitindo que ele vá construindo os blocos que compõem a história principal. 

Temos três partes distintas e bem delineadas em O Dezoito de Escorpião. Na primeira parte, o autor vai nos apresentando o mundo em que ele vai colocar sua história e os diversos personagens que a compõem. Como alguns capítulos são bem curtinhos, esse primeiro trecho se parece com uma sequência de vignettes, onde as cenas se passam e em como o doutor Ravi é o elemento comum em todas elas. A segunda parte é um pouco mais expositiva onde vemos o lugar onde os Eleitos ficam e como Artur vai se acostumar à sua nova condição. Os capítulos são um pouco mais longos e vários trechos são bem descritivos. Acho que é na segunda parte onde a gente começa a enxergar qual é o objetivo final do autor. Já na terceira parte somos colocados diante de um conflito que os personagens acabam precisando resolver. Temos o surgimento de um "vilão" que nem chega a ser um "vilão" e um encaminhamento para uma resolução dos conflitos. 

"Quando um cientista distinto, mas idoso, declara que algo é possível, ele quase certamente tem razão; quando ele afirma que algo é impossível, é bem provável que ele esteja errado."

O Dezoito de Escorpião tem algumas conexões com O Esplendor e é muito bacana para os leitores explorarem os dois trabalhos sem seguir nenhuma ordem em particular. Aliás, não é sequer obrigatório que vocês leiam os dois trabalhos já que eles são auto-contidos em si. Os detalhes de narrativa são bem sutis como os sonhos de Laura, a presença de um Chandrasekhar e a própria ideia de quem é Ravi são explorados em ambos os trabalhos. Isso demonstra o quanto o autor imaginou o seu universo como interligado sem ser algo forçado. Asimov fazia isso em sua série Fundação e em sua série Os Robôs. E ninguém dispôs uma ordem dracônica de leitura. 

Podemos falar em dois personagens básicos que comandam temas principais na história: Ravi e Artur. Ravi deseja proteger os seus Eleitos de todas as maneiras possíveis. Seu ideal é o do absoluto controle, imaginando todos os cenários possíveis e tomando todas as medidas para alcançar aquele que será o melhor. Entretanto, sabemos que um ideal de controle absoluto não passa de uma prisão disfarçada de boas intenções. Se perguntarmos aos dirigentes do mundo em 1984, de George Orwell, eles dirão que suas intenções são as melhores. No entanto, a ausência de liberdade está premente ali. Além disso, determinados melhores cenários nem sempre são alcançados através de uma linha reta. Em alguns casos, o caos é um pouco necessário para se chegar a um lugar melhor. E o caos não pode ser previsto. Ele acontece. É como tentar prever um cenário apocalíptico que só aconteceria em 0,00001% dos casos... e ele de repente acontece. Quando Ravi se dá conta de o quanto suas projeções não dariam certo é tarde demais para tentar algo diferente. 

Já Artur é um homem curioso por natureza. Como todo bom historiador e sociólogo, ele busca respostas para perguntas que quase sempre levam a buracos na argumentação de pessoas ditas "perfeitas demais". O mundo de Artur fica de cabeça para baixo quando uma tragédia acontece e Ravi aparece com uma solução a seu problema. Mas, a curiosidade de Artur acaba levando-o a questionar o status quo. Vemos que no fundo, Artur é um homem altruísta. E é esse altruísmo que não se encaixa dentro dos dados precisos de Ravi. Para este, os fins justificam os meios empregados. Mesmo que algumas tragédias aconteçam de forma a alcançar um fim melhor. Já Artur não pensa dessa forma. Essa discordância de filosofias vai nos levar até a terceira parte onde as duas mentes entram em conflito. 

"A única maneira de descobrir os limites do possível é se aventurar um pouco adiante do impossível."

Esta é apenas a ponta do iceberg de temas presentes em O Dezoito de Escorpião. Eu sequer toquei no sofrimento vivido por Laura, na psicose de Lionel. O livro é riquíssimo em temáticas e daria para realizarmos diversas discussões a respeito dele. A narrativa misturando fatos reais com as pitadas de ficção científica criadas por Dodsworth tornam tudo ainda melhor. Tenho certeza que muitos de vocês vão querer pesquisar algumas das informações repassadas pelo autor. O assassino Dahmer, as informações sobre pesquisas de manipulação da mente entre outras. Achei que o autor foi muito feliz ao realizar essa mescla. Dá um ar de "realismo" e pés no chão a uma história de ficção científica. Como Andy Weir faz em Perdido em Marte. Existe um charme nesse tipo de histórias. 

Minha discordância em relação à narrativa é fruto muito mais de uma preferência em relação ao que eu li do que a uma falha. Os trechos de flashback do Lionel eu teria introduzido na segunda parte ao invés de na terceira. Isso porque seria possível criar uma tensão ou uma antecipação quanto ao que Lionel poderia causar naquela comunidade. Já alguns trechos mais expositivos no final da segunda parte poderiam ser deslocados mais para a frente sem causar prejuízo.

Mais um livro lido de Dodsworth, mais um título sensacional. É bom saber que ainda temos boas histórias de ficção científica sendo produzidas no Brasil. Esse é mais um daqueles títulos obrigatórios para quem é verdadeiramente fã do gênero. E já se tornou quase obrigatório para mim ler um título dele todos os anos para que ele possa sempre entrar na minha lista de melhores do ano. 


Ficha Técnica:

Nome: O Dezoito de Escorpião Autor: Alexey Dodsworth Editora: Draco Gênero: Ficção Científica Número de Páginas: 324 Ano de Lançamento: 2016

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*Material enviado em parceria com o autor


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