• Paulo Vinicius

Resenha: "Multiverso Pulp vol. 1: Espada e Feitiçaria" organizado por Duda Falcão (parte 2)

Na segunda parte desta resenha temos ótimas reimaginações sobre o gênero de espada e feitiçaria feito por autores contemporâneos. Temos uma análise de uma espada mágica, uma bruxa tecendo sua armadilha e um conto com pitadas lovecraftianas.



Nesta segunda parte constam os seguintes contos:


6 - "A Bruxa", de Marina Mainardi

7 - "A Enseada Abissal", de Rodrigo B. Scop

8 - "Considerações acerca de Anathemus. a espada perdida", de Roberto Fideli

9 - "Nas Ruínas de Ka'Drath", de João Ricardo Bittencourt

10 - "Guizer contra a aranha de mil filhotes", de Duda Falcão



6 - "A Bruxa"


Ficha Técnica:


Autora: Marina Mainardi Avaliação:






A proposta de reinventar está espalhada por toda essa coletânea. Reimaginar clichês, narrativas, tipos de personagem. E aqui está mais uma narrativa nesse tipo. Pegar o conceito de bruxa e inseri-lo em outro contexto. O resultado final ficou um pouco na metade daquilo que eu esperava. Mesmo assim, o conto te instiga a permanecer vidrado nas páginas até o final. Temos um cavaleiro errante que chega até uma vila que é assolada por uma bruxa. Todos os anos ela pede um sacrifício que precisa ser feito em seu nome. O cavaleiro estranha um pouco o cenário, diferente de outros lugares onde ele realizara jornadas anteriores. Embora jovem, ele parece ser experiente e segue explorando a floresta que cerca o esconderijo da bruxa. E talvez essa mudança na dinâmica das coisas pode levá-lo a uma armadilha mortal.


Essa é uma narrativa bem direta que não adentra muito em temáticas. É bem nessa pegada pulp. Posso dizer que a autora tentou mostrar o seu cenário de uma forma descritiva partindo das diferenças brutais sentidas pelos personagens: os deuses mais voltados para a natureza, os costumes mais "rudimentares" ao invés de uma cultura mais urbana, os templos estranhos. Esse momento narrativo me agradou bastante e mostrou que a autora consegue ir bem na descrição sem ser algo chato ou desinteressante. O problema ficou na segunda metade quando acontece o clímax da história. Não digo que precisaria haver um duelo ou algo do tipo, mas fiquei um pouco decepcionado com esse momento (não com a solução final que é bem legal). Achei que a narrativa seguia muito bem até o confronto final quando as minhas expectativas foram derrubadas.


7 - "A Enseada Abissal"


Ficha Técnica:


Nome: Rodrigo B. Scop Avaliação:





Acho que já passou na cabeça de muitos autores como ressignificar a narrativa de Moby Dick em outro gênero narrativo. Seja em uma ficção científica ou talvez em um cenário fantástico. Está na cara que é esse o tema por trás da perseguição de Neshad a uma poderosa criatura marinha. Seu desejo por vingança é o que move suas ações. Ele quer ter o prazer de destruir essa criatura maldita que assola os mares há muitos anos. Neshad treinou para isso e precisou até mesmo engolir o seu orgulho em prol de reunir um grupo de especialistas para poder iniciar uma caçada na enseada abissal. Mas, ele quer dar o golpe final a todo o custo. E, sabendo que essa aventura é perigosa, ele guia uma frota com magos e capitães experientes em direção ao lugar. Essa obsessão levará a momentos dramáticos que serão transpostos para as linhas pelo autor.


Olha, a temática de Moby Dick exige que o leitor se engaje no drama do protagonista. O confronto entre caça e caçador precisa ser algo épico para que a narrativa consiga produzir o efeito desejado. E em nenhum momento eu comprei o drama, a obsessão de Neshad pela caça do monstro. Isso precisava ser desenvolvido em mais páginas, trabalhando o quanto a criatura afetou a vida do personagem: seja como um drama pessoal, envolvendo uma vingança ou seja como um mote de vida em que o personagem entende que derrotar a criatura seja sua missão de vida. Por eu não me interessar pelo drama, isso acabou afetando a minha leitura. Porém, preciso dizer que o autor foi muito competente ao criar a cena do confronto com a criatura. Se no conto anterior eu reclamei da falta de clímax, aqui somos brindados com cenas épicas com magias sendo empregadas, navios sendo destruídos. A cena toda tem um bom efeito de condução de uma narrativa de ação com os momento sendo bem verossímeis em uma narrativa de fantasia.


8 - "Considerações acerca de Anathemus. a espada perdida"


Ficha Técnica:


Autor: Roberto Fideli Avaliação:





Genial. Só isso que eu tenho a dizer nessa primeira frase. São contos como o do Fideli que me fazem curtir demais o formato de histórias curtas. Quando você consegue criar histórias criativas ou experimentar maneiras diferentes de se contar uma história, é sinal de alta criatividade e imaginação. Vejo muita gente desconsiderando ou relegando a segundo plano esse tipo de narrativas. Uma das melhores maneiras para treinar a pena é escrevendo histórias curtas, não canso de repetir isso.


A proposta é muito simples e não menos criativa: uma escrita acadêmica sobre uma arma mágica. Somos guiados por várias páginas em um profundo estudo sobre a histórias, os poderes e o destino de uma poderosa espada, que diz fornecer poderes inimagináveis ao seu possuidor. O autor explora as personalidades que tiveram a arma em suas mãos, testemunhas que viram o poder real em funcionamento e hipóteses sobre os poderes e a origem do forjador da arma. Fideli criou um artigo científico sobre uma arma mágica!!! Com direito a formato ABNT! E bibliografia no final... Meus olhos brilharam lendo o artigo. A criatividade e a imaginação para criar algo assim. Pode até ser que para vocês, leitores, seja mais um conto dentro da coletânea. Para mim é O Conto. Só tenho que dar palmas lentas para isso. Criativo, ousado e diferente. E o melhor: ele escreve de uma maneira que é legal. Não chega a ser chato ou enfadonho.



9 - "Nas Ruínas de Ka'Drath"


Ficha Técnica:


Autor: João Ricardo Bittencourt Avaliação:





Sou muito suspeito para falar de narrativas que se inspirem no estilo lovecraftiano de escrever. Não curto Lovecraft e isso de certa forma acaba sendo transmitido para a maneira como eu observo narrativas derivadas. Este é mais um caso. O autor claramente tem uma pegada nesse estilo e eu acabei não curtindo a história desde o começo. Mas, ela não deixa de ter suas qualidades: uma escrita bem polida, uma boa habilidade descritiva e uma noção de tempo narrativo, o que faltou em algumas histórias nesta coletânea. Ou seja, o autor soube dosar bem introdução, desenvolvimento e conclusão.


A protagonista é uma bruxa capaz de empregar dons necromânticos para lhe auxiliar em sua jornada. Ela busca adentrar nas ruínas de Ka'Drath, uma poderosa criatura que é venerada por aqueles que desejam obter os segredos da vida e da morte. Ou seja, é o lugar perfeito para esconder um tomo misterioso contendo tais segredos. Ao longo do caminho, a bruxa vai se deparar com uma tribo de aborígenes que farão de tudo para impedir sua passagem, mas acabarão se tornando parte de sua jornada através de seus poderes mágicos.


A narrativa vai em um aspecto da aventura e da superação de obstáculos ao mesmo tempo em que se foca nas motivações que levam-na a este local. O problema é que eu não consegui entrar na história ou comprar as motivações da protagonista. Acabou sendo mais um conto para mim e eu pude perceber o quanto a história tinha suas qualidades. Mas, é aquilo: acabei sendo obscurecido pela minha visão sobre a forma em si.


10 - "Guizer contra a aranha de mil filhotes"


Ficha Técnica:


Autor: Duda Falcão Avaliação:





É impressionante o quanto o Duda Falcão consegue criar personagens e histórias interessantes. Cada momento que passa só tenho a afirmar o quanto ele é um mestre nas histórias curtas e é aquele que melhor entende o que significa escrever um pulp. Aquele tipo de narrativa que às vezes é over the top, mas te mantém entretido do começo ao fim. É praticamente impossível pegar um conto do Duda e não desejar lê-lo de uma vez só. Esse é mais um desses casos.


Na narrativa conhecemos Guízer, um escravo fugitivo de uma fazenda de produção de um papoulas, usadas para diversos fins (inclusive como alucinógeno e anabolizante). Desejando ter sua liberdade, ele foge do lugar e tenta encontrar sua irmã que havia sido vendida para alguém na capital. Mas, para seu azar, ele acaba sendo capturado e andar com documentos falsos não o ajuda muito em sua empreitada. Guízer acaba em uma prisão onde ele é comprado junto de outros prisioneiros por um homem chamado Treinador. Este atua em uma série de jogos de gladiadores e precisa de mais pessoas para o seu time. É então que Guízer se encontra em uma arena onde precisará enfrentar outros prisioneiros e uma terrível criatura saída de pesadelos.


Uma das qualidades do Duda é o quanto ele dominou a arte da história curta a ponto de escrever uma narrativa rica em um curto espaço. As limitações na maior parte das vezes acabam não sendo um empecilho para a sua imaginação. Em pouco mais de trinta páginas ele consegue criar uma história bem rica com personagens que transbordam um pano de fundo. Tudo o que ele faz aqui é nos apresentar dois personagens, Guízer e Aiomi, dos quais a gente quer saber mais sobre eles. De onde vieram? Como chegaram até ali? Quais os seus próximos passos? Se o Duda me encantou com as histórias de Kane Blackmoon e seu estranho oeste, agora coloco o fugitivo Guízer no hall de personagens memoráveis do autor.


Ficha Técnica:


Nome: Multiverso Pulp vol. 1: Espada e Feitiçaria

Organizado por Duda Falcão

Editora: Avec Editora

Gênero: Espada e Feitiçaria

Número de Páginas: 184

Ano de Publicação: 2020


Parte 1


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*Material enviado em parceria com a Avec Editora


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