• Paulo Vinicius

Resenha: Mágico Vento Deluxe 1" de Gianfranco Manfredi, José Ortiz, Bruno Ramella e Giuseppe Barbati

Neste primeiro volume conhecemos o protagonista e suas motivações. Na primeira história, Ned tenta recuperar parte de suas memórias enquanto ajuda seu novo amigo Poe a fugir de alguns bandidos que o perseguem. E na segunda história, Ned retorna à aldeia Sioux onde foi curado e ele e Poe precisarão lidar com um espírito vingativo que assola o lugar e está sequestrando crianças.



Sinopse:


Um fragmento de metal no cérebro apagou a sua memória, mas deu-lhe o poder da visão. Para os índios, ele é Mágico Vento, porque o vento o guiou até eles. Mas ele era o soldado Ned Ellis, sobrevivente da explosão do comboio militar em que viajava. Quais tramoias se escondem por trás daquele que, oficialmente, foi um trágico acidente? Para descobrir, Ned deverá iniciar uma atormentada viagem em seu passado, e, só no fim do caminho, entre os fantasmas do Forte Ghost, ele poderá saber a verdade. Uma edição COLORIDA, em capa dura, papel couché. O início da saga de faroeste que foi um estrondoso sucesso no mundo todo.






Mágico Vento é uma das principais séries da Sergio Bonelli e que até hoje possui continuações. A série principal terminou há algum tempo, mas o criador do personagem, Gianfranco Manfredi, retornou com novas histórias. Curiosamente, eu passei a gostar do gênero fumetti nos últimos anos por causa de Mágico Vento. Por seu estilo de mesclar o realismo por trás dos embates durante a Marcha para o Oeste nos EUA e aquele faroeste fantástico repleto de mitos e lendas. Neste primeiro momento, pretendo ler e compartilhar com vocês o conteúdo das edições Deluxe do personagem que reúnem dois números normais da HQ do personagem em um formato europeu e colorido. Se a Mythos parar de publicar nesse formato, daí eu penso em outra maneira. Mas, tem bastante material por enquanto. Vamos curtir ao lado de Ned Ellis algumas aventuras nesse estranho e fantástico faroeste.


A primeira história chama-se Forte Ghost e é a origem do personagem. Manfredi se une a José Ortega que faz a arte desse número. Os roteiros do Manfredi são muito bons apesar de que nesse primeiro número ele precisa fazer uma rápida apresentação do personagem, seus dilemas e como funciona o seu mundo. Para essa primeira edição, Garras (a segunda história) consegue entregar melhor a essência do que vai ser a série. Mas, como uma história de origem ela consegue entregar tudo de uma forma didática e gerando a curiosidade no leitor. Também já sacamos de cara que Ned não vai andar sozinho e Manfredi introduz Poe, o companheiro de viagem do personagem. A dinâmica entre os dois personagens é bem legal e faz aquela contraposição entre o mundo real e o mundo mágico. O autor consegue inovar no gênero de faroeste ao usar os clichês para criar algo diferente. Quem é leitor de Tex ou de outros personagens desse estilo de história vai encontrar todos aqueles temas tão comuns: o trem, os fora-da-lei, o empresário corrupto, o homem correto que deseja expor as coisas erradas. Ao mesmo tempo em que Manfredi nos coloca em terreno familiar, nos dá uma rasteira ao empregar um personagem que representa a visão dos nativos sobre os homens. Sim, Ned é um homem branco, mas ao ter sido criado entre os Sioux ele adquire uma perspectiva diferente sobre as coisas.


Ned Ellis é um homem que foi vítima de uma tragédia enquanto retornava com sua companhia. Um traidor chamado Lomax parece ter causado o descarrilamento do trem e após uma troca de tiros, Ned é deixado praticamente morto no meio da pradaria. Ele é resgatado por Cavalo Manco, o xamã da aldeia Sioux nas imediações. Cavalo Manco teve uma visão de que um homem viria de longe da vila e seria a ele a quem o xamã iria confiar o seu conhecimento sobre as artes mágicas. É assim que Ned Ellis se torna o Mágico Vento. Anos mais tarde, somos colocados diante de uma reunião que juntou membros da imprensa de vários lugares do leste dos EUA e entre eles estava Poe. Eles ficam sabendo de uma série de casos de assassinato e especulação imobiliária feitas por um homem chamado Howard Hogan. Enquanto situações estranhas são apresentadas, Poe decide firmemente seguir até as regiões controladas por Hogan para denunciar o caso, mas Carmody, um homem a mando de Hogan parece estar atrás de Poe para silenciá-lo. No caminho para Mugby Junction, uma estação intermediária, Poe se encontra com um homem estranho que parece não ter passado. E aqueles que perseguem Poe parecem ter relação com o passado de Ned.


Confesso que não gostei muito da arte do José Garcia. Isso para os padrões Bonelli que colocam no chinelo a maior parte das coisas que tem no mercado. Mas, como a barra é alta e tem a história seguinte como comparativo, achei a arte de Garcia meio escura demais em alguns pontos, dificultando a compreensão da cena. Possivelmente a colorização teve um fator preponderante nisso também. Temos que pensar que a HQ foi pensada primordialmente tendo a palheta P&B como padrão. Quando passamos para o colorido, algumas coisas se destacam e outras ficam prejudicadas pela mudança de filosofia artística. O design de personagens é muito bom, mas achei que faltou personalidade a eles em determinados momentos. Quando parece que um personagem só tem um tipo de expressão. Isso me incomodou um pouco. E nos momentos em que a história se envereda pelo terror, faltou aquela sensação de apreensão às cenas.


Mágico Vento é essencialmente um weird western, ou seja, um faroeste com alguns pés no fantástico e no pulp. Os elementos mágicos da história são bem simples e pés no chão. Ou seja, o protagonista não vai sair por aí lançando bolas de fogo. Mas, pode ser que vejamos a presença de fantasmas, lobisomens, mediuns. Todo aquele mundo estranho coberto por um véu de ceticismo e do obscuro. E ainda assim a história não afeta o andamento da história como um todo. Os conflitos de Ned contra o estranho se restringem à sua esfera de atuação. Ainda assim, Manfredi consegue tocar em algumas críticas sociais como a especulação imobiliária levando homens a atuarem fora da lei ou da coragem necessária para admitir um erro.


A segunda história se chama Garras e tem arte de Bruno Ramella e Giuseppe Barbati. O roteiro nos coloca dentro da aldeia Sioux onde Ned passou alguns anos. Ele volta para lá depois dos acontecimentos da primeira história para poder descansar um pouco. Ao chegar lá, ele descobre que uma criança foi raptada por uma águia e todos estão desconsolados tentando entender o que de fato aconteceu. A mãe, Lua Brilhante, acredita que um sioux há muito acreditado como morto possa ter vindo em sua forma espiritual para atormentar a todos. Após buscar orientação com os espíritos, Ned sai em uma jornada perigosa para resgatar os ossos do sioux morto para colocar seu espírito em paz e evitar novas tragédias. Mas, o enredo parece ser muito mais complicado do que Ned imaginava.




A arte de Ramella e Barbati é sensacional. Agora sim a gente consegue ver o quanto a história consegue viajar e expor o estranho mesmo. Como essa é uma história voltada para mostrar o mundo mágico que cerca a aldeia sioux, o roteiro de Manfredi acaba criando situações incríveis onde a pena dos dois artistas conseguem brilhar. Algo que eu gostei demais é em como eles sabem criar ambientes que mesclam as longas pradarias típicas do interior norte-americano com o fabuloso oriundo das histórias lendárias. Tem uma sequência de cenas maravilhosa durante um ritual de falar com os espíritos onde Manfredi não emprega um balão durante algumas páginas de forma a deixar a arte mais livre. Outro ponto alto é em como eles conseguem usar o espaço vazio para significar alguma coisa. Ou seja, o que não está lá cria uma atmosfera de solidez, formando um horizonte onde podemos concentrar nossa atenção.


Temos uma história que vai servir para nos apresentar como é o lugar onde Ned foi criado. Os sioux nos introduzem ao insólito presente na história. O leitor está representado na figura de Poe que servem como nossos olhos e ouvidos. Seu ceticismo é o nosso e o roteiro se esforça para quebrar essa parede que separa o real do fantástico. Pouco a pouco vamos sendo convencidos de que existe muito mais do que o mundo nos permite enxergar. Temos também outros dois pequenos plots acontecendo no fundo. O primeiro deles tem a ver com o heyoke, uma espécie de bobo/comediante da vila que acaba perdendo sua confiança quando não é capaz de salvar a criança que fora raptada. A realidade desaba em suas costas e ele se sente frustrado por ser um heyoke. Quando ele nem ao menos é capaz de lutar por aqueles que ama, qual é o seu papel na aldeia? Poe vai servir como a voz da razão junto ao heyoke buscando alguma solução para o seu dilema. Como segundo plot teremos Ned precisando entrar em um lugar cercado pela névoa do fantástico onde ele terá de enfrentar uma série de desafios, contra árvores assassinas, turbilhões de água e um homem que parece ter a força de um animal. Esse confronto entre homem e natureza vai testar a coragem e a persistência do protagonista.


Mágico Vento é um quadrinho sensacional. Se vocês acham que quadrinhos italianos e faroeste são apenas Tex estão bastante enganados. Embora Tex seja o carro-chefe da Bonelli há décadas, outros personagens conseguiram pegar o tema e dobrá-lo para criar algo diferente do que já foi visto. E a narrativa de Ned Ellis em busca de sua memória enquanto enfrenta terríveis desafios pode ser uma boa pedida para você que deseja sair um pouco dos quadrinhos de super-heróis. Recomendo fortemente e pode ser uma ótima porta de entrada para um outro mundo de história legais como Dylan Dog, Zagor, Martin Mystere, Nathan Never e toda uma série de outros personagens que transformaram o quadrinho italiano em uma potência.









Ficha Técnica:


Nome: Mágico Vento Deluxe Vol. 1 - Forte Ghost/Garras

Autor: Gianfranco Manfredi

Artistas: José Ortega, Bruno Ramella e Giuseppe Barbato

Editora: Mythos

Tradutor: Júlio Schneider

Número de Páginas: 204

Ano de Publicação: 2017


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