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Resenha: "O Bebê de Rosemary" de Ira Levin

Neste livro de terror clássico da década de 1960, vemos o drama de Rosemary, uma mulher que se muda para um lindo prédio junto de seu marido Guy e se vê envolvida com uma obscura seita satânica.

Sinopse:


Rosemary Woodhouse e seu marido Guy, um ator que luta para se firmar na carreira, mudam-se para um dos endereços mais disputados de Nova York, o Bramford, um edifício antigo de ares vitorianos, habitado em sua maioria por moradores idosos e célebre por uma reputação algo macabra de incidentes misteriosos ao longo da história. Sem demora, os novos vizinhos, Roman e Minnie Castevet, vêm dar boas-vindas aos Woodhouse. Apesar das reservas de Rosemary com relação a seus hábitos excêntricos e aos barulhos estranhos que ouve à noite, o casal idoso logo passa a ser uma presença constante em suas vidas, especialmente na de Guy. Tudo parece ir de vento em popa. Guy consegue um ótimo papel na Broadway, e novas oportunidades não param de surgir par a ele. Rosemary engravida, e os Castevets passam a tratá-la com atenção especial. Mas, à medida que a gestação evolui e parece deixá-la mais frágil, Rosemary começa a suspeitar que as coisas não são o que parecem ser... Em 1969, O bebê de Rosemary, fenômeno aclamado por público e crítica, foi adaptado para o cinema em uma produção que se tornou um clássico do terror, estrelada por Mia Farrow e Roman Polanski. Em 2014, a força da história sinistra de Rosemary e seu bebê chegou à TV americana, em uma elogiada minissérie estrelada por Zoe Saldana.






Livros clássicos de terror são famosos por serem capazes de construir uma atmosfera de terror. Conduzir o leitor através de suas páginas até uma situação terrível, envolvendo-nos em uma trama diabólica capaz de destruir nossa força de vontade e nossa sanidade. Em O Bebê de Rosemary, Ira Levin mostra justamente isso: uma trama que vai se construindo progressivamente até chegar ao ponto de impacto e nos conduzir ao momento do pavor.

Este é um livro escrito em terceira pessoa, mas acompanhando de perto a vida de Rosemary Woodhouse, nossa protagonista. O medo é construído ao longo das páginas, apresentando situações e plantando sementes de dúvida na mente do leitor. Lentamente vamos montando as peças até chegarmos às grandes revelações no final da história. Alguns leitores podem discordar, mas eu achei a escrita o ponto mais fraco do livro. Não que a escrita seja ruim, mas eu a achei preguiçosa para um livro de terror. Em alguns momentos parecia que eu estava assistindo a um episódio de Scooby-Doo em que o narrador precisa mostrar todo o plano maligno para que o leitor pudesse entender exatamente o que estava acontecendo. Rosemary funciona como o personagem-orelha, mas ao mesmo tempo me parece que o autor foi didático demais. Muitos dos elementos para compor nossas conclusões acerca do que se passava ao redor da protagonista, o leitor já era capaz de deduzir a partir de várias pequenas pistas deixadas ao longo da história. Tem dois capítulos na segunda parte que são gastos para que Ira explique detalhe por detalhe do que aconteceu até aquele momento.

Outro ponto que me deixou um pouco entristecido é que o livro não envelheceu bem. O estilo de escrita é clássico demais. Por exemplo,Lovecraft escreveu na década de 1930, mas seus contos são atemporais. Você não é capaz de datá-los... nem a escrita dele consegue ser datada. Aqui é fácil perceber algumas construções típicas do período em que foi escrito. Para um livro de terror, isso tira um pouco do impacto em determinadas cenas. A clássica cena no final é muito boa, mas o crescendo até chegar lá é muito regular. O leitor acaba acelerando a leitura porque quer ver logo a cena no final, não porque a história está interessante.

Se a escrita é o ponto fraco, os personagens são o ponto alto. Claro que, em uma história de terror, o autor precisa saber fazer uma construção adequada de personagens. Caso contrário não somos capazes de nos engajarmos na história. A protagonista é construída de uma forma muito respeitosa. Gostei da maneira como Rosemary não é aquela típica mulher de livros de terror: boba, submissa. Muito pelo contrário; ela procura ser decidida em certos momentos apesar de toda a trama que se desenrola ao seu redor. Algumas partes a gente pode questionar, mas faz parte da construção da própria personagem. O marido parece não importar no começo, mas aos poucos ele vai se tornando importante para a história e vamos percebendo o quanto a sua influência (ou falta dela) contribui para tudo aquilo que acontece à personagem.

Os outros personagens de apoio também são muito bons. E o curioso é que em vários momentos chegamos realmente a duvidar da sanidade da Rosemary. Isso porque, apesar de todo o estranhamento da fixação das pessoas por ela, a gente fica com a pulga atrás da orelha. Pode ser? Não pode ser? É? Nesse sentido a construção é perfeita. Roman me fez lembrar outro personagem de uma trama posterior: o antagonista de Salem, livro escrito por Stephen King. King dizia que os livros do Ira Levin tinham sido muito influentes no início de sua carreira. Eu não estranharia uma relação entre os dois personagens.

Uma cena que chama a atenção mesmo na trama é o "estupro" da Rosemary. Mesmo que toda a trama tivesse sido uma alucinação da parte dela, e aquela noite tivesse sido apenas a vontade de Guy de ajudar Rosemary a ter um bebê, aquilo foi super incorreto da parte dele. Para mim, Rosemary até pegou leve com ele, ao apenas se afastar por algum tempo. Nenhum marido tem o direito de se aproveitar de sua esposa daquela maneira. Mesmo que estejam casados? Sim. Sexo tem que ser algo consensual, um ato de amor e carinho entre o casal. Existe o elemento sexual e o fetiche? Com certeza, mas acima de tudo há de ter o respeito regendo tudo.

A narrativa é bem retilínea. Digo isso em um sentido de que ela não tem altos e baixos. Ela segue em uma linha reta que pode irritar alguns leitores. Não temos grandes momentos de emoção e medo, salvo o final. A cena do "estupro" foi algo muito mais alucinógeno do que assustador. Na versão para o cinema, ela ficou bem mais assustadora. E, curiosamente, o diretor seguiu bem fielmente o livro. Naquela época em que o filme foi rodado, havia essa mentalidade de adaptar com fidelidade o conteúdo de um livro (quem não se lembra de O Poderoso Chefão?). Ouso dizer até que o filme ficou alguns níveis melhor do que o livro.

O Bebê de Rosemary é um clássico do terror e acho que todos os fãs do gênero deveriam ter contato com ele. Ira Levin criou uma atmosfera de suspense que se estende ao longo de toda a narrativa. Personagens bem criados e uma protagonista feminina marcante, algo bem diferente na época em que foi escrito. Entretanto, a escrita é fraca e um pouco datada, sendo que a adaptação cinematográfica foi capaz de mostrar melhor aquilo que o autor quis ilustrar aos leitores e obter o impacto desejado.












Ficha Técnica:


Nome: O Bebê de Rosemary

Autor: Ira Levin

Editora: Amarilys

Gênero: Terror

Tradutor: Cléo Marcondes Silveira

Número de Páginas: 224

Ano de Publicação: 2014


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