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O Ficções Humanas é um blog literário sobre fantasia e ficção científica.

  • Paulo Vinicius

Resenha: "O Castelo das Águias" (Athelgard vol. 1) de Ana Lúcia Merege

Anna de Bryke acaba de chegar ao Castelo das Águias para iniciar sua carreira como Mestra das Sagas. Mas, ela vai conhecer as dificuldades de se adaptar a um lugar muito diferente de sua saudosa Floresta dos Teixos.

Sinopse:


O Castelo das Águias, romance fantástico de Ana Lúcia Merege, é um lugar especial. Localizado nas Terras Férteis de Athelgard, região habitada por homens e elfos, abriga uma surpreendente Escola de Magia, onde os aprendizes devem se iniciar nas artes dos bardos e dos saltimbancos antes de qualquer encanto ou ritual. Apesar de sua juventude, Anna de Bryke aceita o desafio de se tornar a nova Mestra de Sagas do Castelo. Aprende os princípios da Magia da Forma e do Pensamento e tem a oportunidade de conhecer pessoas como o idealizador da Escola, Mestre Camdell; Urien, o professor de Música; Lara, uma maga frágil e enigmática, e o austero Kieran de Scyllix, o guardião das águias que mantêm um forte elo místico com os moradores do Castelo. Enquanto se habitua à nova vida e descobre em Kieran um poço de sentimentos confusos e turbulentos, uma exigência do Conselho de Guerra das Terras Férteis põe em risco a vida e a liberdade das águias. Com o apoio de Kieran, Anna lutará para preservá-las, desvendando uma trama de conspiração e segredos que envolvem importantes magos do Castelo.




Uma das qualidades de um bom livro é saber criar um mundo cativante, apresentando-o de uma forma atrativa ao leitor. A arte de contar histórias envolve encantar o leitor, envolvendo os seus cinco sentidos para fazê-lo sentir o ambiente ao seu redor. Essa é a proposta de Ana Lúcia Merege, não apenas uma autora, mas uma contadora de histórias que nos introduz seu mundo de Athelgard pelos olhos de Anna de Bryke.

Posso dizer de cara que o que mais me surpreendeu na leitura de O Castelo das Águias foi a construção de mundo. O leitor consegue sentir a veia RPGística da autora com um cenário tradicional de fantasia, apesar de ela colocar o toque dela aqui ou ali. Athelgard é um mundo enorme e nesse primeiro volume conhecemos apenas a pontinha do iceberg que nos aguarda em outras histórias. O mérito da autora está em nos apresentar o seu universo literário, mas sempre deixando margem para incluir inúmeras outras coisas. Quando eu estava acompanhando a história eu me encantava com as descrições dos lugares, dos hábitos e dos costumes e quando eu terminei a história, decidi olhar o mapa. Quando me dei conta de que tudo aquilo que eu tinha visto na história se passava em alguns poucos lugares, e que havia ainda muito mais por vir fiquei absolutamente abismado com o tanto de informação que a autora passou e o quão pouco isso representa dentro de todos os lugares do mundo.

Há toda uma riqueza nas descrições. Ficamos sabendo das tradições locais, somos apresentados a algumas festividades e até como cada cultura entende a do próximo (alteridade). Por exemplo, a maneira como os elfos enxergam os humanos ou até as hierarquias dentro da sociedade élfica. Ou como a cultura do norte entende os elfos que não é a mesma que a cultura do oeste. São pequenas sutilezas que apenas o leitor mais atento vai perceber. Apesar de a trama ser bem simples e direta, nada em O Castelo das Águias é simples. Existe mais sendo dito nas entrelinhas. Não significa que ao final da história nós saberemos tudo sobre Athelgard, mas certamente chegaremos ao segundo volume da série com mais informações. Embora isso não tire a possibilidade da autora nos maravilhar com alguma surpresa escondida.

Os golpes e movimentos eram agora menos artísticos, e percebi que Vergena evitava os olhos do Mestre. Ele, ao contrário, tentava fazer com que a elfa o olhasse de frente, e numa dessas manobras seu olhar se encontrou como o meu. Foi rápido como clarão, mas muito intenso, e eu senti todo o meu sangue subir de uma vez às faces."

Ao mesmo tempo em que a construção de mundo é o ponto mais alto de O Castelo das Águias, ele também é sua vulnerabilidade. É como uma espada de Dâmocles capaz de oferecer força, mas também pontos fracos. São muitas informações colocadas para o leitor em um curto espaço de tempo. Apesar de a autora ter conseguido usar algumas estratégias muito eficientes para superar o info dumping, ele está ali. Aliás, fica a dica para autores que desejam encontrar tais estratégias em suas histórias. Vou citar duas que achei muito bacanas: quando Anna chega ao Castelo das Águias, um dos professores apresenta a escola para a personagem, tecendo alguns comentários a respeito; outro ponto interessante é quando Anna está dando aulas e ensinando um pouco da mitologia do mundo para os alunos. São duas maneiras simples, porém eficientes. E não cansam tanto o leitor que entende que aquilo faz parte da história. A primeira estratégia além de apresentar o castelo para a protagonista, mostra ao leitor como o lugar de onde Anna veio é muito diferente em relação ao clima cosmopolita do castelo; já a segunda se trata da maneira como Anna consegue se relacionar com seus alunos e até como a sua forma de ensinar é diferente do padrão dos demais. Apesar disso tudo, ainda senti que muito da narrativa acabou precisando ceder espaço à construção de mundo. E isso era algo inevitável: a autora precisava fazer essa construção, ou seja, estabelecer essas fundações para que em outros volumes ela não precisasse fazer isso.

"- Não sou princesa nenhuma! - repliquei, esquivando-me ao toque grosseiro. - Nem dançarina, aliás. Sou Anna de Bryke, mestra de sagas... e professora da Escola de Artes Mágicas." 

Nem sempre é necessário criar uma narrativa destruidora de universos para se criar uma história competente. Em O Castelo das Águias, a autora nos coloca no meio de uma disputa de duas cidades pela posse de águias guerreiras, animais usados no combate no universo de Athelgard. E é isso. Não temos a deformação de universos, o aparecimento de uma singularidade, uma magia proibida, nada disso. A trama não podia ser mais direta. E mesmo assim a história é muito boa. Não é o escopo de uma narrativa que a torna inesquecível, mas a forma como ela é contada. Por isso que eu vou sempre me referir à Ana Lúcia não só como uma autora, para mim ela é uma contadora de histórias (uma storyteller). Porque ela vai nos encantando com suas histórias e pouco a pouco vamos sendo enredados em sua narrativa até o ponto em que já estamos tão presos que não somos capazes de parar até terminar. Uma sensação semelhante a essa eu senti quando li Os Portões do Inferno, escrito pelo André Gordirro. Uma história absolutamente simples de enfrentar um ser maligno, mas conduzido com tanta eficiência que nos esquecemos disso.

Vale também colocar o emprego de uma barda como protagonista. Pronto... vou fazer uma blasfêmia para aqueles que gostam do livro... mas, fala sério. Que Kvothe, que nada. Sou mais Anna de Bryke. Sim, o público-alvo da Ana Lúcia é diferente do público do Rothfuss. Sim, com certeza. O espaço dado ao personagem é infinitamente maior? Com certeza. Mas, acho que em pouco mais de 180 páginas, a autora conseguiu construir uma personagem credível, com suas forças e fraquezas, dilemas e inseguranças, capazes de fornecer alguém sólido o suficiente para carregar a narrativa nas costas. Não temos uma personagem incrivelmente poderosa, filha de um semideus, nem nada do gênero: Anna é uma mestra de sagas que procura resolver os problemas com sua inteligência e perspicácia. Em diversos momentos ela se encontrou em perigo e não descobriu que era capaz de se tornar um dragão, ou era capaz de disparar raios elementares das mãos. Ela precisou do apoio de seus aliados, feitos ao longo da história para poder se sair de uma enrascada. Ou até mesmo contar com um pouco de sorte.


Só achei que a narrativa poderia ter ficado melhor se tivesse sido escrita em terceira pessoa. Achei que a narrativa em primeira pessoa acabou limitando um pouco as possibilidades de apresentar outros pontos de vista. Senti que a autora quis aprofundar um pouco mais os personagens, mas este acabou precisando ficar um pouco de lado para poder se focar nas aventuras da protagonista. Como a narrativa pertencia a ela, o leitor era conduzido por aquilo que ela via e depreendia. Há muito mais a ser explorado nas demais histórias, mas senti que isso pesou um pouco tanto na escrita final (tá... admito... sou chato com narrativas em primeira pessoa...insuportável mesmo) quanto no desenvolvimento dos personagens. Entretanto, senti que alguns personagens receberam bastante atenção e parecem ter muito mais a oferecer posteriormente como o Kieran e até mesmo o Doron.

"Ia dar meia volta quando um estande, solitário junto à lateral do templo, me atraiu de um jeito irresistível. Livros!"

Enfim, para quem está procurando uma boa história de fantasia, o livro de Ana Lúcia Merege é um prato cheio com ação, romance e muita aventura. Uma construção de mundo impecável que só tende a melhorar em futuras edições tornam a narrativa riquíssima em detalhes. Temos também uma personagem extremamente credível e que precisa lidar com suas limitações para solucionar os problemas com inteligência. Nas próximas edições quero poder conhecer mais dos outros personagens e tenho certeza que continuarei a ser encantado pela pena da autora.


Ficha Técnica:


Nome: O Castelo das Águias

Autora: Ana Lúcia Merege

Série: Athelgard vol. 1

Editora: Draco

Gênero: Fantasia

Número de Páginas: 192

Ano de Publicação: 2011


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