• Paulo Vinicius

Resenha: "Mistborn: O Império Final" (Mistborn vol. 1) de Brandon Sanderson

Kelsier tem um objetivo ousado: ele almeja derrubar o Império Final e derrotar o Senhor Soberano, um ser poderoso e imortal que governa o Império com mão de ferro. Enquanto inicia seus planos ele conhece uma menina de rua chamada Vin que pode ser uma aliada imprescindível. Assim começa a saga de Mistborn.

Sinopse:


O primeiro volume da aguardada saga fantástica de Brandon Sanderson! Certa vez, um jovem com uma herança misteriosa, desafiou corajosamente a escuridão que sufocava a Terra. Mas ele falhou... Desde então, há mil anos, o mundo é um deserto de cinzas e brumas, governado por um imperador imortal conhecido como Senhor Soberano. Nessa sociedade onde as pessoas são divididas em classes sociais, Kelsier, um ladrão bastardo, se torna o único sobrevivente que escapou da prisão brutal do Senhor Soberano, onde ele descobriu ter os poderes alomânticos de um Nascido da Bruma – uma magia misteriosa e proibida. Agora, Kelsier planeja o seu ataque mais ousado: invadir o centro do palácio para descobrir o segredo do poder do Senhor Soberano e destruí-lo. Mas para ter sucesso, Kel vai depender também da determinação de uma heroína improvável, uma menina de rua que precisa aprender a confiar em novos amigos e dominar seus poderes.




Brandon Sanderson é um dos pilares da fantasia contemporânea na atualidade. Ao lado de autores como Patrick Rothfuss, Steven Erikson, Peter V. Brett, Scott Lynch e tantos outros eles deram forma ao que tanto amamos. Mistborn é a série que projetou o autor a esse status e a gente consegue perceber nos capítulos do livro como ele fez para se destacar tanto. Dá para entender a fórmula do sucesso tranquilamente e apreciar o que ele fez dentro do universo que ele construiu.

“Traição não tinha nada a ver com amizade; era um simples ato de sobrevivência.”

Em 2017, eu assisti as palestras do autor que ele deu durante um curso em uma universidade norte-americana. Lá ele explica como funciona o processo criativo dele e tenta repassar aos seus alunos alguns de seus segredos. Se pararmos para analisar detidamente a escrita do Sanderson em Mistborn, ela não é uma escrita rebuscada. O autor emprega uma linguagem bem simples de forma a que os leitores consigam entender os passos da jornada feita pelos heróis. Entretanto, essa escrita simples e de base é de um nível bem elevado. Sem usar firulas literárias, ele consegue entregar uma narrativa convincente partindo de uma narrativa em terceira pessoa, usando pontos de vista múltiplos. No mesmo capítulo ele roda por vários núcleos de personagem para que tenhamos uma visão do todo sobre aquilo que está acontecendo. Entretanto, a história vai se focar mais em Vin e Kelsier, passando pelo Senhor Soberano e Elend em alguns trechos.

Porém, Jardins da Lua consegue entregar algo semelhante com uma linguagem mais rebuscada. Não vou traçar o comparativo agora (pretendo fazer posteriormente), mas é inegável que dentro da fantasia, a escrita do autor é mais comercial do que sofisticada. E isso não é demérito algum: em uma de suas aulas, Sanderson afirma que ele escreve para entreter os leitores. Stephen King já deu várias declarações nesse sentido. Não posso dar uma nota máxima para o autor em escrita justamente porque já vi autores serem mais sofisticados e alcançarem o mesmo objetivo. Isso não tira a genialidade de Sanderson ao criar um universo bem amarrado com uma escrita bem simples de ser compreendida.

Os protagonistas da trama são muito bem trabalhados. Kelsier seria o herói propriamente dito, mas que possui uma rixa com o Senhor Soberano por acontecimentos de seu passado. Em alguns momentos ele deixa suas emoções tomarem o melhor dele e toma atitudes impulsivas. Mas, é de admirar que alguém que passou por tantas situações difíceis ainda mantenha a capacidade de sorrir. Kelsier é um personagem com muitas camadas e que muitas vezes acaba escondendo suas emoções de seus amigos. A relação que ele tem com seus parceiros é muito próxima, o que vai atrair a curiosidade de Vin que nunca conheceu nada semelhante entre os seus pares.

Vin é uma menina de rua que sofreu muito nas mãos de seu irmão Reen e na companhia de meliantes comandados por Theron e Camon. Por ter tido uma infância difícil ela acabou desenvolvendo um instinto de desconfiança no ser humano. Ela descreve as noites em que ela passava em claro, tomando cuidado para não ser morta, ferida ou estuprada. Com isso, quando a sua situação muda depois que ela conhece Kelsier, ela estranha tudo e todos. O crescimento de Vin como personagem talvez seja o maior mérito de Sanderson nesse primeiro volume. Ao final nos relacionamos de uma forma muito próxima a ela. Queremos saber o que ela vai fazer a seguir. Ela não se torna super forte no final deste volume; ainda tem muito a aprender. Mas, como ser humano ela cresce e amadurece bastante.

“O medo é a ferramenta dos tiranos. Infelizmente, quando o destino do mundo está em jogo, deve se usar as ferramentas que estão disponíveis.”

O meu maior problema com a construção de personagens foi o foco maior em Kelsier e Vin. Os demais personagens são um pouco deixados de lado. Alguns deles tem algum desenvolvimento, mas este acaba sendo muito rápido em relação aos principais. Por exemplo: eu queria saber mais sobre a relação de Dockson com a sua família, ou como Brisa vive o seu cotidiano ou até mais da filosofia de Hammond e como ele se tornou um skaa tão instruído. Mesmo Elend só começa a ter espaço na narrativa lá no final da história. É muito pouco para um autor que gosta de trabalhar com os personagens. Em Elantris ele faz isso de forma mais eficiente. Sazed funciona como uma espécie de mestre para Vin além de ser uma espécie de repositório de conhecimentos. No final, eu senti que Sanderson deseja trabalhar mais este personagem.


Impossível falar de Mistborn sem mencionar o sistema de magia. A alomancia é um sistema extremamente criativo construído pelo autor. Aliás, fica aqui uma alegoria bem interessante. Sanderson parece construir sua narrativa como em camadas de um bolo. Ele coloca um elemento narrativo, apresenta e solidifica na mente do leitor, faz um twist e insere uma nova camada. Todo o processo se inicia novamente até ele colocar uma nova camada. Dessa forma, não ficamos perdidos em nenhum momento já que nossa mente havia sido preparada no início do ciclo. No começo, ele apresenta a alomancia, apresenta os níveis e categorias para então surgir os Inquisidores e o Senhor Soberano. Ele apresenta essa nova camada, desenvolve e aí aparece Sazed. E assim vai. O que chama a atenção é como ele insere a alomancia dentro do sistema político, econômico e religioso do seu universo literário. Tudo se relaciona e se associa.

Impossível falar de Mistborn sem mencionar o sistema de magia. A alomancia é um sistema extremamente criativo construído pelo autor. Aliás, fica aqui uma alegoria bem interessante. Sanderson parece construir sua narrativa como em camadas de um bolo. Ele coloca um elemento narrativo, apresenta e solidifica na mente do leitor, faz um twist e insere uma nova camada. Todo o processo se inicia novamente até ele colocar uma nova camada. Dessa forma, não ficamos perdidos em nenhum momento já que nossa mente havia sido preparada no início do ciclo. No começo, ele apresenta a alomancia, apresenta os níveis e categorias para então surgir os Inquisidores e o Senhor Soberano. Ele apresenta essa nova camada, desenvolve e aí aparece Sazed. E assim vai. O que chama a atenção é como ele insere a alomancia dentro do sistema político, econômico e religioso do seu universo literário. Tudo se relaciona e se associa.

Os combates também são muito bem desenvolvidos pelo autor. Todos muito dinâmicos e fazem bastante sentido. A gente consegue imaginar mentalmente os movimentos dos personagens envolvidos. Algumas destas cenas são curtas enquanto outras se espalham por várias páginas. E mesmo assim queremos continuar acompanhando para saber o que vai acontecer a seguir. Mesmo momentos mais confusos, como a rebelião na praça é muito bem construído com tudo o que acontece ao redor fazendo sentido e seguindo uma sequência lógica.

“Certa vez, um herói apareceu para salvar o mundo. Um jovem com uma herança misteriosa, que desafiou corajosamente a escuridão que sufocava a Terra. Ele falhou...”

Mas, me incomodou demais o info dumping presente na narrativa. Até que as coisas comecem a se mover, demora centenas e centenas de páginas. Temos um momento mais tenso no final da segunda parte, mas e nisso os leitores concordam são as cento e cinquenta páginas finais que tornam o livro épico. Eu discordo que isso faz do livro incrível e sensacional. O livro tem 608 páginas... para chegarmos na parte realmente boa da história precisamos galgar 450. Muitos leitores não tem paciência para 100 delas. Para tentar solucionar o problema do info dumping, Sanderson usa de um artifício narrativo chamado "talking heads", ou cabeças falantes. Ele coloca os personagens fazendo diálogos expositivos tocando em pontos da história ou particularidades do mundo. Se isso fosse feito 1 ou 2 vezes até seria possível relevar e entender como necessário. Mas, é possível contar 6 desses momentos. Estes são as reuniões que Kelsier faz com os outros membros da gangue. Dentro dessas reuniões que duram um ou dois capítulos acabam se tornando chatas depois da terceira ou da quarta. Entendo que elas se tornam necessárias para apresentar o mundo e o seu funcionamento, mas dava para usar outras formas até mais naturais do que simplesmente apresentar reuniões o tempo todo.


Sei que muitos vão criticar a minha resenha porque o autor é reverenciado hoje no Brasil principalmente pelo tratamento incrível que a editora que o traz ao Brasil realiza. Mas, há de se notar os pequenos problemas e detalhes que fazem da obra um pouco abaixo da perfeição. Percebam inclusive que nem o volume 1 e nem o 2 da trilogia venceram qualquer premiação lá fora (sequer foram indicados). O nível que o autor tem hoje se deve à evolução que a sua escrita foi tendo ao longo dos anos. E eu estou muito animado para continuar a ler esta trilogia (diferentemente do sentimento que eu tive com As Crônicas do Matador de Rei, do Patrick Rothfuss). Tenho certeza que serei impressionado ainda pelo autor.

“- O truque é nunca parar de procurar. Sempre há outro segredo.”

Enfim, Mistborn é uma das melhores séries de fantasia que temos no mercado na atualidade. Não é perfeita, mas sem dúvida alguma merece a sua atenção. Conteúdo, escrita simples, personagens cativantes, universo relacionado: tudo conspira para uma grande história.


Ficha Técnica:


Nome: Mistborn - O Império Final

Autor: Brandon Sanderson

Série: Mistborn vol. 1

Editora: Leya

Gênero: Fantasia

Tradutora: Márcia Blasques

Número de Páginas: 608

Ano de Publicação: 2014


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