• Amanda Barreiro

Resenha: "Love - A história de Lisey", de Stephen King

Luz e escuridão, amor e medo, devoção e perda - a história de Lisey contada pelo mestre do terror.


Sinopse:


Uma história de amor, de um casamento, de uma esposa dedicada e de um escritor bem-sucedido. Uma história de violência, de trauma e de loucura ― e sobre os segredos que permanecem após a morte. A história de Lisey está só começando.

Dois anos após a morte do marido, Lisey Landon decide que é hora de colocar os papéis dele em ordem. Afinal, Scott Landon era um escritor de sucesso, e há diversas partes interessadas em qualquer trabalho inédito deixado por ele, embora ela esteja determinada a recusar qualquer oferta. Casados por vinte e cinco anos, os dois compartilhavam de uma intimidade profunda e muitas vezes assustadora. Logo no início do relacionamento, Lisey descobriu de onde Scott tirava suas ideias ― um lugar capaz de curá-lo ou devorá-lo, chamado Boo’ya Moon. Quando é contatada por Zack McCool, um homem desagradável que diz que ela deve entregar os manuscritos ou sofrer as consequências, chega a vez de Lisey encarar os demônios que assombravam Scott ― e que agora podem ajudar a protegê-la. Assim, o esforço de uma viúva para organizar o escritório de seu célebre marido se transforma em uma jornada quase fatal ao mundo sombrio que ele habitava.

Um dos livros mais poderosos e íntimos de Stephen King, Love: A História de Lisey fala sobre a fonte da criatividade, as tentações da loucura e a linguagem secreta do amor.



Love: a história de Lisey


Quem diria que o mestre Stephen King poderia escrever algo tão romântico quanto A História de Lisey? Porque se tem uma coisa que precisa ficar bem clara é que este é um livro sobre um amor incondicional, acima de todas as outras coisas. Mas é também um livro sobre perda, luto e dor, que é por onde eu quero começar.


"Havia muitas coisas que ninguém contava sobre a morte, e uma das principais fora que as pessoas mais amadas demoravam para morrer no seu coração"

Esta é uma história bem peculiar, especialmente para os fãs do King, que com certeza vão estranhar a linguagem, a temática e a carga emocional contidas nas páginas. Já no começo do livro nós entendemos que Lisey é uma mulher viúva com a difícil tarefa de se desfazer de alguns pertences do falecido marido, um renomado escritor. Entre esses pertences estão materiais inéditos, talvez até um romance inteiro não publicado. O processo pelo qual Lisey passa é demorado, doloroso e maçante. De verdade. Se existe uma crítica a ser feita (e eu vou fazê-la logo para nos livrarmos desse peso e partirmos para as partes boas), é o tanto de páginas onde acompanhamos a monótona rotina anestesiada de luto vivida por Lisey.


Posso dizer que pelo menos 35 a 40% do livro se arrasta e é tão confusa e enrolada, com vários flashbacks, sonhos e devaneios que, sinceramente, vão exigir bastante paciência e interesse do leitor em desbravar a confusão de sentimentos vividos por Lisey. Somado a isso, a linguagem não contribui para que possamos entender o que está acontecendo - ao menos a princípio.



A escrita em A História de Lisey é um espetáculo a parte. Confusa e cheia de significados próprios, ela é também a própria alma da narrativa e ajuda na construção da relação entre Lisey e Scott e entre o casal e o leitor. Algumas palavras e expressões remetem ao passado de Scott, enquanto outras compõem aqueles dialetos "bregas" que desenvolvemos com a relação de intimidade entre pais e filhos, irmãos ou mesmo com nossos parceiros queridos; apelidos como "babyluv", "Lisey lindinha", "irmãzona" entre outros são frequentes até demais. Mas toda essa estranheza passa à medida em que a leitura evolui e vamos absorvendo esse vocabulário e os significados adquiridos na trama. Inclusive, passamos a desenvolver uma relação de afeto com essas palavras, aforismos e expressões diretamente pescadas da lagoa de onde Scott ia beber para criar suas histórias.


Apesar de ter achado todo esse processo muito desgastante e desmotivador, depois eu entendi: não seria possível tratar do assunto de outra forma, fosse ela mais simples ou mais rápida. Não seria adequado falar de morte e luto sem perpassar pela pior parte dele: o dia a dia, as pequenas coisas, as pequenas ausências, as lembranças de cortar o coração e os terríveis pesadelos que assombram aqueles que já perderam pessoas queridas. Com a Lisey não é diferente, exceto pelo fato de que Scott, seu amado esposo, carregava em si sombras que Lisey enterrou fundo dentro de sua memória, mas que agora precisam ser revisitadas.


E se você está se perguntando onde está o terror... bom, é aqui que ele entra. Entre um passado familiar horroroso, mundano e detalhadamente violento e um terror cósmico impressionante, vívido e - por que não? - mágico, Lisey precisa resgatar o passado para sobreviver a outro horror bem mais alarmante: as ameaças que vem recebendo de um fã obcecado por Scott e pelo material original do qual ela não consegue se desfazer.



O que mais impressiona em A História de Lisey (Love é o nome escolhido para a edição brasileira, apesar de não ter tanto sentido assim, exceto pela temática) é a habilidade de Stephen King em conduzir a história de um amor profundo de forma tão densa e emocionante e aliá-la ao terror mais brutal, tudo isso amarrado pelo fio condutor da imaginação de Scott Landon e seu misterioso lugar. Em Boo'ya Moon há cura, refúgio, paz e inspiração, mas há também perigos que a mente humana não consegue compreender, como o garoto espichado de Scott (está aí um monstro do SK que conseguiu finalmente me atingir). É o Stephen King em sua melhor forma no universo do terror cósmico, um dos elementos que o consagrou como o maior escritor do gênero na atualidade.


"ESPANE, babyluv: Engatilhe Sempre que Parecer Necessário."

Após a leitura de A História de Lisey, ficou muito claro para mim o porquê de este ser o livro favorito do autor, entre todos que já escreveu. Há uma entrega emocional inigualável aqui, uma dedicação apaixonada à Lisey e um cuidado muito especial com toda a narrativa. O próprio Stephen King já mencionou várias vezes a força de sua inspiração para compor esse romance: a esposa, Tabitha King. É a ela que King dedica seu livro, é o nome de Tabitha na epígrafe. Os sentimentos envolvidos nessa escrita com certeza ultrapassam Lisey e Scott, porque, apesar de toda a ficção e elementos que obviamente não são biográficos, o cerne do romance pode contar a história do casal King e de muitos outros: o amor, a união, a cumplicidade e, por fim, a dor e a superação.


Love: A História de Lisey é um livro surpreendente - romântico, bonito, mágico, mas também sedutoramente perigoso, capaz de levar o leitor a memórias sensíveis, dolorosas, e, com a mesma intensidade, também a lugares de sonho e mistério. E se houver de fato uma Boo'ya Moon acessível através da nossa imaginação? Talvez nossas doces lembranças e amores perdidos encontrem refúgio nessa nossa Boo'ya Moon secreta e particular, tão bela e tão perigosa como a nossa própria mente.


Recentemente, o livro foi adaptado pela Apple TV na série Lisey's Story, interpretada pela maravilhosa Julianne Moore. O roteiro recebeu as mãos e toques pessoais do próprio Stephen King, que parece bem orgulhoso de sua mais nova criação. Fica a dica!









Ficha técnica:


Título: Love: A história de Lisey

Autor: Stephen King

Tradução: Fabiano Morais

Editora: Suma

Páginas: 536

Ano de lançamento (no Brasil): 2021


Este livro foi cedido em parceria com a Companhia das Letras.


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