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Resenha: "O Último Homem" de Mary Shelley

Atualizado: 4 de jun. de 2021

Esta é a história dos últimos dias da humanidade na Terra. Atacados por uma praga que eles não sabem como surgiu, veremos a sociedade se esfacelando pouco a pouco. Esta história nos é narrada por Lionel, o último homem da Terra.



Sinopse:


O fim nunca esteve tão próximo. O último homem, escrito por Mary Shelley pouco tempo depois da morte do esposo, é um misto de pessimismo, autobiografia e reação a Percy Shelley, cujos ideais românticos não são capazes de salvar os protagonistas do derradeiro fim. Quase duzentos anos após a publicação original, o livro que chocou os críticos do século XIX está mais atual do que nunca — de outras formas, mas ecoando o mesmo som.


É aqui que a célebre autora de Frankenstein registra uma história de guerras, de amores trágicos e, como não poderia deixar de ser, da extinção da raça humana. Em um futuro não mais distante, Lionel Verney vê cada um de seus amigos cair vítima de uma doença que, entre fanáticos e negacionistas, deixa cada vez mais clara a inexorável força da natureza. Ficção apocalíptica ou profecia acertada?





Sabe quando um livro clássico não é feito para você? Você tenta, tenta, tenta e a leitura não sai do lugar? Você lê no quarto, na cozinha, no jardim, de cabeça para baixo, no travesseiro, com barulho, sem barulho, no claro, no escuro? Definitivamente essa foi a minha história de amor e ódio com esse livro. Se você gosta da Mary Shelley ou se você curtiu esse livro, não leia essa resenha. Sério. O meu nível de insatisfação foi violento e não tem absolutamente nada a ver com a edição (que está incrível), nem com a tradução (que está coerente com o estilo de escrita da autora) e nem com os textos de apoio (que ajudam bastante). Meu problema é com a narrativa. E provavelmente algum dos leitores do blog já se identificou com isso. Aquele livro que várias pessoas falam bem e você detesta. O problema não é você. Ler é um ato bem subjetivo e depende de vários fatores: humor, leituras anteriores, influências. Posto isso, se vocês quiserem continuar na resenha, é só seguir lendo.


A história segue a vida de Lionel Verney, um homem que fazia parte de uma família de importância mediana dentro da nova República da Inglaterra. Um lugar onde o sistema político mudou para algo diferente, mas os privilégios nobiliárquicos continuam os mesmos. A história se passa em 2090 em um futuro muito parecido com o nosso. Isso até o momento em que uma estranha praga começa a dizimar a humanidade. Sem saber de onde ela vem e como ela pode ser detida, Lionel e seus amigos se veem impotentes diante de uma ameaça invisível que destrói cidades e vidas. À medida em que vê todos aqueles que lhe são caros morrendo um a um, Lionel encara a difícil realidade: ele pode se tornar o último representante da humanidade na Terra.


Apesar do meu ranço com esse livro, vou tentar contrabalançar prós e contras da leitura. A narrativa é contada bem ao estilo gótico da época, o que não faz o menor sentido por causa do título do livro. Alguém encontrou o relato de Lionel e a partir daí é a voz de Lionel que nos apresenta a história. Ou seja temos uma narrativa em primeira pessoa que nos coloca diante desses personagens e de suas trajetórias. O núcleo principal é formado por Lionel, Idris, Adrian, Perdita e Raymond. Assim como em Frankenstein, Shelley prefere usar um tom mais narrativo e sem o emprego de diálogos ou descrições elaboradas. Sua escrita se vale de apresentar os sentimentos, emoções e pensamentos dos personagens. E, como em qualquer narrativa gótica, ela exacerba essas percepções ao último nível. Se alguém sofre, seu sofrimento é algo que ultrapassa os limites da razão humana, se alguém ama, ama perdidamente o outro. É uma característica da época que a autora segue à risca. Talvez mais do que em Frankenstein. Precisamos lembrar também que O Último Homem pertence a uma fase mais madura da autora e ela mesma considera esse livro como o seu melhor trabalho.



Esse é um daqueles trabalhos lançados no momento certo pela Plutão Livros. Fala de uma pandemia e em como ela pode destruir a civilização. Como os seres humanos se transformam nesse tipo de conjuntura. A autora nunca se dá ao trabalho de explicar cientificamente como surgiu a pandemia, ou sequer como ela é. A gente desconfia de alguns sintomas, mas eles são bem sutis. Até porque a proposta não é analisar a doença em si, mas o que ela traz de consequência social e familiar para a humanidade. Dois dos melhores momentos do livro ocorrem quando ela deixa de lado alguns temas (que eu já vou comentar) e se dedica a explorar o objetivo do livro. O primeiro deles acontece quando o grupo de Lionel que havia deixado a Inglaterra se estabelece em Paris e, com a ausência de Adrian, que havia sido apontado como lorde protetor, se criam diversas facções na cidade. Uma delas é formada por fundamentalistas religiosos que veem na doença uma resposta de Deus aos pecados da humanidade. Um momento bem tenso em que os personagens precisam lidar com estes extremistas religiosos em um ambiente onde a doença poderia acabar com tudo de uma hora para outra.


O segundo momento alto da história é quando Lionel se vê sozinho mais para a frente (não vou dizer exatamente como). As descrições começam a surgir mais porque ele se vê sem pessoas próximas com quem conversar. Então suas divagações são sobre a sua presença no mundo e a importância da humanidade na formação da história. São momentos bastante melancólicos onde a autora usa o espaço para fazer com que nós, leitores, possamos compreender nossa participação dentro da sociedade. E em como podemos ser criaturas frágeis diante do poder da natureza. Não sei se Shelley era uma pessoa pessimista quanto aos rumos da humanidade, mas ela consegue transportar bem a falta de esperança e a inevitabilidade das coisas para dentro da narrativa.


E agora vem a minha rabugice que vai tomar conta dessa resenha. Antes de mais nada eu queria perguntar onde está a ficção científica desse livro. Porque eu não vi. Tirando a temática de praga que assola a humanidade, a narrativa se passa no ano de 2090 que exatamente igual a 1890 com pessoas andando a cavalo, usando cabriolés para se movimentar. Há referências sutis a alguma espécie de engenho voador, mas só aparece uma ou duas vezes na narrativa. Existe também a menção a algumas técnicas agrícolas mais modernas. No mais, a história poderia ter acontecido na própria conjuntura da autora. Não fazia a menor diferença ela tem localizado no século XXI. Se bem que até aí, tudo bem, dá para relevar em prol da qualidade da escrita.


Um segundo problema é o fato de a história demorar demais para acontecer. Apenas a partir de mais da metade do livro, lá em meados da segunda parte é que a doença se faz real. E ainda assim, o ritmo é lento até a terceira parte quando aí sim temos uma preocupação mais séria quanto ao destino de tudo. A praga ela é referenciada a partir de 50%. E o que eles ficam fazendo até lá? Bem toda a primeira parte se parece com um romance de Jane Austen com casamentos, impedimentos, ciúmes, inveja e cortejo. Decididamente eu não entendi até porque a Mary Shelley não era afeita a esse tipo de narrativa em outros trabalhos. Não sei se ela se tornou produto de seu tempo, mas a verdade é que todo esse preâmbulo é sonolento e tedioso. Até porque a sinopse te fala justamente sobre esse dilema da chegada de uma pandemia mortal, destruindo a tudo e a todos. E o leitor não é apresentado a isso por boa parte da história. "Ah, você está sendo chato. O tema é abordado depois". Sim, em um livro de 582 páginas, a partir da 300 começa de fato. Só que até lá a autora já havia perdido a minha boa vontade de ler. Fora que ela emprega parágrafos longos (às vezes de mais de uma página), situações tediosas em que ela descreve os sentimentos de um personagem por mais de 20 ou 30 linhas. O nível de exagero romântico e gótico está lá no topo, o que não contribui com a narrativa.



Para completar o protagonista não protagoniza a história. Por mais de dois terços da narrativa ele fica a reboque do que os outros estão fazendo. Deuses, na primeira parte da história salvo por um capítulo, suas ações não importam para o leitor. É o protagonista mais coadjuvante que eu já vi. Toda a primeira parte tem a ver com a luta de Adrian pelo título de lorde protetor e da relação entre Ambrose e Perdita. Ambrose que, inicialmente, é um rival de Adrian. E logo ganha o protagonismo da história e vemos como se desenrola sua relação com Perdita e a existência da maquiavélica Evadne manipulando tudo nos bastidores. Somente quando a praga começa a afetar a narrativa é que o foco muda e se volta para... Adrian. Ele agora se torna uma espécie de líder para aqueles que estavam fugindo da doença. Mas, e Lionel? Ele continua a ser alguém levado pelas marés da narrativa. No final da segunda parte e em toda a terceira é que ele assume uma posição mais ativa.


Também me incomodam os plots irrelevantes para a história central. E tem muitos. Do nada, Shelley começa a trabalhar algum personagem avulso que não tem qualquer importância para o desenvolvimento da narrativa ou a evolução dos personagens. Aliás, em se tratando de uma pandemia, vemos diversos personagens morrendo. Ou seja, a gente já sabe que aquele personagem é irrelevante e ele morrerá algumas páginas mais tarde. Ou pior quando ela saca um personagem que ela referenciou em algum momento de algum capítulo obscuro e ela dá relevância ao mesmo. Para matá-lo duas páginas mais tarde. E de nada serviu a existência do mesmo além de causar todo um sofrimento, choro e infortúnio que são descritos longamente por várias páginas. Se o sofrimento dos personagens é descrito em mais páginas do que toda a participação deles na história. O que torna toda a questão do emocional algo chato e tedioso. Vemos os personagens sofrendo tantas vezes que isto perde o impacto no leitor.


Enfim, desculpem o desabafo. Mas, eu fiquei vinte dias preso em uma leitura que teoricamente eu levaria quatro ou cinco. E não é que a narrativa tivesse profundidade ou várias camadas de compreensão. É que ela era chata mesmo. Por vários momentos pensei em abandonar a história, mas avancei bravamente pelo enredo. A ponto de dormir por cima do livro, querer atirar meu kindle na parede e gritar de raiva com os personagens. Só vou manter uma nota mais mediana porque vemos uma Mary Shelley mais madura e por causa do timing de publicação do livro. Até porque se não fosse isso, as notas seriam ainda menores. Mas, espero poder pegar algum material agora que me deixe mais animado e menos rabugento.












Ficha Técnica:


Nome: O Último Homem

Autora: Mary Shelley

Editora: Plutão Livros

Tradutora: Jana Bianchi

Número de Páginas: 582

Ano de Publicação: 2020


Link de compra:


*Material enviado em parceria com a Plutão Livros










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